Não me reconheço mais.

São nas madrugadas que me encontro rodeado pelo veludo palpável da escuridão. Cada minuto passa lentamente, os pensamentos ficam presos como uma porca em um parafuso velho e enferrujado.

É difícil. Sabemos que ela está ali, no escuro, respirando em nosso cangote ofegante como um leão após a caça, sedenta como um camelo após atravessar o deserto. Sei que está ali. Tento me esconder, fugir de suas garras, mas elas não são visíveis. São anzóis presos na mente. Durante a calmaria, quase não balançam, seguem o fluxo e se deixam levar. Mas durante a tempestade rasgam os véus do equilíbrio. A falta de balanço se faz o paço da dança, uma dança sem ritmo, de altos e baixos onde você sempre é guiado mas nunca guia. É como um navio com vários capitães. Sabe-se o caminho mas não se sabe quem ouvir.

Muitas mãos são estendidas para esse marujo à deriva. Mas ele está no mar aberto durante a noite. A água entre por sua boca, abafando seus gritos de desespero, ou ao menos ele acha que está no mar. Ao acordar de seu pesadelo, (ou seria realidade?) percebe que sua gargante está seca. Não importa a quantidade de água que beba, a sensação de nó só faz crescer, como o medo que abita seu peito.

Tudo isso aconteceu e ela ainda está ali, escondida como uma estrela por detrás da nuvem, ciente de que eu sei de sua existência mas não conheço sua forma.

Sabes que se eu conhecer, posso destruí-la, e é tudo que eu mais quero.

Quem é ela?

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