Sentir-se bem

Se sentir bem nos dias atuais é muito difícil. Maldito seja o dia em que comecei a ler Sartre e não dei mais conta de parar. A náusea é real. Por mais que tentemos criar nosso mundo de belezas inabaláveis, a realidade está sempre esperando na próxima esquina. Na maioria das vezes as realidade tem uma face horrível, uma monstruosidade a ser encarada.

É difícil conviver em sociedade. Não sei se é porque vivemos em uma sociedade que resolveu retornar a idade média, ou pelo simples fato de que a maioria já se acomodou com o seu “lugar natural” na mesma. Não me sinto bem no meio disso. Primeiro porque tenho a necessidade de questionar. É questionando que me reinvento e redescubro os significados e crio outros tantos. Mas ser questionador virou sinônimo de confronto. É quase imediato. Não podemos mais discordar de uma ideia. Se for de um amigo então, é quase uma apunhalada pelas costas. Mas por quê? Provavelmente porque estamos perdendo a capacidade cognitiva de dissociar a pessoa e o argumento. Cada dia mais as pessoas ficam mais burras.

A burrice, como diz bem Marcia Tiburi quando fala dos fascistas em potencial, não aflige o burro, e sim que está próximo dele. Mas talvez eu ouse em acrescentar que a burrice se tornou contagiosa. Toda vez que um burro, carregado com argumentos pre-fundados, retirados de qualquer fórum online, decide debater algo com alguém, é encantador de ver. Primeiro porque o burro acreditando com tanta força no que ele está falando que provavelmente ele não parará de falar até que conclua o seu argumento. Mas é aí que está o problema. Normalmente o argumento da pessoa burra se contradiz todo o tempo. Isso porque o indivíduo não teve a capacidade de ir além da simples curiosidade no assunto. E é nesse momento que se tornar contagioso. Uma pessoa que nada ou pouco se interessa pelo assunto que está sendo debatido, começa a ouvir tudo aquilo, acaba sucumbindo a burrice alheia. Talvez aqui tenhamos um problema duplo; o burro que não procura fontes suficientes para fundar seu argumentos e o desinteressado que não está nem aí. Normalmente ambos andam lado a lado e discutem assuntos de importância, disseminando porcarias.

Quando nos deparamos com essa realidade, ou como diria Sartre, como encaramos a realidade, nos vem a ânsia. Na minha opinião, não existe nada mais assustador do que ver alguém disseminando abobrinha.

Quando me sinto bem, é quando consigo me distanciar dessas pessoas. Já não procuro mais entrar em qualquer forma de debate para expor novos pontos de vista, ou até para explicar que na realidade 1+1=2. Cada dia que passa, creio que o hedonismo Benthaniano seja o mais real, se contrapondo ao de Mill, uma vez que prolongar nosso prazer seja sim a intenção focal, independente da origem desse prazer. Talvez quando Mill escreveu sobre os prazeres elevados e os inferiores, ele não conhecesse os burros políticos. Pois se conhecesse, certamente diria que basta prolongarmos nosso prazer com grande intensidade.

As experiências diárias com pessoas de argumentos fracos me faz pensar em uma multiplicidade de fatores para que a pessoa tenha chegado aquele ponto. Certamente não foi a falta de acesso a uma educação de qualidade, e sim como ela se viu perante as infirmações e, talvez, que youtuber ela assistiu. Sim, youtuber. Chegamos na Era Youtuber, onde você procura informações relevantes que serão repetidas por, muitas vezes, um leigo com um canal na internet.

Sentir-se bem é isolar-se. Me desculpe Supertramp, mas a felicidade pode sim existir e não ser compartilhada. Inclusive, em boca fechada não entra mosquito.

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