Blues do Cão da meia-noite.

Era para ser somente um dia normal. O céu está escuro, com o mesmo tom do mar distante que tanto sinto falta. A cidade grita, os arranha-céus cobrem qualquer vista que poderíamos ter do paraíso. Pilhas e pilhas de experimentos humanos em toda a sua nojenta e visceral naturalidade. 
 Minhas pálpebras tremem de raiva. 
 É a mesma merda de sempre, os mesmos olhares de canto, o mesmo desdenho, o desgosto mutual.
 
 Eu sou um homem jovem, tenho menos de trinta anos de idade, eu acordo cedo e durmo tarde, eu pratico meus exercícios e como a minha comida. Toda manhã eu coloco um álbum de algum artista para tocar, algumas vezes, algo mais clássico, como Nick Drake, com seus tons e vocais suaves — porém, melancólicos. Esse homem sabia o que a solidão era, com toda a certeza, eu posso imaginar ele vivendo em um quarto de hotel, fumando seus cigarros à beira da janela, suspirando. É incrível o que esse homem consegue fazer com um violão. Com Nick Drake, eu me sinto conectado, uma conexão silenciosa e sem gesto algum. Nesse pequeno quarto de uma casa alugada em uma cidade do rio grande do sul, eu e Nick Drake somos um. 
 
 Quando corro durante a manhã, eu costumo observar o sol, o médico já me disse para evitar isso, porém, eu sempre me encanto com ele. Sua glória brilhante e silenciosa, o ser humano tem muito à aprender com o sol. O sol não grita com toda a força de seus pulmões ao acordar, o sol nunca tentou chegar à uma posição usando os outros como degrais, o sol nunca esfaqueou um cara por um celular. Isso é mais do que se pode ser dito da maioria das pessoas que convivo. 
 Nesse inferno suburbano, eu entendo o sol, eu e o sol somos um. 
 
 Em meu trabalho, eu uso de uma máscara. Uma gravata, uma pasta e um conjunto de canetas feitas para quadros de plástico, cor azul, tamanho 98. O conteúdo é fácil, aulas de inglês para adolescentes. Uma classe variada, temos os estudiosos, o pessoal que gosta de ouvir música alta e o resto do grupo que está ali somente em carne, presos nas telas de seus smartphones, de seus logos e suas marcas. 
 Eu rio, faço piadas, vejo as notícias da semana, converso sobre futebol, me imagino em outro lugar. Em outros momentos me pego pensando na minha casa. As mulheres dos recursos humanos me lembram as três irmãs harpias dos mitos gregos, eternamente bicando umas as outras, arrancando penas e acabando com a esperança de viajantes. É impossível que essa gente seja da mesma espécie que a minha, eu devo ser um alienígena, um experimento divino que não deu muito certo — Estranho demais para viver, mas, ainda, forte demais para morrer. 
 
 O sinal toca e a aula acaba. Eu pego a minha pasta, solto a gravata e caminho até chegar em casa. O caminho não é muito distante, são catorze quilômetros, pouco menos de uma hora e quinze minutos de caminhada, eu preparo o meu shake de proteína, me sento no sofá e tiro meus sapatos. Meu cabelo fede à colônia barata e velha, a cicatriz do meu braço ainda não fechou, deixando somente uma fenda latejante e ardente. Eu faço um curto banho e coloco roupas esportivas. Academia.
 Se eu pudesse categorizar os sentimentos que aqui sinto, eles seriam uma mistura de agonia e entretenimento. Quase como um acidente de carro. A maioria das pessoas perdeu a conexão com o seu corpo, elas vão de seus carros para seus escritórios, de seus escritórios para suas casas, elas se alimentam de forma ruim, elas se comportam de forma ruim. Egos selvagens e indomados, cães que após passarem por tanto tempo presos se acostumaram com as correntes e lambem os donos. Com o último abdominal, meu corpo treme e eu pingo suor. Sinto-me enojado e satisfeito. 
 
 Resta-me somente o descanso do dia, uma casa vazia e escura, muito sal e pouca carne. 
 Eu abro as janelas de meu quarto — meia-noite, a luz do luar invade minha morada, refletindo calmamente sobre azulejos brancos. Naquela janela eu avisto não muito distante da minha casa um cão negro de olhos brilhantes. Ele é grande e esguio. Ele somente está de passagem pela rua, porém, isso faz com que os demais cães sintam-se desconfortáveis com sua presença, o cão se aproxima das cercas e continua seu caminho silenciosamente. Ele sente as patas e dentes de outros cães tentando tocar sua carne, a raiva dos mesmos por conta do território que ele está invadindo. O cão dobra a esquina da rua e desaparece na escuridão, sem deixar rastros ou marcas. As janelas se fecham. O show acaba. 
 Nesse momento de escuridão pura, quando a luz do luar é coberta por nuvens, eu e o cão da meia-noite somos um.