A música contra o jornalismo

“Vejam só esse jornal, é o maior hospital,
porta-voz do bang-bang, e da policia central (…)
cada página é um tiro, um homem caiu no mangue,
só falta alguém espremer o jornal pra sair
sangue, sangue, sangue.”

Quando Miguel Gustavo compôs essa música, em 1961, não imaginava que mais de 50 anos depois, existiriam telejornais que ainda se aproveitassem do sangue para vender notícia. O jornalismo é uma via de mão dupla. Pode tanto ajudar a população como pode também confundir e distorcer. Não fica claro ao cidadão comum que todo meio de comunicação possui uma linha editorial composta de opinião, ou seja, a informação nunca é ~imparcial~. E é aí que mora o perigo. Os próprios jornais não fazem questão que a população entenda isso, pois perderiam credibilidade. Quando a sociedade percebe esse dissimulação, gera uma revolta e uma sensação de ingenuidade.

A música, assim como o teatro, o cinema, a literatura, utilizou de seu meio para mostrar ao ouvinte que não se pode acreditar 100% no que dizem por aí na mídia a fora. Tudo é necessário refletir e buscar outras fontes de informação. Além de “Jornal da Morte” (que abre esse texto), outras composições também denunciaram esse lado sanguinário do jornalismo, e sua falsa imparcialidade.

O Racionais chegou em 1997 com o disco Sobrevivendo no Inferno com 12 faixas com diversos clássicos. Em “Qual Mentira devo acreditar?”, Edi Rock já chega na primeira estrofe com críticas a Televisão: “TV é uma merda, prefiro ver a lua /Preto Edi Rock Star a caminho da rua”. Já em 2000, o Mundo Livre SA em “Por pouco” trouxe a faixa de mesmo nome, com um trecho pra lá de pesado: Contribuintes não contam / Torturadores não sentem / Esculturas de lama não morrem / Jornalistas mortos não mentem”.

Também temos “Soneto Revista” do Engenheiros do Hawaii, que é uma música inteira destinada à crítica ao jornalismo. E com razão. O jornalismo não é está acima da sociedade. Para evoluir, tem que saber receber críticas. Tanto que existe o cargo de ombudsman, um profissional do jornal que recebe e faz a autocrítica do veículo que representa. Infelizmente, apenas alguns jornais impressos possuem esse cargo, o que deveria ser quase que obrigação de todo meio de comunicação tido como grande mídia.

Podíamos listar aqui mais algumas dezenas de músicas que possuem algum trecho que coloca o dedo na ferida do jornalismo. “Amigos valem mais do que asfalto” do Pense, “Televisão” do Faces da Morte, “Artista ou Não” do Facção Central, “Televisão” do Titãs, “Santa Clara, Padroeira da Televisão”, de Caetano Veloso, “Arrombou a mídia” de Rita Lee, entre muitas outras. De diversos estilos e classes sociais, músicos levaram a mensagem que há algo de errado por trás dos canais que informam a população. Que assim continue, um vigiando a ação do outro. Devemos parabenizar quando um jornal faz uma grande matéria pensando em informar a sociedade, mas também devemos apontar quando agir de má fé e fingir não ver o que acontece realmente pelo país.

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