As adversidades do Haiti

Quando tinha 16 anos conheci a música Haiti, interpretada pela Trampa, mas originalmente de Caetano Veloso. A letra é do foda, mas mais sentido fez quando me interessei pela história do país.

O Haiti é o único país cujo a revolução dos escravos saiu vitoriosa, e culminou na independência, botando pra fora os franceses. E até aí a história seria bonita pra caralho, mas o “acaso” destruiu tudo.

O país sobreviveu às guerras, ditaduras, invasões dos Estados Unidos e ONU. Não que a Minustah não faça nada de bom, mas existem milhares de denúncias de crimes contra os soldados que, muito provavelmente, passarão impune.

Quando teve o terremoto em 2010, o Haiti começou a ser explorado pela mídia e um pouco mais sobre o país e seus cerca de 10 milhões de habitantes foi apresentado pros brasileiros. A maioria da população vive em extrema pobreza, e muito acabam migrando para outros países.

No início de 2015, o professor de Geopolítica da faculdade pediu para fazermos uma revista sobre cada continente, visando situações políticas. O do meu grupo foi Américas, e a matéria de capa seria o Haiti, devido aos processos migratórios e as tretas entre o governo do Acre e São Paulo, pois pra cá que os imigrantes que entravam pelo norte do país eram enviados (ou despejados). Uma das integrantes do grupo conseguiu o contato do Pipo, um jovem haitiano que topou fazer parte do projeto.

Pipo morava com a irmã na zona leste da capital, e buscava um emprego. Tímido, falava com muita saudade da mãe, e com muita dor do Haiti, principalmente por conta do terremoto. Falava dos medos dos haitianos da fronteira de vir pra SP por conta do que passava no jornal, da cidade ser violenta. Inclusive no dia que o conheci, ele contou que roubaram o celular dele recentemente. Falou do preconceito que sofreu no Sul, por ser preto e imigrante. Mas apesar de todas as adversidades, ele tinha muita esperança. De descolar um trampo, de estudar, de viver. Até de ir pros EUA onde já tinha uns parentes. “Conhecem o Cristiano Ronaldo? Jogo futebol igual ele”, brincou. Gostava muito do esporte e jogava nas horas vagas, além de ir na igreja.

No bairro do Glicério, vi aquele povo aglomerado e ocioso, esperando pela boa vontade do governo e da compaixão da população para se tornar “alguém” aceito socialmente. A dificuldade linguística dificultou uma possível aproximação, mas no olhar você vê quem é “gente da gente”. Por morar próximo ao centro de SP, convivo a vida inteira próximo dos mais diversos imigrantes, que sofrem na mão dessa sociedade paulista conservadora e preconceituosa.

Semana passada o furacão Matthews devastou novamente o Haiti. Mais de 800 mortos em todo o país. Enquanto o mundo discutia as pessoas estarem preparadas na Flórida para esperar o furacão, eu pensava no Haiti. Nesse país que o povo vive entre o medo das ditaduras e da natureza . Qual será o próximo desastre que esse povo vai ter que enfrentar: natural ou bélico? Rezar pelo Haiti, vai ser suficiente para o ajudar?

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