Cabelo bom é… qualquer cabelo

Era um dia de semana qualquer em Buenos Aires, bem cedinho. Parei em uma padaria indo para o trabalho, porque queria comprar uns quitutes gostosos para poder dar aquele reforço do café da manhã [a gordi como sempre em ação!]. Estava tranquila esperando para ser atendida e, de repente, uma senhora se aproximou e me deu um “bom dia” seguido de uma pergunta que, para mim, foi bem fora de contexto:

- Este é o seu cabelo mesmo ou é permanente? — Perguntou a senhora arregalando os olhos para os meus cachos, que na época estavam enormes.

- Sim, é meu cabelo mesmo. Não faço permanente. — Respondi à senhora com um tom desconfiado e, ao mesmo tempo, de “não é óbvio?!” Mas ela continuou com a entrevista louca no meio da padaria.

- Você não quer vendê-lo?

Sim, todos começaram a me olhar, provavelmente para saber quem era essa pessoa com um cabelo vendível. Claro, minha resposta foi um “não” ainda mais incômodo. Tentei disfarçar, dei uma risada e, claro, comecei a sair de perto dessa senhora estranha.

Discretamente, enrolei o cabelo e o acomodei em um dos ombros. Sei lá, de repente rola um mal olhado… Minutos depois, fui atendida pela simpática moça da padaria e, quando estava saindo, a senhora continuava lá, olhando meus cachos…

Essa foi uma das diversas situações que já passei em Buenos Aires por ter cabelo cacheado — talvez, a mais louca. Isso porque as argentinas são fascinadas e apaixonadas pelos “rulos” (cachos), já que a grande maioria tem cabelo liso ou ondulado. Muitas dizem que meu cabelo é lindo, perfeito, com volume, que mostra atitude e personalidade, tem estilo. Até querem saber o segredo para ter o cabelo todo enroladinho, com voltas impecáveis.

Apesar de escutar sempre os mesmos elogios há cinco anos [que meu ego agradece sempre, não vou mentir], para mim, passar por essa experiência ainda é, digamos, bizarro. Como sabemos, no Brasil, cabelo bom é cabelo liso, e os outros é cabelo ruim. Bom, assim cresci escutando toda minha vida, e ainda escuto. Também porque é comum associar cabelos volumosos a uma pessoa rebelde, com personalidade forte [melhor, difícil de lidar] ou simplesmente “é desarrumado”.

Então, explico isso às argentinas, que olham para mim com uma cara de “não acredito”. Para elas, não existe isso de cabelo “bom” ou “ruim” e, quando falo que para algumas brasileiras [ainda a maioria] o padrão de beleza é ter cabelo liso, porque é bom, a resposta é quase sempre a mesma: “cabelo liso é sem graça” ou “cabelo ruim é aquele que não é bem cuidado”. Além disso, digo que, por incrível que pareça, esse padrão ainda busca uma beleza loira e, se possível, de olhos azuis. E a indginação das argentinas segue: “Gente, a [negra/morena] brasileira é linda. Queria eu ter a cor e o corpo que vocês têm”. Sem comentarios, né…

Também explico que, infelizmente, fazia parte dessa parcela brasileira que queria o “cabelo bom”. Uma busca bem frustrada e triste, para falar a verdade. Mas, certo dia, decidi me rebelar, romper com esse “padrão” e orgulhosamente assumir meus cachos. E as argentinas me comentan que “ainda bem”, porque foi a “melhor decisão”.

Para o alívio de muitas, continuo nosso debate dizendo que no Brasil está rolando alguns movimentos em favor dos cabelos cacheados e crespos, e as empresas de cosméticos e novelas, que sempre ditam a moda popular no país, estão tentando acompanhar [?] esse empoderamento da nossa própria origem e, principalmente, das mulheres.

Por isso, abro um parênteses para registrar um exemplo lindo desses movimentos, a Marcha do Orgulho Crespo, que não conhecia e me emocionei quando vi esse vídeo da Revista Trip no Facebook. Como os participantes da marcha dizem, o segredo é algo bem simples: aceitar suas origens e quem você é, e pronto. E se alguém aparece com esse discurso de que cabelo bom é cabelo liso, relaxa. Essa pessoa está morrendo de inveja porque você está mostrando com orgulho essa pessoa maravilhosa e única que é. #ProntoFalei

Bom, paro por aqui, porque o debate é muito mais denso e merece mais linhas. E a ideia do texto foi apenas para empoderar essa temática a partir de uma reflexão fora da caixa, melhor fora do país.

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