O Rio de Bronze e de Prata

Aprendendo com os espelhos e reflexos desaguados.

Rafaela Nascimento
Aug 15 · 6 min read

Bem antes de ontem e um pouco depois que ainda agora~ Xangô era filho de Aganju, mas os dois nunca foram apresentados. Aganju era reconhecido e temido por seus poderes e qualidades, era o cara. Sua fama era tão grande que ninguém jamais o desrespeitaria. Aganju se vangloriava e para provar que nada temia sempre deixava a porta de sua casa aberta, pois tinha a certeza de que nenhum ser vivente tentaria invadir.

Já Xangô era famoso por seu jeito atrevido de ser, um dia, ele entrou na casa de Aganju. Xangô, o comilão, devorou tudo que havia na casa e depois foi dormir na esteira de Aganju.

Ao chegar em casa, Aganju se deparou com tamanha folga, lá estava Xangô deitado, num sono tranquilo e despreocupado rs
Imediatamente o sangue de Aganju ferveu e ele tratou de preparar uma fogueira. Rapidamente jogou Xangô no fogo, mas ele não se queimava, Xangô ria, debochava:

- Eu sou o fogo, como vai me queimar?

Aganju estava no auge da sua fúria, pegou Xangô como se fosse uma pluma e o pôs nos ombros. Decidiu que ia afogá-lo.

Chegando na beira do mar, se preparou para atirar Xangô na água e antes que pudesse fazê-lo ~ Iemanjá surgiu e o repreendeu:

- O que pensa que estás fazendo com nosso filho? Não pode matar nosso menino, Aganju!

Aganju pela primeira vez olhou com atenção para Xangô, mirando bem em seus olhos pode ver como eram parecidos, os mesmos defeitos, as mesmas qualidades, o mesmo jeito de agir e reagir, era como se olhar no espelho. Aganju então disse:

- Xangô, és tão atrevido quanto eu. És forte, feiticeiro e valente como só eu seria capaz de ser, és meu legítimo filho!

Os dois então dançaram e cantaram com a alegria do encontro, reencontro.


Na minha casa somos todos parecidos e diferentes ao mesmo tempo. Assim como na história, quem conhece meu pai ~ sabe que sou filha dele e tem gente que nem me conhece pessoalmente e sabe que eu sou neta do meu avô. Afinal somos todos que vieram antes e depois de nós, não somos início ou fim, somos continuidade, nossos objetivos são coletivos, falam sobre todos que vieram e vão vir. Como diz o ditado iorubá: “A família é o maior tesouro” e FAMÍLIA deve ser entendida não só como o padrãozin nuclear, mas a família ampliada que compreende um povo.

"Era eu era meu mano
Quando nós dois andava junto"

E a gente continua nas outras pessoas, a gente é outras pessoas ainda estando aqui vivinhos. Tem horas que eu esbarro no itan sobre Aganju e Xangô, volta e meia eu trombo pessoas que se parecem em muito comigo, então sinto vontade de jogar no fogo por não reconhecer que sou igual~ noutras vezes eu (me) admiro ao me ver no outro e vem a vontade de cantar e dançar o (re)encontro.

“Era eu era meu mano
Era meu mano era eu
nos pegamos numa luta
nem ele venceu nem eu”

A parte mais irritante é quando alguém que é parecido com você tenta abafar quem você é, aliás, muitas das vezes tenta abafar uma característica que a pessoa também carrega. É um pouco se desconhecer. É tentar apagar o fogo com gasolina. É tentar afogar a água. É tentar matar quem não acredita na morte.

É meio estranho você se sentir parte de alguém. Começa um movimento de sincronicidade e quanto mais conectado, mais combinado sem combinar, mais coincide. Os ibejis são sobre isso, falam do trabalho em equipe, alinhados eles podem vencer a morte, aliás, eles podem escolher a morte para garantir que a sua unidade continue, ela não os assusta, pois eles sabem que sempre vão voltar juntos.

"Eu não sei se Deus consente
numa cova dois defuntos
Era eu era meu mano
Era meu mano era eu"

Esteja atento e perceba quem se parece contigo e quem é diferente, até porque você pode e deve aprender com os dois, sabe-se lá se vocês combinaram que iam vir juntos nessa intenção e agora esqueceram? Antes de mais nada, você precisa se conhecer bem, saber se descrever, olhar bem quem é você no seu espelho de bronze, pois nem sempre temos a sorte de alguém avisar que a gente está brigando com nosso reflexo, assim como Iemanjá fez ao virar seu espelho de prata e revelar a conexão entre Aganju e Xangô.

Crédito do meme #ebonizefactor.

O esforço em nos observar se desdobra em observar os outros. Na minha casa, eu já disse, a gente é bem parecido, porém eu reconheço até as pisadas que são diferentes. Sei quando vem meu irmão, meu pai, minha mãe, minha irmã, as vezes eu sei/sinto que eles estão chegando e já abro a porta, passam alguns minutos e eles entram. A conexão se torna tão natural que a gente nem se surpreende mais. E assim vai acontecendo em outros espaços.

Quanto mais você se admira no espelho de bronze, mais você quer gente que se pareça bem pertinho~não só pela aparência ou por afeto ~ mas pelos objetivos serem parecidos. Mais você sabe onde você é continuidade ou rompimento no outro, onde você cabe ou não. O próximo passo é combinar o espelho de bronze e o de prata. Olhando bem para os espelhos aprendemos que qualidades e defeitos são questão de perspectiva e do que as situações exigem. E aí que a gente passa a se gostar mais. Assim as pessoas param de palmitar. Organizam e formam kilûmbus. Nascem as maltas. Formam-se as facções. Surgem as famílias. Constroem-se nações.

A parte maravilhosa disso tudo é saber que você nunca vai acabar, não vai morrer, sempre vai voltar em grupo, num só ou em dupla pra continuar o trabalho que já começou. Aí tu vai me falar:

“Finha, minha cobrínea, quem é que gosta de trabalho em grupo? Gosto nem de trabalho em dupla. Faço chorando o trabalho individual.”

Ninguém perguntou o que tu queria, eu falei lá em cima que o objetivo é coletivo, se for pra fazer o que cada paceru quer, não tem paceragem certa. Ninguém precisa gostar muito de trabalho em grupo, saca? Mas precisa fazer sua parte, tem gente que chega e faz a pesquisa, tem outro que fala, aquele que tem a letra bonita e faz o cartaz, tem o mais preguiçoso que só segura a cartolina(teu ancestral tá vendo essa patifaria), tu não pode querer ser o que só chega para botar o nome ou o professor que só quer saber de dar nota e não se preocupa em atuar na melhora, até porque só orienta bem quem já fez ou tentou fazer. Entendeu a metáfora?

“Era eu era meu mano
Era meu mano era eu
Eu vi a terra molhada
mas eu não vi quando choveu”

Eu penso que quanto mais a gente se empenha em fazer algo ~ melhor a gente se torna no que faz. Então se progredirmos bastante nessa estadia ~ na próxima a gente pode construir o castelo e na seguinte já volta pra comer e deitar na esteira do Rei, logicamente com o consentimento do Poderoso.

“Era eu era meu mano
Era meu mano mais eu”

autorretrato 2013 com interferências de 2019_ Eu sobre eu. Rafaela Nascimento

O Leopardo Feroz está vivo e eu sou parte dele e sou Ele, sou ainda mais quando tenho meus iguais comigo.

É só procurar que tu se encontra e acha os teus outros também.


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