E se você tivesse um melhor amigo?

Uma breve crônica sobre a solidão

A gente nasceu sozinho e vai morrer sozinho. Aceite e conviva.

Já deve ser umas sete horas da manhã. Moça, moça, ô, moça, eu não vou te assaltar, não, quantas horas, porra, ela atravessou a rua, são sete horas. A padaria já deve estar aberta, porra, aquele pão quentinho, o dono de lá é bom, lembro-me dele, preciso beber alguma coisa, ô, dona, ô, dona, me arruma um real aí, preta, gorda, filha da mãe, é pra comer, tô com fome, faz três dias que só entra a branquinha, essa puta que não me larga, também não largo dela, sempre fui assim, de resistir, preciso beber alguma coisa, já são umas sete horas, a padaria já está aberta, o dono de lá é bom, ele se lembra de mim, estudamos juntos no colegial, aquele gordinho português safado, a padaria deve estar a uns 40 metros daqui, vou lá, preciso botar alguma coisa pra dentro. Porra, tá sangrando, porra, como não vi este buraco, porra, não estou enxergando bem, tem um tempo já, já deve ser umas sete horas, porra, essas ruas esburacadas, não ri, não, sua puta gostosa, podia ser você com esse vestido curto eu ia ver sua bunda, mas me ajuda aqui, porra, não estou conseguindo levantar, cadê aquela preta gorda que sempre passa por aqui, cachorro, cachorro, ô cachorro, vem cá, cachorro, porra, atravessou a rua. Porra, cachorro, você não é o melhor amigo do homem?