O rock não nos fez ter vergonha da nossa cultura

Rafael Allegretti
Aug 9, 2017 · 4 min read

Tempos atrás li um artigo que diz que o rock nos fez ter vergonha da nossa cultura, dos nossos cabelos e dos nossos sotaques.

Dentre as muitas teses defendidas pelo autor, a principal é que o rock nacional dos anos 80 deixou a música mais “branca” e “careta”. Bem, precisamos ir por partes. Primeiramente, como podemos definir “nossa cultura”? O Brasil é um país continental e por isso não possui uma identidade cultural. Nenhum costume é mais importante que o outro. A cachaça tem a mesma importância que o chimarrão. O forró, a mesma importância que a moda de viola. A acusação de que o rock dos anos 80 deixou a música mais branca e careta também é descabida. A bossa nova teve origens na zona sul carioca e expoentes predominantemente “brancos”, como Roberto Menescal, Carlos Lyra, Sergio Ricardo, João Gilberto, Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Então, a bossa nova deixou a mpb mais branca…e mais careta? Não cabe aqui uma abordagem discriminatória, apenas o fato de que a bossa nova, assim como o samba de origem negra, são aspectos culturais dos quais devemos nos orgulhar.

A bossa nova deixou a mpb “mais branca”. E daí? Crédito da foto: http://escola.britannica.com.br

Agora voltemos ao movimento borbulhante do rock dos anos oitenta: Nenhum de Nós já incorpora arranjos de música nativista do Rio Grande do Sul. Um exemplo é a música “Fuga”, de 1984. O baiano Raul Seixas recebe três discos de ouro. A Blindagem, do Paraná, canta regionalidades do tipo “Quando me lembro / Do cheiro do mato / Da beira da estrada / De comer pinhão”. O cearense Belchior lança cinco discos. Uma década fértil também para o paraibano Zé Ramalho, com sete álbuns. Os mineiros do 14 Bis, influenciados pelo Clube da Esquina, com seis discos. Cazuza grava a bossa nova “Faz Parte do Meu Show”, em 1988. O virtuoso guitarrista baiano Pepeu Gomes é ovacionado no primeiro Rock in Rio, de 1985. Renatinho de Recife, outro virtuoso guitarrista nordestino, faz um heavy metal tupiniquim em meados dos anos 80, com a banda Metal Mania. O mesmo Renatinho produz grandes nomes da mpb, como Raimundo Fagner, Elba Ramalho, Luiz Caldas, Lenine, Dominguinhos, etc. E o que dizer da parceria entre Ivo Meirelles e Lobão? Ou da formação do Devotos [do Ódio] em 88? Ou do dueto entre RPM e Milton Nascimento em “Homo Sapiens”, de 87? Ou do rock contestador do baiano Camisa de Vênus? Em resumo, os fatos – estes desassociados de recortes idiossincráticos –, mostram que o rock nacional dos anos oitenta abraçou sotaques e culturas das mais diversas, de norte a sul do país. Na verdade, os anos oitenta pavimentaram o caminho que levou à fusão definitiva do rock com os ritmos regionais brasileiros, especialmente a partir dos anos 90.

O “novo baiano” Pepeu Gomes, no primeiro Rock in Rio, em 1985. Crédito da foto: http://www.jb.com.br

Vimos Sepultura levar esses ritmos mundo afora com uma versão para a música de “Umbabarauma” do Jorge Ben Jor e com uma introdução de berimbau em “Attitude”. Tocar no Rock in Rio com Zé Ramalho e contar com a colaboração de Carlinhos Brown em “Ratamahatta”. Duas músicas do álbum Roots sendo ainda gravadas em uma tribo xavante. A inserção de um baião na música “O Rio Severino” dos Paralamas. A cuíca chorada na versão acústica de “Marvin”, dos Titãs. A homenagem dos Engenheiros do Hawaii ao chimarrão em “Ilex Paraguaiensis”, com arranjos em acordeão. Os vocais de Bezerra da Silva em “Aposentadoria de Malandro”, das Velhas Virgens. O Manguebeat de Chico Science & Nação Zumbi. O “forrock” dos Raimundos. Tantra repaginando “Tropicália”. O projeto Moda de Rock. A versão arretada de Caetano para “Come As You Are”. Enfim, a mistura do rock com outros ritmos gera sonoridades riquíssimas, e o Brasil foi e sempre será um terreno fértil para essas experiências. Exemplo do que falo ocorre agora mesmo no cenário musical curitibano, com aquilo que vem sendo chamado de “o samba do sul”. A Machete Bomb mistura samba, rock, rap e hip-hop com críticas certeiras. E não é só isso: a banda utiliza um cavaco distorcido, ou cavaco profano, como os caras da banda gostam de chamar. Os exemplos não são exaustivos, mas apenas suficientes para mostrar que o rock nacional se orgulha, sim, dos nossos cabelos, sotaques e da “nossa cultura”.

Carlinhos Brown com a galera do Sepultura e Angra, no carnaval baiano de 2016. Crédito da foto: http://glamurama.uol.com.br

O Seu Jorge disse que o rock não é um gênero para negro e isso é um vitimismo infundado, pois o que ele não conta por aí é que a “sua” versão para “Starman”, do Bowie, é do Nenhum de Nós! Nem direitos autorais, nem os devidos créditos são atribuídos aos verdadeiros autores de “Astronauta de Mármore”. Ainda constam nos créditos do disco do artista fluminense que “todas as versões foram escritas por Seu Jorge”. Seu Jorge é um artista completo, mas poderia ficar sem essa! Fora isso, vida longa ao rock nacional. Vida longa à mpb.

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