Bem vinda Ditadura!

No dia 24 de outubro de 2014, publiquei um texto (que você pode conferir clicando aqui) onde denunciei o golpe que se avizinhava. Se você conferir o texto, me adianto pedindo desculpas por algumas imprecisões que em nada alteram o conteúdo original do mesmo. Havia já naquela época, o golpe que se concretizou em agosto de 2016.

Mas isso é passado. Dilma não vai retornar a presidência, e mesmo que retornasse, o estrago já está feito. Falemos do futuro portanto, porque é nele onde estão as possibilidades — pequenas — de melhorarmos nossa situação.

E para o futuro, me vejo na obrigação de alertar o fato de que uma nova ditadura se avizinha. E antes que alguém me chame de alarmista ou algo que o valha, vamos nos lembrar do que diz o dicionário sobre o significado da palavra ditadura:

substantivo feminino: 1. governo autoritário exercido por uma pessoa ou por um grupo de pessoas, com supremacia do poder executivo, e em que se suprimem ou restringem os direitos individuais; 2. Estado, nação em que vigora esse tipo de governo; 3. fig. excesso de autoridade ou de influência que algo ou alguém exerce sobre um conjunto de pessoas.

Sobre a primeira parte, creio que bate: governo autoritário exercido por uma pessoa ou grupo. Aqui você pode ler Temer, ou melhor a dupla PSDB-PMDB. Sobre a supressão e/ou restrição de direitos individuais, vamos por partes.

Vejamos por exemplo, a truculência policial sobre as manifestações Fora Temer. Débora Fabri, 19 anos, está cega do olho esquerdo, vítima de um tiro disparado pela PM de São Paulo. Não nos esqueçamos, por gentileza que o governador de São Paulo é Geraldo Alckmin — PSDB. E já que estamos exercitando a memória, convém nos lembrar do professor da UNESP, José Jairo da Silva, que em seu perfil no Facebook, celebrou a cegueira de Débora. Em suas palavras:

“De vez em quando tem notícia potencialmente boa. Uma garota ficou ferida na esbórnia pró-Dilma em São Paulo. Pode ficar cega. Se for petista é uma boa notícia, mas não vai fazer muita diferença, já que já são cegos como toupeiras.”

O que choca, ou ao menos deveria chocar, é que se comemore a violência contra outro ser humano desde que ele seja petista. Choca mais ainda perceber que a sociedade em geral está preparada para justificar todo e qualquer tipo de ação desde que ela seja direcionado aos petistas. Embora não esteja na Constituição, está na boca do povo: ser petista está proibido. E se você for, pode acabar cego, e ainda vão comemorar o fato. Como não se lembrar do belíssimo poema de Brecht?

Intertexto

Primeiro levaram os negros 
Mas não me importei com isso 
Eu não era negro 
 
Em seguida levaram alguns operários 
Mas não me importei com isso 
Eu também não era operário 
 
Depois prenderam os miseráveis 
Mas não me importei com isso 
Porque eu não sou miserável 
 
Depois agarraram uns desempregados 
Mas como tenho meu emprego 
Também não me importei 
 
Agora estão me levando 
Mas já é tarde. 
Como eu não me importei com ninguém 
Ninguém se importa comigo.

Hoje são os petistas a ficarem cegos, e os discípulos de Kim Kataguiri gritam “chola mais”, os leitores de Reinaldo Azevedo escrevem qualquer coisa em caixa alta e os bolsominions nada dizem por não ter capacidade cognitiva para algo além de babar ódio, ou ainda estão em processo de alfabetização. Mas amanhã a possibilidade deles serem levados é grande, e então ninguém se importará. Talvez não recebam tiros no rosto — aliás, porque os tiros que a polícia dispara são sempre em direção ao rosto? — nem percam um olho, mas percam décimo terceiro, férias, saque de FGTS e etc.

Hoje os que pediram a queda de Dilma tiram selfie com a PM, porque hoje o protesto deles é autorizado previamente pelo mesmo setor social que no passado pediu e celebrou com a intervenção militar, e no presente pede e celebra intervenção judicial.

E isto me leva ao último ponto que me faz crer que estamos rumando a um tipo específico de ditadura. O PowerPoint de Dellagnol para denunciar Lula. Aqui convém perguntar, afinal perguntar não ofende: para quem foi feito aquele trabalho vagabundo, assim como a entrevista coletiva que mais parecia uma palestra TED senão para a opinião pública?

Porque até onde me lembro, o julgamento de qualquer um — ex presidente ou não — é feito com rigor técnico, não com pirotecnia e apresentação de quinta série. Mas o trabalho já está feito, por mais que a internet tenha feito milhares de memes, por mais que não exista provas, apenas convicção.

O mesmo tipo de ser humano que celebra a cegueira do petista, que aplaude a PM espancando manifestante que pede Fora Temer, já firmou a convicção de que Lula é ladrão e fim de papo. Lula precisa ser preso ou ao menos ficar inelegível, do contrário seu ódio se vira contra a Lava Jato e também contra o super herói tupiniquim, Sérgio Moro. E se hoje prendem um ex-presidente sem provas, com seu aplauso inclusive, amanhã prendem você com o aplauso de outro alguém tão tolo quanto.

Meu ponto, portanto, é que a opinião pública está pronta para aceitar o discurso que pede a supressão de certos direitos, assim como esteve no passado, em 1964 apenas porque a nossa imprensa tradicional, com golpe no DNA, assim pede. Lembro muito bem o que diziam os editorias dos jornais durante o golpe de 64:

“Salvos da comunicação que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares que os protegeram de seus inimigos. Este não foi um movimento partidário. (alguém se lembrou do MBL aqui?) Dele participaram todos os setores conscientes da vida política brasileira, pois a ninguém escapava o significado das manobras presidenciais”. O Globo, 2 de abril de 1964.

“Desde ontem se instalou no país a verdadeira legalidade… Legalidade que o caudilho não quis preservar, violando-a no que de mais fundamental ela tem: a disciplina e a hierarquia militares. A legalidade está conosco e não com o caudilho aliado dos comunistas”. Jornal do Brasil, 1º de abril de 1964.

“Golpe? É crime só punível pela deposição pura e simples do Presidente. Atentar contra a Federação é crime de lesa-pátria. Aqui acusamos o Sr. João Goulart de crime de lesa-pátria. Jogou-nos na luta fratricida, desordem social e corrupção generalizada”. Jornal do Brasil, 1º de abril de 1964.

“Um governo sério, responsável, respeitável e com indiscutível apoio popular, está levando o Brasil pelos seguros caminhos do desenvolvimento com justiça social — realidade que nenhum brasileiro lúcido pode negar, e que o mundo todo reconhece e proclama”. Folha de S.Paulo, 22 de setembro de 1971.

Tanto ontem quanto hoje, jornais e outros canais da imprensa negaram o golpe e apoiaram o regime que se seguiu, ora ocultando os excessos, ora os justificando, pois tais excessos eram cometidos contra comunistas, sindicalistas, baderneiros, o que me faz lembrar o editorial da Folha:

“Grupelhos extremistas costumam atrair psicóticos, simplórios e agentes duplos, mas quem manipula os cordéis? O que pretendem tais pescadores de águas turvas? Quem financia e treina essas patrulhas fascistoides? Está mais do que na hora de as autoridades agirem de modo sistemático a fim de desbaratá-las e submeter os responsáveis ao rigor da lei.” Folha de S. Paulo, 2 de setembro de 2016.

Os baderneiros fascistóides são aqueles que se colocam contra o golpe. É assim que a imprensa os trata e é assim que a opinião pública os vê. E se por ventura, Lula não for preso, nem ficar inelegível, alguém duvida que a população aceite o fim de eleições diretas para evitar sua volta a presidência do país?

Acha absurdo algo assim? Pois no ano passado, para o bem ou para o mal, todos achavam igualmente absurdo o impeachment contra Dilma.

Em 2014 eu anunciei o golpe e estava certo. Dessa vez aviso a proximidade de uma ditadura, porém instaurada com a caneta de magistrados do direito ao invés de fuzis dos militares. Hoje, assim como ontem, quero estar errado.

Mas não creio ser o caso.

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