Carta aberta ao meu avô

Completam-se hoje 9 anos desde a sua partida. Sobre ela, prefiro pensar que é momentânea, que um dia nós iremos nos reencontrar. Prefiro pensar que você está em um lugar regado a cerveja, lambarizinho frito e futebol. E, caso esteja, com certeza esse é o paraíso que você sempre desejou.

A cada ano, escrevo as mesmas coisas de formas diferente a você. Eu não vou negar que faço isso apenas para me sentir mais próxima de ti. Mas faço também para liberar. Eu preciso e quero liberar todo esse sentimento que me invade no mês de setembro. É um misto de lembranças boas com a velha e dolorosa saudade, mas, mesmo assim, preciso externá-las de alguma forma. E não há forma melhor do que as palavras. Vai que você as lê aí de onde estiver, né?

As pessoas sempre associaram o número 13 à sorte. Não sei bem porquê. Mas desde que você se foi, o 13 tornou-se algo meio sombrio pra mim. Sim, você se foi em um dia 13. Nem 12, nem 14. 13. E aí eu pergunto: qual é a sorte que há nisso? Qual é a sorte em você perder alguém que só faz o bem?

Lembro-me ainda como se fosse hoje. Eu estava no 1º ano do Ensino Médio. Era semana de provas. Recreio. Estava entre amigos naquela hora, esperando dar a hora de subir e fazer a prova de História — ou Matemática, não me lembro muito bem. Conversa vai, conversa vem e eu, sem querer, avistei a minha mãe no meio do pátio do colégio.

- Mãe?
- Faz a tua prova e depois pegue tuas coisas. Teu vô faleceu.

Como eu faria a prova em tais circunstâncias? Eu nem me lembro como a enfrentei diante de tal informação. Eu não queria acreditar - e por anos não acreditei. Na verdade, a ficha só não me tinha caído.

Eu não conseguia colocar em minha cabeça que eu não veria mais você, vô. Era incabível. Era horrível pensar que chegaria em sua casa e não teria mais a sua presença. E foi ainda mais horrível quando percebi que, de repente, eu estava preparando sanduíches pro seu velório. Eu tinha apenas 14 anos, não estava preparada para perder alguém assim — na verdade, ninguém está. Nada faria mais sentido, sabe? As idas à praia, o Natal sem o “vovô Noel”, ir à feira sem comer pastel…

Talvez Deus já soubesse que em 2007 você não estaria mais entre nós. Talvez foi por isso que em 2006 eu passei praticamente todos os dias do ano em sua casa, desde manhã cedo até a hora de voltar do colégio, no fim da tarde. Talvez, eu não sei. Prefiro acreditar que sim. Prefiro acreditar que houve um motivo maior em eu chegar às 18h em casa e ouvir a TV transmitindo a novela Alma Gêmea. Talvez houve sim um motivo para eu ter pego justo você no amigo secreto daquele ano. Talvez. Como disse, prefiro acreditar que sim.

Desde a sua partida, muita coisa aconteceu. A saudade ainda é a mesma, mas a vida continua, certo? Entre idas e vindas da aula, certo dia avistei um senhor no ônibus muito parecido com você. O mesmo porte, o mesmo tipo de roupa, a mesma cor de cabelo, o mesmo tom de pele (aquele pardo, cheio de manchinhas), o mesmo bigode… Eu até cogitei que fosse você, mas não era. Só que foi bom, entende? Foi bom poder “te ver” mais uma vez.

Outro fato que me ocorreu foi há algumas semanas. Eu fui a um karaokê e no meio da noite as meninas resolveram cantar Boate Azul.

- Vem, Rafa.

Não fui. Não fui porque eu sabia que minha garganta ia trancar e meus olhos se encheriam de lágrimas. Então eu fiquei na mesa, cantei de lá mesmo, com um sorriso no rosto e muitas memórias na mente.

É gostoso saber que você ainda está presente em diferentes situações da minha vida, seja no jogo de tranca, no pastel da feira, no temperamento — que não, não era fácil de lidar. É bonito de ver que os seus netos mais novos — que infelizmente não puderam conhecer o avô incrível que você era — sabem quem é o vovô Ayldo. É gratificante entender o quanto você estaria orgulhoso dos seus filhos e netos. E esposa. Ela tá segurando uma baita duma barra sem você.

Eu teria mil coisas a mais pra colocar aqui, mas melhor guardá-las para uma próxima ocasião. Na realidade, eu estou finalizando o texto pelo simples motivo de não conseguir mais continuar. O peito tá apertado e as lágrimas estão escorrendo.

Então, vô, espero que de onde você esteja, receba essa carta. Receba de coração aberto, como você sempre teve — o que é uma ironia, de certa forma, já que você se foi por problemas cardíacos. Receba essas palavras como forma de agradecimento por ter sido esse ser humano iluminado e batalhador. Saiba que não importa onde eu esteja, sempre lembrarei com muito carinho do senhor.

Até breve,
Catifunda.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.