Nunca esqueça da criança que há dentro de você

Essa última semana vem sendo de extremo conforto e paz para mim. Tudo por conta da data que hoje se comemora. Não, não estou falando do Dia de Nossa Senhora Aparecida, mas sim do Dia das Crianças. Eu sei que em um país católico como o Brasil chega até a ser uma afronta colocar uma data comercial acima da religiosa. Mas, quer saber? Eu não me importo. O Dia das Crianças pode ser sim uma data comercial — e ela realmente é —, mas nada impede que ela me conforte. E como conforta.

Já faz um tempo que passei dessa fase, mas confesso que até alguns anos atrás ainda ganhava uma lembrancinha nesse dia 12 de outubro. Isso que dá “competir” apenas com o meu irmão mais novo na família por parte de pai. Por sermos os únicos netos/sobrinhos, acabamos sendo mimados mais do que o necessário. E eu não to reclamando não, até porque o mimo, no caso, não foi ruim, como muitas pessoas acreditam ser.

Eu cresci em uma família que não tinha tantas crianças assim para brincar. Era eu, meu irmão e dois primos. Nunca tive aquela montarada de primo que muito amigo meu tem. E por muito tempo fiquei triste por isso. Que bobagem, né? Ficar triste por não ter mais gente pra brincar, ao invés de ser feliz e aproveitar as crianças que faziam parte do meu dia a dia. De qualquer forma, eu não posso reclamar da infância que tive. Foi muito boa sim, com todas as férias sendo passadas em Guaratuba — e, de todas elas, não consigo me lembrar de uma sequer que eu não tenha reclamado de que não tinha nada para fazer. A gente vive reclamando de barriga cheia, né? Bem que me diziam que quando eu crescesse e começasse a trabalhar, eu ia agradecer mais do que tudo por ter um cantinho pra me refugiar em Guaratuba. Inclusive, contando os dias para o fim do ano e poder espairecer à beira mar.

Mas voltando ao que estava dizendo lá no início: essa última semana me confortou. No domingo, mais precisamente, enquanto ia para a casa do meu pai almoçar (sim, esse é um costume que trago há anos, desde que meus pais se separaram — e olha que tem tempo isso, hein), estava eu atravessando uma das praças mais conhecidas da cidade — a Tiradentes — quando me vejo cantarolando baixinho uma música do sapo juntamente com um sorriso no rosto. A intérprete era a Eliana, não tinha como não saber. Eu cresci ouvindo os discos dela, eu cresci fazendo a coreografia dos dedinhos (aquela do polegares polegares onde estão aqui estão, lembra?). Uma sensação tão boa tomou conta de mim na hora. Foi uma sensação que durou pouquíssimos segundos, mas que mesmo assim foi suficiente para aliviar um pouco toda a dor e confusão que carregava comigo naquele momento.

Fora o fato de cantarolar a musiquinha do sapo, nesse mesmo domingo resolvi ir ao cinema. Sozinha mesmo, não tinha nada mais para fazer. Comprei o ingresso para o novo filme do Tim Burton. Com temática infanto-juvenil, vi naquela sala gigantesca vários pais com seus filhos. Típico programa em família para um domingo, certo? Não sei, nunca tive. Não me lembro de muitas vezes que meus pais me levaram para ver um filme na telona. Lembro-me apenas de que minha mãe me levou pra ver Procurando Nemo e, meu pai, me levou pra ver aquele filme do Didi que tem a Sandy e o Junior no elenco (pros mais íntimos, Sandyjr). Só. Acredito que fui mais ao cinema com uma das minhas tias do que com meus próprios pais. Ah, essa tia sim, essa sabia que filme me levar pra assistir. Em sua maioria, filmes do Pokémon. Mas fazer o que, né? Era praticamente persuadida a coitada. Não restava mais nada a ela a não ser me levar.

Hoje, nos meus altíssimos 23 anos, tento dar a um dos meus primos, prestes a fazer 4, toda a atenção e as experiências que eu ou não tive ou tive bem pouco na minha infância. Idas ao cinema para ver um desenho que ele tanto ama (vulgo, Peppa Pig), leitura de histórias, apresentação de personagens icônicos não só da minha geração, mas também das mais velhas e, muito provavelmente, das futuras também. Sim, eu mostrei a ele o que era a tal da Turma da Mônica — que ele ainda insiste em chamar de Turma do Cebolinha, por que será, né? Eu dou a atenção exagerada que ele clama em ter — ok, às vezes não, porque eu sei que é birra, mas enfim —, eu brinco com ele das brincadeiras mais absurdas que uma criança pode ter em mente. Eu me faço presente em sua vida. Talvez por querer fazer ele entender que sempre terá uma pessoa disposta a encarar as coisas que ele tanto sonha em fazer. Assim como a minha tia fez por mim. Quem sabe lá na frente não seja eu que o leve às sessões de Pokémon no cinema, né?

Sabe, todo mundo já foi criança. E acho uma pena quem se faz de muito adulto para não se dar o gostinho de relembrar uma época em que ninguém se importava em ser melhor que ninguém. Todo mundo já foi puro e ingênuo — e que ótimo seria se ainda permanecêssemos assim. Mas a vida nos impede, o mundo nos impede. O dia a dia tá aí, as contas praticamente esbofeteiam a nossa cara. Mas se tiver ao menos um meio de me transportar dessa realidade que só cobra da gente, de inúmeras maneiras diferentes, eu me transporto. Porque ninguém é obrigado a aguentar tudo de forma bruta e dura, é preciso ficar em paz e tranquilo. Nem que pra isso acontecer tenha que cantarolar a tal da música do sapo.

Mas se você não quiser, te dou outra opção de música pra cantarolar. Aliás, acordei cantarolando ela hoje.

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