As relações entre o clã Bolsonaro e a milícia que executou Marielle

O be-a-bá de uma história que ainda vai dar muito pano pra manga

Rafaela Marques
Nov 1 · 6 min read
Condomínio Vivendas da Barra — Google Street View

Vocês tão ligados no tamanho do buraco onde esse país se enfiou? Bom, se não estão, senta que lá vem a história. Pra começar, talvez a gente precise definir com mais precisão o significado da palavra “milícia”.

Primeiro, é importante saber que o “Escritório do crime” é uma milícia. E milícia é sinônimo de máfia, só que tem uma diferença. Ora, todo mundo foi muito bem educado pelo cinema pra entender o que é máfia. São grupos criminosos que realizam atividades econômicas ilegais (tráfico de armas, drogas, pessoas, etc). Esses grupos têm muito poder, na forma de capital político e econômico, e atuam empregando métodos violentíssimos, em geral assassinando quem os desafia. Com tentáculos na polícia, no judiciário e na política, fica muito difícil desmantelá-los.

A diferença entre máfia e milícia é a seguinte: enquanto a máfia se forma fora do Estado, e penetra na sua estrutura para se manter ativa, criando vínculos com funcionários públicos e políticos, a milícia se forma dentro do Estado, como parte da articulação de seus agentes armados (forças policiais e militares, exército, bombeiros, etc). Por isso, a milícia tende a ser mais infiltrada (e ainda mais perigosa) que a máfia. As milícias dominam vastos territórios do Rio de Janeiro, e estão entranhadas de tal forma no Estado que não é exagero dizer que elas estão perto de todo mundo que mora por lá, mesmo de quem mora no Leblon. Afinal, delas fazem parte policiais militares que podem estar na patrulha da esquina, assim como ricos moradores de mega-apartamentos debruçados sobre a vista-mar.

Mas é claro que são as comunidades mais pobres e as regiões de classe média baixa as que efetivamente vivem sob o jugo miliciano, porque nelas esses grupos realizam suas atividades econômicas: o controle do transporte informal, a venda de drogas, a distribuição de armas, a venda de gás de cozinha, a venda de TV a cabo e internet, etc. Pobre também consome, e uma região de comércio pujante e baixa penetração de estruturas públicas é uma área sujeita à desregulamentação e atravessadores. Na prática, o que a milícia faz é extorquir comunidades inteiras, obrigando comerciantes e moradores a pagarem uma espécie de “pedágio”, vendendo proteção contra eles próprios.

Uma das pessoas que mais combateu milícias cariocas foi esse cidadão aqui:

Marcelo Freixo

Marcelo Freixo, hoje deputado federal, presidiu a CPI das Milícias em 2008, na Câmara Municipal do Rio. Teve Marielle Franco como assessora. Desde então, recebe ameaças de morte.

A outra foi essa mulher aqui:

Patricia Acioli

Juíza, Patricia Acioli tinha em mãos processos contra réus milicianos. Foi assassinada em 2011, ao chegar em casa, com 21 tiros disparados por armamento de uso exclusivo das forças armadas. Naquela época, Freixo saiu do país com a família. Hoje vive sob escolta permanente. Continua a denunciar as milícias cariocas.

Em 2016, depois de 10 anos de trabalho como assessora de Freixo, Marielle foi eleita vereadora do Rio.

Marielle Franco

Em 2018, foi assassinada enquanto voltava pra casa depois de uma atividade política. Dias antes de completar um ano de seu assassinato, o Ministério Público do Rio pediu a prisão de Ronnie Lessa, ex-adido da polícia civil, e Élcio Queiroz, como autores do assassinato.

Quem é Ronnie? Matador de aluguel, traficante de armas (tinha 115 fuzis desmontados pra revenda) e um dos chefes da milícia “Escritório do Crime”, que atua na região de Rio das Pedras. Mais um pouco sobre ele:

Conhecemos Ronnie quando ele foi preso em março. Com a sua fama repentina veio também a informação de que ele era vizinho do Presidente da República. Que coisa, não? Bom, ninguém escolhe os vizinhos que têm, mas é curioso que Ronnie e Élcio tenham estado tão perto de alguém que dá declarações deste tipo:

“Querem atacar o miliciano, que passou a ser o símbolo da maldade e pior do que os traficantes (…)” (Jair Bolsonaro, dezembro de 2008).

“Tem gente que é favorável à milícia, que é a maneira que eles têm de se ver livres da violência. Naquela região onde a milícia é paga, não tem violência” (Jair Bolsonaro, fevereiro de 2018).

Élcio Queiroz e Jair Bolsonaro

O fato é que Bolsonaro não era só vizinho de Ronnie. Ele também andou “confraternizando” com Élcio, o outro assassino, como prova a foto ao lado.

E era (ou é, vai saber) também mui amigo de Adriano Magalhães da Nóbrega, um terceiro elemento do “Escritório do Crime”, hoje foragido e também investigado por envolvimento no assassinato de Marielle.

Vamos saber mais sobre Adriano?

Agora um parêntese. Não fiz a devida apresentação de Fabrício Queiroz, mas muito provavelmente vocês sabem quem é: aquele das nomeações de funcionários fantasmas no gabinete de Flávio Bolsonaro. Em janeiro, ele andou se escondendo da polícia e da imprensa em… Rio das Pedras.

Toffoli é o mesmo que — agora sabemos — silenciou desde o dia 17 de outubro, quando chegou às suas mãos um documento oficial do Ministério Público do Rio, questionando se a investigação do caso Marielle deveria ser remetida ao STF, diante de novos fatos: o porteiro do Condomínio Vivendas da Barra afirmou em depoimento que, no dia 14 de março de 2018, dia em que Marielle foi assassinada, alguém que estava na casa de Bolsonaro autorizou a entrada de Élcio Queiroz (motorista do carro utilizado no crime). O carro se dirigiu até a casa de Ronnie Lessa.

Com a citação do nome de Bolsonaro, que tem foro privilegiado como presidente, instaurou-se uma dúvida no MP: a investigação poderia continuar a ser conduzida no Rio?


Quem mandou matar Marielle? A troco de quê? Por que Tóffoli beneficiou o filho zero-um de Bolsonaro e varreu a sujeira pra debaixo do tapete? Por que ele está em silêncio?

Por fim, e não menos importante: qual a motivação do assassinato de Marielle? Atingir Freixo? Passar recado ao PSOL e aos militantes em defesa de Direitos Humanos, que denunciam a corrupção policial nas comunidades? Todas essas perguntas importam muito, mas hoje, a pergunta da vez é outra.

Se Bolsonaro estava na Câmara Federal naquela tarde, como aponta o registro da sessão, quem estava na casa 58?

Quem atendeu o interfone e autorizou a entrada de um dos assassinos de Marielle no condomínio Vivendas da Barra? Por que essa autorização partiu da casa do presidente? E por que essa pessoa atendeu novamente o interfone, tranquilizando o porteiro quando o carro se dirigiu para a casa de Ronnie?


No ano passado, perdi amigos que votaram no Bolsonaro. Discuti com pessoas que não viram nada demais em dividir a posição política e a opção de voto com gente que, por exemplo, quebrou a placa em homenagem à Marielle.

Lamento? Sim. Se me arrependo? não. Se alguém votou no Bolsonaro e minimizou suas relações próximas com milícias e seus discurisos de defesa de criminosos, não dá pra alegar inocência.

Todo mundo é adulto aqui. É obrigação de todo mundo, não só de jornalista, saber o que se passa no mundo. Bolsonaro sempre foi isso que está aí: um ignorante, preconceituoso e corrupto, que sempre agiu motivado pela defesa de interesses criminosos. Só não viu quem não quis. O brasileiro achou que tava colocando um justiceiro no poder e colocou um miliciano.

E desaviso, ignorância e desconhecimento não são desculpas: todo mundo tem google na palma da mão o dia inteiro, e se você concluiu o Ensino Médio e não está abaixo da linha da pobreza, sinto muito — é sua obrigação moral conhecer a trajetória e não relativizar os discursos anti-éticos e violentos daqueles nos quais você vota.

Fica aí o aprendizado.

Rafaela Marques

Written by

Interessada em jornalismo, política, conflitos religiosos, gênero e direitos humanos. São Paulo, Rio de Janeiro, São Luís, Brasil. www.about.me/rafaelamarques

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