Ao Abismo.

Quando era criança cativava os adultos pelo meu sorriso e a pele sempre bronzeada do sol, os cabelos bagunçados por correr tanto na rua, ir até a praia e voltar para casa com as mãos repletas de conchas, mostrando a todos por quem passava, as pessoas sempre diziam: Essa garota vai se dar muito bem na vida.

Mas não fora isso que aconteceu, até o devido momento.

Eu amava o sol, deitar no quintal e ficar olhando as nuvens, sentar no jardim e imaginar um mundo com elfos, hobbit e uma grande ameaça onde minha missão era impedir a extinção dos seres que fui tentada a acreditar que existiam; Quando não estava no jardim, praticava competição (sozinha) de nado sincronizado na piscina, inventava histórias, sempre sozinha, jurando que nunca iria me cansar daquilo.

Sempre chamei atenção por ser a maria-sabe-tudo e quieta, inventava histórias, até hoje meus parentes comentam que sempre ficava pelos cantos e, quando me perguntavam o que estava fazendo, sempre respondia: Pensando.

Tem dias que penso nessa criança e não sei explicar como me tornei alguém tão triste, é como se em algum dia durante um mergulho na piscina tenha afogado meu lado feliz e voltando a superfície tudo ficou cinza; ao tentar retomar outro mergulho em busca de mim mesma e a felicidade, não encontrara nada além de silêncio e o infinito da água, o ar faltando em meus pulmões e ao emergir em busca do mesmo, me desesperar e engolir toda aquela água feita de imensidão do meu eu que se perdeu.

Agora tão longe de casa, longe daquela criança feliz que um dia me fez acreditar que tudo iria ficar bem, começo a perceber como tenho pouco tempo para me amar, nem que seja um pouco, me permitir ser amada sem medo do abandono futuro, tomar decisões por mim mesma e nunca desistir de melhorar.

Mergulho no abismo que habita dentro do meu ser e permito ser triste, aprofundar na escuridão que cultivei por tantos anos, mas a procura da felicidade, porque eu sei que aquela criança sorridente ainda tem esperança de ser resgatada, sei que ela me espera com um sorriso e paciência, se preparando para me resgatar de mim mesma, um abismo que acabou criando outro abismo dentro de si.