Estupro — Palavra que intimida, ato que continua.

Omorugà Demó
Sep 3, 2018 · 5 min read

Tenho percebido recentemente, bem como outras feministas — especialmente as radicais, por notarem a prostituição e a pornografia como violência até mesmo institucionalizada — que a classe/casta masculina não concebe o conceito de estupro, apenas o comete. Esse contexto pode se dar pelo fato que é a existência da cultura do estupro, que suaviza ou ameniza todo o conceito de violência sexual, inserindo a ideologia de que apenas alguns dos atos, os mais violentos e brutais atos, sejam chamados de estupro.

Para entender o conceito de estupro* basta apenas um questionamento simples e um pouco de lógica. O que é o estupro? É todo ato sexual cometido contra o consentimento e desejo de uma das partes. Logo, apontando que na prostituição, a mulher que se encontra nessa situação faz sexo com homens (em troca de dinheiro) dos quais elas nem se quer conhecem, nem admiram, nem confiam, nem desejam, e sejamos claros, muitas das vezes, o odeia, enoja, sente medo e contam os minutos pra que tudo acabe logo, justamente o faz porque precisa de sobreviver, sustentar seus filhos (caso tenha), ajudar sua família, estudar, dentre diversos motivos, na verdade está sofrendo o estupro pago. E o cliente por sua vez, sim, está estuprando aquela mulher prostituida, por saber que ela não o deseja, e que o faz somente por dinheiro, porque precisa sobreviver.

Neste contexto não excluo nem mesmo as chamadas “acompanhantes de luxo”, porque temos de fato uma cultura de consumo, uma ideologia que prega que só é possível ser feliz, completo, digno se os números da sua conta forem grandes além de uma série de imóveis e carros. E sinceramente, não tenho visto muitas mulheres terem uma vida luxuosa por seus próprios frutos, a maioria das mulheres que usufruem de uma vida de riquezas são casadas com burgueses ( o que se assemelha a prostituição) e as de fato “acompanhantes de luxo” e atrizes pornográficas — a prostituição é o que reservam a nós mulheres. Não há facilidade para mulheres conquistarem um cargo de poder, isso é um fato. Existem também as que entram na prostituição por acreditarem que isso as empodera, que isso as torna livres — talvez porque o liberalismo tenha consumido o pensamento e até o conceito de liberdade e poder — sendo justamente ao contrário.

Houve um exemplo muito claro de que o estupro precisa ser recheado de violência e brutalidade para ser considerado estupro em uma situação que presenciei. Um colega (convive comigo e com minha família por participarmos do mesmo culto religioso), simplesmente iniciou uma conversa em que relatava quando consumiu prostituição, segundo ele, seus amigos haviam pagado por uma mulher prostituida, em um local que ele chamou de “casa de massagem”, fora os mais tipos de comentários misóginos, também disse que aquela mulher declarou que havia tido uma briga com seu companheiro por ele não aceitar a atividade que ela exercia por dinheiro, além de ter oferecido drogas ilícitas.

Ao mesmo tempo em que ele contava, o silencio se instalava e ouvíamos toda aquela história, o que fez com que a situação fosse no mínimo constrangedora, pra não dizer triste e nojenta. Com calma argumentei que a história dele era romantizada, mas que a realidade estava no contexto ao qual mencionei acima, também explicando o porquê da prostituição e a pornografia significar estupro pago, e ele se defendia, mesmo que os outros homens que participavam daquele momento já não tentassem mais afirmar que não se trata de violência sexual. Conforme a conversa ia se desenvolvendo, ainda explicitei que a pornografia infantil e o tráfico de mulheres e crianças, se devia a este consumo e a esta cultura. Após muito tempo de explicações e exemplos ele finalmente cedeu, não porque havia compreendido e acatado, mas para que a conversa se finalizasse.

É importante pensar sobre o que todo esse cenário representa, esse colega não é um monstro, ele não tem aquela imagem horrenda que pregam do estuprador, ele não é alguém do qual as pessoas sentem medo. Mas naquele dia, aquela mulher em situação de prostituição sentiu medo dele. É exatamente o que precisamos entender ao falar de estupro e estuprador. Quando nós feministas estamos dizendo que existe uma cultura do estupro, é porque esse tipo de violência, dentre outras, está presente no nosso cotidiano, nas nossas vidas. O estupro é aquela relação que foi “consentida” de tanto que o namorado insistiu e ameaçou terminar o relacionamento. Estupro é aquela relação em que a mulher está fazendo sexo sem desejar seu marido, mas porque acredita que essa é sua obrigação — já que não foi alugada como uma prostituta mas vendida como esposa (prostituição e a instituição casamento são muito similares neste ponto). O estupro é aquela situação em que uma mulher alcoolizada ou sob efeito de drogas é submetida a um ato sexual sem condições de consentir. O estupro está naquela relação que uma mulher fingiu estar gostando, escondendo o quanto repugna aquele homem, por dinheiro. Estupro está naquela atriz pornográfica que faz sexo exaustivamente sem desejar (inclusive tendo que aceitar todo tipo de bizarrice sexual) para que sua imagem seja vendida para sempre também por dinheiro, assim como estupro também é aquela relação em que uma mulher grita por socorro ou fica paralisada diante de seu pânico pela perversidade de um homem.

E homens comuns, próximos a nós, estão nestes atos, estão sendo os estupradores, e sinceramente, não entendo como ainda não perceberam, ou fingem que não, que todas essas ações os tornam estupradores, ainda que seu grupo de amigos homens o incentive a isso, mesmo que essa cultura de estupro exista. Os falta racionalidade, estão afundados em seus privilégios, se dizem contra o estupro e a violência sexual, mas são os mesmos que gostam e se excitam ao assistir uma mulher sendo torturada num filme pornográfico, mesmo que no fundo saibam que aquela mulher não deseja estar ali. Os mesmos homens que assistem no noticiário e se revoltam ao ver o caso de uma criança que foi abusada, são os mesmos que mais tarde assistem pornografia em que uma mulher se veste e imita uma criança. E seguem fingindo que não são estupradores e que não são coniventes com essa cultura.

Sabe o que queremos? Que estupro seja levado a sério, que os homens possam conversar entre si para que criem essa consciência de forma coletiva. E, principalmente que parem, parem com essa cultura, parem de estuprar, mesmo que o que está fazendo seus amiguinhos misóginos não considerem estupro. Porque esperamos que em breve a sociedade perceba isso de forma geral, e serão todos chamados de ESTUPRADORES, porque é o que vocês são.