A Estrada Era Longa.

Rafael Baliú
Aug 29, 2018 · 11 min read

Daquelas em que não há nada entre você e o horizonte a não ser pelos postes de eletricidade e uma ou duas árvores esparsas. Isso não era coincidência. A casa foi construída ali de propósito, longe dos olhares alheios.

Era uma casa de madeira, encostada ao pé de uma montanha. Uma grande varanda na frente e uma caminhonete estacionada ao lado. Um lugar agradável, bem na fronteira entre a planície amarela e uma cadeia de montanhas verdes.

Havia um garoto sentado na varanda, olhando a distância.

A estrada era longa e aquele era um dia seco, com o sol alto e amarelo no céu. Um daqueles dias em que o suor seca na sua testa assim que aparece, deixando a pele com uma sensação gosmenta. Por isso a maioria das pessoas nessa parte do país ainda usa chapéus.

Todos os personagens dessa história estão usando chapéus simples, de palha. Todos eles. O garoto na varanda. O pai dele. As crianças. Todos menos os pássaros.

A estrada era longa e o dia quente e seco, portanto as crianças tinham algum motivo para ir até lá. Eles não teriam andado toda aquela distância, debaixo do sol, se não houvesse algo que precisavam fazer na casa.

O garoto sentado na varanda se perguntava o que poderia ser, enquanto os via se aproximarem. Ele os conhecia. Eram meninos mais novos, sempre o cercavam e pulavam ao seu redor quando ele ia para a cidade. Já havia brincado com eles algumas vezes, mas não lembrava o nome de nenhum. E, claro, eles não sabiam que seu nome verdadeiro era Lumien.

Em sua presença os olhos das crianças brilhavam e elas não conseguiam parar de admira-lo, como se ele fosse sumir a qualquer momento. Isso sempre o fazia se sentir um pouco constrangido.

Elas sabiam sobre ele, é claro. Todos na cidade sabiam. Fingiam que não, alguns talvez não acreditassem, mas todos tinham ouvido uma ou outra história sobre o garoto dos Jones. Mas eram todos discretos. Seguiam a filosofia de que não era da conta deles. A não ser pela velha senhora Doris, mas ela foi uma exceção.

Fora isso, muito de vez em quando, alguém aparecia. Alguns tarde da noite, bêbados, de joelhos, os olhos vermelhos de tanto chorar, notas amassadas de dinheiro tiradas do bolso.

Eles abraçavam as pernas de seu pai enquanto imploravam.

Alguns vinham de dia. As mulheres costumavam vir de dia. As pessoas mais velhas vinham durante a tarde, quando o sol não estava tão inclemente. Seus rostos eram sérios, sóbrios. Falavam de modo calmo, os olhos baixos. Sempre falavam com seu pai, nunca com ele.

Todos ofereciam muitas coisas, mas todas as vezes que o Sr. Jones concordou em ajudar (e não haviam sido mais do que dez), ele nunca aceitou nada. Simplesmente dizia que seria naquela noite ou na noite seguinte.

A pessoa agradecia. Alguns veementemente, outros com um aceno de cabeça apenas. Depois de agradecer, se dirigiam pela primeira vez a ele. Então, sob o olhar atento de seu pai, o beijavam. Sempre o beijavam. As vezes no rosto, as vezes nas mãos, as vezes nos pés. Então voltavam caminhando pela estrada.

A estrada era longa, mas todos vinham a pé. Nenhum nunca veio de carro.

Um dia Lumien perguntou ao pai o porquê, enquanto via um senhor especialmente idoso mancando com dificuldade para longe.

O Sr. Jones explicou que vir a pé era um sinal de respeito, como uma romaria. Lumien não sabia o que era romaria, mas concordou com a cabeça. Com o tempo decidiu que romaria era quando alguém andava uma grande distância para pedir um favor.

Depois que eles partiam, o dia transcorria normalmente. Ninguém mencionava o ocorrido, falavam de banalidades como se nada tivesse acontecido. Então naquela noite, ou na seguinte, quando quer que o pai tivesse combinado, o Sr. Jones ia para o carro e assobiava. Lumien surgia de onde estivesse e entrava no carro com ele. E eles partiam pela longa estrada.

No primeiro trecho ficavam em silêncio. As vezes o pai murmurava, como se estivesse ensaiando o que ia falar em seguida. À medida que se aproximavam de seu destino, Sr. Jones começava a falar sobre a pessoa que iam ajudar. Sempre começava dizendo que ela era uma boa pessoa. “O Sr. Milo é uma boa pessoa,” “a viúva é uma boa pessoa” ou “o xerife é uma homem honrado…”

Então ele falava sem parar sobre todas as coisas boas que a pessoa fez, ou todas as dificuldades pelas quais ela passou.

Lumien não gostava dessa parte. Parecia que seu pai precisava convence-lo a fazer aquilo, quando a verdade é que ele o faria mesmo se não pedissem.

Na viagem de volta, eles ouviam música e conversavam sobre bobagens.

Quando chegavam em casa o pai o segurava pelos ombros e se ajoelhava até seus olhos ficarem na mesma altura. Então dizia, “você fez bem, filho.” Lumien gostava dessa parte.

E eles nunca mais falavam sobre o que aconteceu.

O Sr. Jones falava pouco, então Lumien aprendeu a valorizar cada palavra. Ele era um homem grande, com um maxilar largo e olhos apertados e duros. Eles eram opostos, pai e filho. Lumien era franzino e tinha olhos grandes e profundos. O garoto puxara à mãe.

Havia uma música triste no ar, enchendo o dia seco e quente e a longa estrada com uma melancolia quase lírica. Como se ela fosse o palco do ato final de uma ópera.

Lumien nunca tinha ouvido um canto parecido antes. Combinava com a imagem das crianças se aproximando. Elas estavam perto o bastante agora para que ele visse seus rostos e ele soube no mesmo instante: era uma romaria.

Fazia sentido… afinal as crianças com certeza sabiam. Ele havia feito na frente delas uma vez, com uma rã. Elas não cabiam em si de emoção. Ele as fez prometer que não contariam.

Elas prometeram, mas não adiantou de muita coisa.

Uma semana depois a velha senhora Doris estava gritando na praça da cidade. Usando palavras fortes como “Anticristo”, sugerindo coisas bem radicais.

“Se o povo daqui não vai me ajudar,” ela dizia, “tem outras cidades em que vão!”

Até hoje não sabem como a velha senhora Doris descobriu, mas Lumien não acha que tenham sido as crianças. Desde aquele dia, porém, seu pai se tornou muito mais cauteloso. Não houveram mais romarias e a espingarda estava sempre ao alcance da mão. Novos tempos.

A estrada era longa, mas havia acabado. As crianças chegaram até a casa. Todas tinham o rosto muito sério, muito triste. Elas não falaram nada, mas se esbarravam umas nas outras de modo tímido, como se desejando que algum outro começasse o contato.

Elas sussurram entre si e por fim uma delas tomou coragem e se adiantou, andando até a varanda. Ele levava algo em suas pequenas mãos em concha. Encarando Lumien, o menino lentamente as estendeu, revelando um pequeno pássaro.

O pássaro tinha um furo no peito onde a bala de chumbo entrou. Ele devia estar vivo quando as crianças começaram a andar, pois as mãos do menino ainda estavam úmidas de sangue quente. Era um belo pássaro.

Lumien balançou a cabeça, infeliz.

“Não,” falou ele.

“Por favor,” pediu a criança.

“Eu não posso consertar seus erros.”

“Por favor!” o menino insistiu.

“Por que vocês fizeram isso?”

A criança pareceu prestes a chorar, mas engoliu em seco. Respirou fundo. Claramente passou o caminho todo até ali pensando em como responder aquela pergunta.

“Foi sem querer!”, começou ele. “Mais ou menos… nós queria mesmo acertar ele. E conseguimo. Nossa, na hora a gente ficou felizão. Eu fiquei… Queria acertar mais bichos até. Mas daí a gente viu, ouviu né? A companheira dele, ela tá muito triste.”

O menino se virou e olhou para cima do poste elétrico mais próximo á casa. Em cima dele, um pássaro igual ao que estava em suas mãos cantava o lamento que dominava a atmosfera.

“É a música mais triste que eu já ouvi.” Continuou a criança, e falava sério. “Ela sente muita falta dele. Eu sinto muito, eu não sabia eu juro que não sabia. Eu aprendi.”

Lumien olhou o menino, indeciso.

O rosto da criança estava vermelho, mas ela não chorou. “Só dessa vez.”

Lumien soltou o ar devagar. Cuidadosamente estendeu as mãos. Pegou o pequeno animal das mãos da criança.

O menino recuou vagarosamente pelos degraus até se juntar aos outros. Todas olhavam fixamente para o garoto de olhos fechados e expressão concentrada. Pareceu que eles ficaram assim por um longo tempo. Tempo o bastante pra algumas crianças se coçarem, desconfortáveis.

Mas de repente, num susto, os olhos de Lumien se abriram de uma vez e ele atirou o pássaro na direção deles. O animal bateu asas e subiu, deixando penas brancas e marrons ao seu redor.

Foi um momento mágico.

Era como se o tempo houvesse sido suspenso. O garoto com as mãos estendidas e as crianças olhando para cima, todas boquiabertas. O pássaro voando poucos metros sobre eles, algumas penas esvoaçando ao seu redor e o sol dando um tênue brilho a todas elas.

O animal não estava confuso, não estava se perguntando o que aconteceu ou como. Só estava feliz de estar vivo. Seu pequeno coração palpitava dentro do peito, nenhum chumbo dentro dele.

Voava para o poste elétrico mais próximo, onde sua companheira o esperava. Apenas algumas horas antes ele havia concluído a corte. Era oficial: iriam montar um ninho juntos naquele verão.

O estrondo veio como uma onda e atingiu-os um de cada vez. O momento havia acabado.

O pássaro caiu novamente, levantando uma pequena nuvem de pó.

Todas as crianças deram um salto e se viraram lentamente para a origem do barulho. Atrás de Lumien, Sr. Jones ergueu a espingarda até sua própria boca e soprou a fumaça que saia do cano.

“Que diabos vocês querem aqui?”, perguntou ele.

As crianças não responderam à princípio, assimilando lentamente o ocorrido. Só quando ele repetiu mais alto pergunta, um deles se prontificou.

“Viemo trazer o pássaro,” disse ele, gaguejando. “Nós queríamos que ele vivesse de novo.”

“Isso é impossível. Algo que está morto, nunca voltará a ficar vivo.” Respondeu Sr. Jones, sério. E ainda completou: “Essa é a lei de Deus”.

As crianças eram novas, mas não eram burras. Nenhuma delas pensou em responder. Elas sabiam que ele sabia que aquilo não era mais verdade. Elas entenderam a mensagem. Indecisos, ficaram em silêncio olhando para o homem com a espingarda, com medo de se mexer.

“Vocês não conhecem a lei de Deus?” Insistiu ele.

“Desculpe!” implorou a criança de mãos ensanguentadas, finalmente começando a chorar. “Nós só queríamos que o canto triste parasse!” E indicou com a mão o poste elétrico mais próximo, de onde o lamento havia voltado a se ouvir.

Outro estrondo. O homem assoprou a fumaça do cano da espingarda uma segunda vez.

“Ele parou.” Disse o homem, e de fato havia parado. “Agora vão embora”.

As crianças se viraram, sem dizer outra palavra. Mantiveram uma distância respeitosa dos corpos dos pássaros enquanto se afastavam. A criança que chorava parou uma última vez para olhar para o garoto Jones, depois se juntou aos outros.

Sr. Jones apoiou a espingarda e sentou-se numa cadeira ao lado do filho, onde começou a enrolar um cigarro. Lumien observou enquanto eles se afastavam. Era algo triste de se ver, aquelas crianças pequenas marchando em silêncio sob o sol. Seus passos derrotados deixando pequenas pegadas na estrada.

E a estrada era longa.

Lumien agora sabia que romaria era quando alguém andava uma grande distância para pedir um favor. Ele se perguntou qual seria a palavra para a caminhada de volta, depois que o favor foi recusado.

“Achei que nós tínhamos conversado sobre isso”. Disse o Sr. Jones, acendendo o cigarro quando as crianças estavam longe demais para ouvi-lo. Seus olhos ainda fixos no horizonte.

“Sinto muito….” Disse Lumien. “Era só um pássaro, eu achei que não teria problema.”

Sr. Jones era um homem paciente. Esperou um longo tempo, só olhando para a planície.

“O problema não são os pássaros, filho. Pássaros nunca fizeram mal a ninguém.”

“Eu sei…”

“O problema são as pessoas. Elas…” E então percebeu que não havia mais nada a dizer. “O problema são as pessoas.” Repetiu

O silêncio é a parte mais importante de qualquer diálogo. O Sr. Jones sabia disso. As crianças ainda eram visíveis, embora meros borrões agora, distorcidos pelo calor. As duas árvores até o horizonte estavam verdes, bem verdes, suas folhas projetavam longas sombras pra quem quisesse se abrigar do sol. No chão diante deles, havia um pássaro morto. Alguns metros adiantes, ao pé do poste elétrico, havia outro. O problema são as pessoas.

“Você entende isso?” Perguntou Sr. Jones quando o silêncio acabou.

Lumien fez que sim.

“Você prometeu que nunca ia se mostrar desse jeito de novo”, seguiu ele, olhando o filho nos olhos pela primeira vez desde que entrou na varanda. “Que nunca mais ia deixar ninguém ver do que você é capaz. Você lembra disso?”

“Eles são apenas crianças…” Disse Lumien, sem muita convicção.

“E a velha Doris era só uma velha. Mas ainda assim, ela se assustou. Se assustou porque não entendeu. Ela queria machucar você, queria mesmo. E se não fosse ela, não ia demorar para achar alguém com tanto medo quanto e um pouco mais de determinação. Me promete de novo, filho, que você nunca mais vai se mostrar assim. E dessa vez fala sério.”

O garoto prometeu. E dessa vez falava sério.

“Bom,” disse o pai, e voltou a fumar contemplando o horizonte.

Eles ficaram assim por mais algum tempo, então o garoto juntou coragem para fazer a pergunta que queria fazer a quase um mês.

“E a velha Doris? A gente não tem mais que se preocupar?”

“Não,” disse o pai.

Mais silêncio.

“E se acharem ela?” Arriscou o garoto pela segunda vez.

O pai balançou a cabeça negativamente. “Não se preocupe com isso.”

O Sr. Jones estava confiante. Ele e o xerife colocaram a velha embaixo de um leito de pedras. Mesmo que um coiote se perdesse e fosse parar naquelas bandas, ele não se daria ao trabalho de desenterra-la.

O pai jogou a ponta do cigarro no chão e pisou sobre ela. Levantou-se e espreguiçou-se longamente. Então se virou e pegou sua espingarda.

“Você vai manter sua promessa?” Insistiu ele.

“Sim,” disse Lumien. “Sem mais milagres.”

“Não era isso,” disse o pai. “É só pra você não se mostrar.”

Lumien olhou para ele, intrigado. Sr. Jones olhou para os dois pássaros, depois para o garoto, e abriu um sorriso. O garoto sorriu de volta. O pai entrou.

Lumien olhou na distância e esperou até as crianças sumirem no horizonte.

Demorou algum tempo. A estrada era longa.

Mas no momento em que elas sumiram, ele se levantou.

Menos de cinco minutos depois, os pássaros voavam sobre as montanhas. Eles brincavam e rodavam entre si, seguindo uma corrente de ar quente que soprava para o sul. A fêmea cantava uma canção alegre, sobre viver, sobre reencontro. O macho girava em torno dela, como que em transe, enquanto pensava onde montariam seu ninho. Suas sombras passaram por cima de um grande leito de pedras.

Não havia sinal de coiotes por quilômetros e quilômetros de distância.

FIM

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