Mestre Gin

Rafael Baliú
Aug 20, 2018 · 3 min read

Essa é mais uma História SurReal. Qualquer semelhança com a realidade é meramente cômica!


Eram os anos 60 e meu avô era cadete. Ele estava de plantão na base aérea de Natal quando o telefone tocou. Era a polícia e eles estavam bem bravos: um deles estava morto. Meu vô não entendeu porque estavam ligando para a Aeronáutica se aquilo era uma morte de bar, mas então eles mencionaram o nome do Mestre Gin…

Carinhosamente chamado de “oficial artístico”, Mestre Gin era o funcionário que pintava as placas, murais e aquarelas de aviões que adornavam as salas dos comandantes e os refeitórios da base aérea. Não era um oficial de verdade, mas ganhava uma soldo mensal da aeronáutica que era repassado quase integralmente ao dono do bar. Se encher a cara fosse esporte olímpico, ele seria medalhista de ouro. Tinha mais de setenta anos e poucas pessoas o tinham visto sóbrio.

Um dia a esposa dele pediu uma audiência com o brigadeiro, o responsável pela base aérea. A pobre senhora explicou que o salário do marido acabava antes que ela pudesse pagar as contas. Pediu ao comandante que entregasse o soldo do Mestre Gin direto para ela. Com pena da senhora, o brigadeiro aceitou. O dinheiro não passava mais pelas mãos do velho e portanto não chegava ao dono do bar. O Mestre Gin ficou sem gin.

Tempos difíceis. As aquarelas já não saiam tão boas de tanto que suas mãos tremiam. “Álcool não é luxo, é combustível!”, ele reclamava. Foi então que ele reparou na composição do thinner que ele usava para dissolver as tintas de pintura. O solvente tinha 45% de álcool na sua composição e a aeronáutica lhe fornecia com um estoque enorme do produto…

Primeiro ele jogou um jato de thinner na coca cola, mexeu bem e foi bebericando aos poucos. Depois já começava os dias com suco de laranja e duas doses de solvente. Ao fim de um mês, o copo tinha quase a mesma quantidade de thinner que de água de coco. Até o dia em que meu vô testemunhou o Mestre Gin jogando um jato de thinner na tinta para diluí-la e depois jogar outro direto na própria garganta. O velho voltou a assobiar e sorrir enquanto pintava.

Pouco tempo depois, chegou o telefonema da polícia. Meu vô era o plantonista, então correu pro bar para resolver a situação. Ninguém sabe como, mas o Mestre Gin tinha conseguido algum dinheiro e decidiu matar a saudade de seu verdadeiro amor. Entrou no bar e pediu um gin, como nos velhos tempos.

Dois PMs estavam tomando uns tragos depois do expediente e ficaram rindo de um velho bebendo uma bebida tão forte. Mestre Gin se sentiu desrespeitado em seu orgulho bebum e fez uma aposta com o PM. Apostou o resto do dinheiro que tinha que conseguia beber um copo inteiro de álcool zulu puro e o policial não. O PM riu e aceitou.

Quando meu avô chegou na cena do crime, lá estava o Mestre Gin, barriga no balcão, bebericando seu goró com um sorriso no rosto. Ele tinha cumprido sua parte da aposta sem dificuldade, mas o PM teve um piripaque na metade do copo e caiu duro pra trás. Morreu na hora.

Quando meu avô foi transferido da base de Natal perdeu o contato com o Mestre Gin, mas levou algumas aquarelas que ganhou de presente por ter resolvido a situação do bar. O Mestre Gin morreu pouco tempo depois. Aparentemente os oficiais descobriram o que ele vinha fazendo e lhe cortaram o thinner. Foi demais para o pobre homem…

FIM

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