Justiça Cega

Rafael Baliú
Oct 18, 2018 · 5 min read

Essa história começa no município goiano de Nova Brasília, em um posto de gasolina na BR -153, um lugar que mal aparecia no mapa e agora é o centro de uma polêmica nacional.

Edalto Silva, caminhoneiro de 56 anos, foi ao banheiro externo do posto e saiu gritando e pedindo por ajuda. Um corpo enforcado balançava pendurado nas vigas do teto.

Na década anterior talvez o corpo passasse por um ilustre desconhecido. Mas naquela época já eram transmitidos, retransmitidos e memeificados diariamente os rostos de todos os ministros do Supremo Tribunal Federal. Principalmente aquele. O que mandava soltar todos os corruptos. O Libertador.

Quando os frentistas que socorreram Edalto iluminaram o corpo enforcado, apesar da cara roxa, dos olhos saltados, da língua de fora, todos reconheceram imediatamente o Ministro Celmar Lopes.

Preso em seu peito, um grande cartaz dizia:

BRASIL

PAÍS SEM JUSTIÇA

Antes da polícia chegar, as fotos já estavam na internet.

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As cinco horas que se seguiram foram o caos. Muitos celebraram o ocorrido: um justiceiro fazendo com as próprias mãos a justiça que o ministro jamais fizera em vida com seus vereditos.

A grande maioria duvidava. FAKE!, eles escreviam em letras maiúsculas. Mas não era fake. Realmente houve um assassinato e fotos e vídeos pipocavam no Youtube e correntes de WhatsApp.

Os poderosos se assustaram. A porta que eles temiam se abriu: atentados contra figuras públicas. O Modus Operandi era de um serial killer, diziam alguns metidos a especialistas. Haveriam outras vítimas! A segurança de todos os políticos e juizes foi reforçada.

Foram cinco horas intensas até o pronunciamento. Nesse meio tempo o assassino já tinha ganhado um nome: Nova Justiça.

Todo o furor acabou quando o verdadeiro MInistro Celmar Lopes apareceu cercado de repórteres em uma coletiva de imprensa no lobby do hotel em que estava hospedado já fazia uma semana, no Principado de Mônaco. Ele garantia que estava bem, não havia sido enforcado.

As autoridades confirmaram que o enforcado era na verdade Juvenário Sousa, um contador de Cuiabá que de fato tinha uma semelhança quase sobrenatural com Celmar Lopes. Ou seja: um sósia. Nova Justiça matou o homem errado…

A internet, que nunca perdoa, passou a chamá-lo de Justiça Cega.

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A descoberta da identidade de Juvenario levou Justiça Cega de herói popular a incompetente. O que antes parecia um plano elaborado de captura, transporte e execução de uma figura pública iminente, nada mais era do que a morte de um estranho aleatório que havia sido confundido com o ministro.

Ainda assim, a imaginação popular voa alto. Muitos haviam se inspirado. Os memes já existiam. A população perguntava como o ministro se sentia sabendo que era tão odiado que um inocente foi morto só por se parecer por ele.

Independente do erro, aquele claramente havia sido um crime político. A intenção de matar Celmar Lopes existiu e agora membros dos três poderes da república estavam com os nervos à flor da pele.

Obviamente, toda essa pressão caia sobre os ombros dos investigadores. O assassino de Juvenario deveria ser capturado o quanto antes pra que o medo da punição desencorajasse qualquer um que estivesse tendo ideias. Aquele caso era a prioridade máxima.

Os policiais tinham duas possíveis teorias. A primeira era de que tudo aconteceu de forma passional. Uma pessoa achou que havia encontrado Celmar Lopes no posto de gasolina e, revoltada com a situação política, o matou. Mas algumas coisas iam contra essa versão...

O enforcamento não é o jeito mais prático de se matar alguém. Não se costuma ir com uma corda ao banheiro do posto. Pior: a placa BRASIL PAÍS SEM JUSTIÇA era impressa. Justiça Cega andava com essa placa pra cima e pra baixo na esperança de por acaso encontrar uma autoridade?

A segunda hipótese era bem mais sinistra. A de que aquilo havia sido um crime planejado. De que sabendo que não teria acesso ao ministro, um assassino havia planejado e executado a morte de um inocente, só porque ele parecia outra pessoa. Só pela mensagem. Um serial killer que matava sósias.

Embora isso ainda fosse apenas uma teoria, qualquer pessoa que se parecesse com um político temia por sua vida. Sósias do Polvo rasparam suas barbas, sósias do Temor pintaram de preto os cabelos grisalhos. Com a preocupação, muitas pessoas ficaram carecas.

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Os detetives voaram até Cuiabá para interrogar a esposa de Juvenario, o contador enforcado e sósia do ministro. Perguntaram se ele costumava ser confundido com Celmar Lopes, se ela reparou em algo estranho, alguém estranho rondando a casa, qualquer indício de que ele estava sendo marcado.

A viúva disse que a semelhança muitas vezes passava despercebida, pois seu marido não usava óculos. “Aqueles óculos fundo de garrafa são parte da identidade do Celmar Lopes” explicou a esposa. Ela disse que apenas em momentos de descontração o marido pegava emprestado os óculos de algum amigo e imitava o Ministro passando sentenças. “Todos mundo ria muito, o povo ficava até assustado que nunca tinha reparado na semelhança.”

Para os investigadores, aquele foi o ponto de virada. Quando foi encontrado morto, Juvenário estava de óculos! Foi justamente por isso que todos o confundiram imediatamente com o ministro do Supremo. Se o óculos não pertencia a ele, foi uma inclusão do próprio assassino. Descobrir a origem daquele óculos era a melhor pista que eles tinham até agora.

Para começar, não era um óculos qualquer. Era um modelo original de uma marca italiana, com valor estimado em milhares de reais. As teorias de um crime passional espontâneo, motivado por um engano, desabavam por terra.

A parte boa é que o óculos tinha um número de série dentro dele, era possível rastrear sua origem. Os detetives tinham certeza que Justiça Cega estava com os dias contados e que suas carreiras estavam prestes a decolar.

Qual não foi sua surpresa ao descobrirem que o óculos vinha da Europa, comprado no Principado de Mônaco. E as câmeras da loja confirmavam: pelo próprio ministro Celmar Lopes…

FIM

Mais contos e muito mais em www.rafaelbaliu.com.br

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