O carlos e o Lobo

Rafael Baliú
Aug 4, 2019 · 4 min read

“ O homem é o lobo do homem”

— Thomas Hobbes

Carlos sempre foi paranóico. Tinha uma certeza tão forte sobre suas teorias, que por mais que admitisse publicamente que estava errado, em sua cabeça não havia espaço para dúvidas: ele estava certo. Se uma testemunha negasse: mentira. Se uma câmera tivesse filmado outra coisa: edição. Se o provavam errado: conspiração. Tal era a natureza de Carlos.

Por esse hábito de criar teorias extravagantes, mas não insistir nelas, os amigos consideravam Carlos uma espécie de brincalhão e o tratavam com camaradagem. Seria muito diferente se eles descobrissem que ele falava sério todas as vezes. Carlos ia com a corrente, brincando de ser uma pessoa normal.

Numa noite de julho, voltava para sua cidade quando seu pneu estourou no meio de uma floresta. Aproveitou que a lua cheia iluminava tudo suficientemente bem e foi testar sua habilidade com o macaco hidráulico. Carlos estava abaixado trocando o pneu, se perguntando porque os uivos que ouviu a noite toda haviam parado, quando viu o reflexo na lataria do carro. A última coisa que lembra é que o animal começou a rosnar.

Uma semana depois Carlos acordou no hospital. A infecção em sua região lombar estava quase controlada, embora a mordida ainda fosse bem visível. Se outro carro não tivesse chegado poucos minutos depois, ele estaria morto. “Lobos não costumam caçar sozinhos”, falou o médico, “você deu sorte que esse era anti social!” Carlos fingiu achar graça, mas não riu, pois rir ainda doía muito. Foi visitado pelos amigos e parentes e logo retornou ao seu apartamento e ao trabalho. A história poderia ter acabado aí.

Chegando em casa, Carlos encontrou uma pilha de jornais em frente à sua porta. Levou-os para dentro e resolveu descobrir o que aconteceu no mundo durante sua ausência. Em um deles havia uma foto assustadora: um homem nu, deitado na floresta sobre uma poça de sangue, um buraco de bala no peito e a boca e os dentes ensangüentados. Carlos começou a suar frio. Conferiu sua arma, pois era paranóico demais para não ter uma arma e estava com ela no dia da floresta. Um tiro havia sido disparado.

Carlos sentiu a dor da mordida como se ela estivesse acontecendo novamente. Soube o que aconteceu com a mesma certeza que sabia seu nome: havia sido mordido por um lobisomem. Agora ele também era um lobisomem. Carlos teve tanta certeza que nem leu a matéria do jornal, cuja manchete era: MAIS UMA VÍTIMA EM GUERRA ENTRE FACÇÕES.

Arrancou o curativo e encarou sua cicatriz. Se eu buscar ajuda, pensou, me levam pra um laboratório e eu nunca mais vejo a luz do sol. Faltavam vinte dias pra lua cheia. Pensaria num plano até lá.

Nos dias que se seguiram, pequenos pêlos começaram a crescer por suas bochechas e seu queixo. Cachorros latiram para ele na rua. Sentiu cheiros esquisitos nos sanitários públicos e salivou quando estava com fome. Ficava difícil digitar relatórios no trabalho, sua atenção flutuava. Não tinha nem mais paciência para esquentar a comida e, quando estava sozinho, não fazia questão dos talheres.

Na véspera da Lua Cheia, Carlos achou que não era justo colocar a sociedade em risco. Dirigiu para o meio da floresta e desceu. Não querendo que suas roupas rasgassem na hora da transformação, ficou nu. Como se já quisesse se acostumar, passou a andar sobre quatro patas. Quando a lua cheia subiu, uivou para ela. Para já entrar no clima.

Até hoje, quem passa por essa floresta em noites de lua cheia ouve uivos esquisitos. Os adolescentes uivam de volta.

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Um lobo é um lobo e isso não é um lobo, pensou o lobo enquanto olhava para o carlos.

O lobo começou a rondar aquele estranho animal, que andava sobre quatro patas e babava, mas não tinha pelos nem roupas. O lobo se surpreendeu quando o carlos ergueu a perna traseira e urinou, demarcando território. Aquilo era uma afronta.

Os dois se enfrentaram ferozmente naquela noite iluminada de lua. O animal não subestimava o misterioso inimigo, pois nunca tinha visto tamanha ferocidade. Enquanto rolavam para cima e para baixo por entre as folhas caídas, o carlos conseguiu morder seu oponente na altura do pescoço e o sangue quente e bom encharcou sua boca. A briga foi interrompida pelo resto da alcatéia, que veio em resgate do companheiro. O carlos subiu uma árvore, coisa que eles não conseguiam fazer.

A partir daquela noite tudo mudou. O lobo começou lentamente a mudar seus hábitos. O gosto do alimento cru ia aos poucos se tornando insuportável. A floresta ia se tornando maçante. Começou a ir às escondidas observar os humanos. Algumas vezes os assustou e roubou seus alimentos, esses sim, saborosos.

Foi pego pelos outros lobos se apoiando em uma árvore para ver como era estar sobre duas patas. Certa vez, em plena luz do dia, fez algo que encheria de vergonha e revolta os outros lobos: aproximou-se bem lentamente de um casal de humanos, de olhos baixos no chão como um cão carente e ronronando sem parar. O casal se assustou a princípio, mas ao ver que o lobo não queria mal, o rapaz foi exibir sua coragem e o agradou atrás das orelhas.

O tempo foi correndo e se passou um ciclo lunar desde a briga com o estranho animal carlos. O Lobo sentiu que algo iria acontecer, sabia que tinha de sair dali. O Lobo correu para os arredores da cidade, onde vive até hoje. Em noites de lua cheia você pode ouvi-lo pagar boletos e conversar sobre política.

FIM

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