Revista de Rotina

Rafael Baliú
Oct 31, 2018 · 3 min read

Ele dormia cedo, bebia pouco, drogas blah! Enquanto os outros diziam que se divertiam, ele dizia que perdiam tempo.

Como é o destino dessas pessoas, se apaixonou por ela que era seu oposto. Pulou fora da área de conforto, flertou, blefou de descolado. Ela deu truco. Ele a chamou pra casa de praia que o amigo sempre oferecia e ele nunca foi. Para sua surpresa/alegria/desespero, ela aceitou.

Ela era artista e fumava cigarro de artista. Com a cara vermelha, ele pediu pros amigos a tal maconha pra levar pra praia. Riram muito, deram curso relâmpago de enrolar baseado, entregaram pra ele um cubo prensado de erva. Ele quis impressionar, pediu logo três. No carro, na estrada, olhando o bloqueio policial adiante, se arrependeu.

Estavam na good um minuto antes. Ouvindo as músicas que ele não conhecia e ela sabia de cór. Será que é um sonho?, ele se perguntava de sorriso bobo. Quando o policial o encostou, virou pesadelo.

“Bom dia senhor. Documentos por favor”.

“Bom dia, a gente tá só indo pra praia mesmo”.

“…Documentos por favor”.

Cabeça fritando: documentos na mochila, maconha na mochila, policial do lado dele, resto da vida na cadeia, saudades da zona de conforto.

Deslizou a mão feito cobra pelo pequeno buraco do zíper. Ainda dá tempo, ainda tem chance. Seus dedos enrolaram os tijolinhos, cavaram entre roupa, fone, tralhas, livro, óculos…

Até fechou os olhos pra concentrar, enxergando com o tato. Conseguiu. Escondeu lá no fundo, bem no fundo. Ufa, conseguiu. Olhou o policial com um sorriso até confiante.

“Documentos. Por. Favor. Senhor”.

Merda, os documentos! Deslizou a mão pra dentro da mochila de novo e até ela se irritou “tá procurando em braile? Abre essa mochila logo pô!”

Ele abriu, procurou os documentos, mas não achou. No porta-luvas então? Não. Na mochila de novo talvez? Não… No bolso da calça, dã! Mas também não…

Se virou para o policial: “hãã…”

A paciência dele acabou: “Senhor, manobre o veículo até o acostamento pra uma revista de rotina”.

Era o fim. Acabou. Maldita artista que o meteu nessa. Com o rosto pesado ele engatou a ré e recuou o carro até o pedaço de acostamento em que sua vida iria acabar… mas então ele ouviu o PAF! Aquele PAF seco de alguma coisa grande caindo no chão.

Olhou no retrovisor, cadê o policial?

Meteu o rosto pra fora do carro e arregalou os olhos. O policial estava de cara no chão, em pânico, com uma roda do carro em cima da perna dele.

“SAI PORRA SAI!!!”

Quando jogou o carro pra frente, deu de cara com uma cena que parecia acontecer em câmera lenta. Todos os agentes que trabalhavam no posto rodoviário estavam correndo em sua direção. Ele achou que nunca mais cagaria de tanto que o cú fechou.

No que levantaram o policial do chão, carregando-o pelos ombros, ele parecia um boneco de pano. O levaram apoiado entre dois companheiros, arrastando a perna no chão feito um galho seco, urrando como um animal.

Alguns policiais ficaram pra trás, entre eles uma mulher grande que era claramente a comandante. Ela estava quase espumando pela boca, os olhos injetados, pescoço pulsando. Então ela começou a berrar:

“Eu não falei, caralho?! Quantas vezes eu avisei?! Não fica atrás do carro! Sai detrás do carro! Quantas vezes??”

Os policiais ao redor murmuraram concordando.

“Agora ele aprendeu! Quero ver se vai ficar lesando atrás dos carros, cabação da porra!Eu cansei de avisar! Todos os dias!”

“M-moça…”

A comandante se virou pra ele, que nem percebeu que tinha falado. O corpo continuou falando por ele: “E… e eu?”

“Vaza, cara. Vaza daqui, que isso já vai ser uma papelada do caralho!”

Ela não precisou falar duas vezes: um minuto depois ele já estava a 110km/h se afastando pela rodovia, apertando o volante com tanta força que era quase um prolongamento do braço.

Então ela falou ao lado dele, e ele lembrou que ela estava lá:

“Que porra foi essa?”

“Eu não faço idéia… Mas foi o contrário de tudo que eu achei que ia acontecer.”

E pela primeira vez, ele sorriu.

Ela suspirou. “Me beija.”

Beijaram. Quase bateram o carro.

Foi um fim de semana inesquecível.

FIM

PS: história real.

Mais contos e muito mais em www.rafaelbaliu.com.br

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