Dedico essa história a meus sobrinhos, onde quer que eles estejam.

Tente ler um livro com a parede às suas costas tremendo ao ritmo de 🎶Pig Pig Pon Pig Pon PoPon🎵. É muito difícil. Eu normalmente esmurraria o chão com meus pés enquanto marchava pro quarto de minha irmã, do outro lado daquela finíssima parede que dividiu ao meio um quarto que antes era só meu, e gritaria pra ela abaixar o maldito volume.

Mas daquela vez não. Minha timidez pré-adolescente parecia construir algum tipo de muralha invisível ao redor daquele quarto quando as amigas dela estavam lá e eu preferia ser invisível durante aquelas visitas.

Elas eram loucas. Todas elas. As vezes eu as observava da porta, como quem assiste um documentário sobre animais selvagens. Com a reverência de antigos escribas egípcios sobre um papiro, elas ficavam ajoelhadas no chão, ao redor de uma imensa carta. Uma espécie de pergaminho moderno, feito de centenas de folhas sulfites coladas umas nas outras e que iam sendo aos poucos enroladas até virar um rocambole de glitter e declarações de amor.

Em cada folha sulfite elas escreviam, de diversas formas e tamanhos “TE AMO”. “AMAMOS VOCÊS!” “LINDOS!” “PERFEITOS”. Algumas páginas tinham centenas de “te amo” escritos pequenininhos um do lado do outro, com uma paciência que impressionaria os muralistas antigos. Outras páginas eram um TE AMO gigante, feito com recortes de revistas, com cola colorida, com todo tipo de substâncias que cheiravam à puberdade, aparelhos de dente e anos 90.

Eu não era o único que observava aquele estranho trabalho. Elas eram vigiadas por dezenas de olhos sorridentes, nas dezenas de pôsteres colados pelas paredes. Vigiadas pela dupla pra quem elas dedicavam tanto tempo e atenção. A dupla cuja música ficava repetindo num loop infinito da manhã até a noite atrás daquela parede fina de meu meio-quarto. A dupla que estava em todos os outdoores daquela cidade que ainda tinha outdoores, que estava na capa de todos os cadernos de minhas colegas e em todos os intervalos de programas daquela época em que não havia internet, só televisão. A dupla teen sensação. Sandra&Julio.

Eu me perguntava o que Sandra&Julio faziam com todas aquelas cartas de TEAMO que recebiam. Eu sabia que, por mais bizarro que achasse o que minha irmã e as amigas dela faziam, elas não eram as únicas. Na verdade havia uma competição para ver quem fazia a mais gorda, mais pesada, mais cara de enviar, carta de TEAMOSANDRA&JULIO. As garotas juntavam suas mesadas para encher com selos o bastante para entregar aquelas bombas de glitter. Eu imaginava Sandra&Julio enterrados sob toneladas de TEAMO, seus bracinhos plásticos de KenBarbie espetados pra fora da montanha de cartas, e eu sentia um grande prazer sádico.

Eu ODIAVA Sandra e Julio. Sabia de cór todas as suas músicas? Sim, claro. Sabia a data de nascimento e o signo de cada um deles? Aquário e Leão. Já havia assistido todos os DVDs de shows mais de uma vez? Que opção eu tinha, eu morava naquela casa. Sabia a coreografia de muitas de suas músicas? Evidentemente, até tentei dançar algumas vezes mas a parte do espacate me machucou por umas duas semanas e só fez aumentar meu ódio.

Tinha sonhos em que meu verdadeiro ídolo (o Batman!) capturava Sandra&Julio, destruía todos seus discos e os jogava em um mar cheio de tubarões, mas sempre me arrependia no instante seguinte. O Batman nunca mataria ninguém. Ele tinha um código…

Um dia, Sandra&Julio, (ou muito mais provavelmente seus agentes,) decidiram que estar em todas as emissoras de rádio, outdoor, capa de caderno, programa de entrevista e cd player da cidade não era o bastante. Eles teriam agora sua própria novelinha estilo malhação, na qual seriam os protagonistas. “Por que não?”, deve ter pensado um empresário enquanto acendia seu charuto com uma carta de TEAMO em chamas. Mas a pior parte não era que eu teria que aguentar mais meia hora semanal de Sandra&Julio na televisão. A pior parte é que a escola no qual a novela seria filmada era apenas uma hora e meia de distância de nossa casa e minha irmã precisava, PRECISAVA, ir lá para conhecê-los.

Eu olhei para meus pais, minha cabeça balançava que não, meus olhos gritavam que não, minha boca repetiu umas 20 vezes que não, mas ainda assim eles falaram o que eu tinha certeza que eles diriam: “sozinha você não vai”. A vida era muito injusta. O Batman nunca apareceria na cidade…

Na semana seguinte, lá estava eu. O sol de 40 graus, o portão enorme de uma grande escola tradicional fechado em nossa cara, uma multidão de pré-adolescentes histéricas com cartazes (adivinhem o que estava escrito nos cartazes) berrando e gritando na entrada e uma guerra de radinhos, todos tocando Sandra&Julio, mas cada um uma música diferente. Hoje em dia, que já trabalhei com cinema, imagino que a única pessoa mais mal-humorada que eu era o técnico de áudio da novela que gravavam lá dentro.

Naquela idade em que eu gastava muito mais tempo pensando no Batman do que em garotas (tempos mais simples…), eu não percebia as infinitas possibilidades de ser o único homem naquele turbilhão histérico pré-K-Popiano. Pra mim aquilo era o inferno, eu tinha que me afastar.

Avancei mais uns trezentos metros pelo muro daquela escola gigantesca que ocupava um quarteirão inteiro e me sentei na sombra de uma guarita, no chão mesmo. Percebi que agora tinha muito mais chances de eu acabar sequestrado por um maluco do que minha irmã que eu deveria proteger, mas também pensei que talvez nem fosse uma opção tão ruim…

Meti a mão no bolso de trás do meu shorts e puxei um muito amassado gibi, ansioso pra descobrir o que o Pinguim aprontaria daquela vez. Não sei o porquê, mas na época o Pinguim era meu vilão preferido.

Qual não foi minha surpresa, lá pela terceira página manchada de gotas de suor, quando a parede começou a vibrar em minhas costas. O que parecia uma guarita era na verdade a proteção de um motor que havia ligado, ativando um portão lateral que se abriu para dentro do colégio. Me levantei às pressas, pensando que algum segurança ia me enxotar dali, mas quem saiu de dentro do portão com a mesma graça que uma baleia se ergue para fora do mar foi uma enorme limousine negra.

Minha primeira limousine. A primeira que eu vi ao vivo pelo menos. Eu me lembro que fiquei olhando ela se extendendo mais e mais pra fora do lugar, mas o final do carro nunca aparecia. E nem apareceu. A limousine simplesmente parou. Parou com tudo, quando eu estava bem diante de uma porta.

A porta se abriu.

Sim. Sim, eram eles. Sandra&Julio.

Espremidos um ao lado do outro lá na outra extremidade do banco da limousine escura, seus rostinhos plásticos refletiam o pouco de luz que entrava no ambiente refrigerado. Eles gesticularam para que eu entrasse e, como se obedecesse a um vampiro, eu entrei e a porta se fechou atrás de mim. Essa é uma história real.

Houve então, um longo momento de silêncio. Eles não paravam de sorrir muito felizes enquanto me encaravam. Eu olhava de um pro outro, mas não sorria. Estava incrédulo de como eles eram crianças! Eu também mal chegava a ser um adolescente, mas de algum modo, esperava algo mais robótico, mais sobre-humano, que eles abrissem a boca e a voz saísse amplificada como num microfone. Mas eram duas crianças menores do que eu. E acreditem ou não, eram até fofas!

Eu provavelmente estava reagindo diferente de qualquer outra pessoa que entrou em uma limousine com eles. Talvez entre tantos shows, turnês, programas, entrevistas, sessões de fotos, aquela fosse a primeira, A PRIMEIRA, interação deles com alguém que não os amava. E pela primeira vez eu os achei fofos, porque eles eram fofos quando estavam perdidos.

Os dois se olharam quase que pedindo ajuda para romper aquele silêncio e eu não lembro qual deles perguntou primeiro:

- Você quer um autógrafo?

Eu pensei por um momento e não vi nada contra:

- Aceito.

Eles pegaram uma caneta e me olharam. Eu estendi o meu gibi do Batman.

- Qual o seu nome?

Falei meu nome. Sandra escreveu seu nome e depois escreveu Um Beijo!

Julio escreveu seu nome e escreveu Outro beijo, mas demorou um pouco pra devolver o gibi, como se nunca tivesse visto um daqueles antes. Com medo de ser roubado, eu puxei a revista de volta e agradeci.

Coloquei a mão na porta do carro, porque de um segundo pro outro me deu um medo irracional de que aquela limousine ia embora comigo lá dentro e eu não tinha nenhum interesse de descobrir onde aquela estrada terminaria. Eles perceberam meu instinto. Senti até um toque de indignação em suas vozes:

- Você não quer um beijo? Um abraço?

- Não não, muito obrigado.

Com o coração acelerado pulei pra fora daquele longo freezer e o solzão súbito lá fora transformou minha visão num grande borrão claro. À medida que fui piscando os olhos, o mundo foi se revelando aos poucos e eu me assustei quando finalmente percebi uma multidão histérica correndo em minha direção. As fãs estacionadas no outro portão tinham finalmente enxergado a limusine e vinham num estouro de manada.

Por um segundo tive o instinto de voltar para dentro do carro, mas a dupla ficou tão assustada quanto eu e fechou a porta com força. As fãs chegaram enquanto a Limusine já estava virando a esquina cantando pneu. Algumas correram atrás do carro segurando enormes placas que provavelmente diziam TEAMO.

O resto das garotas me cercou, me chacoalhando, me perguntando como eles eram e se eu os havia abraçado e beijado.

Apertei o autógrafo contra o peito, me dando conta de que eu era o maior outsider naquele rolê, mas havia conseguido algo que todas elas queriam e talvez… até matariam para ter.

Foi nessa hora que minha irmã chegou, mais minha irmã do que ela jamais foi, mais territorial do que nunca, quase chutando as outras “vadias” pra que elas abrissem espaço pra que ela pudesse abraçar seu querido e amado irmão! O sangue de seu sangue que havia há pouco abraçado e beijado Sandra&Julio e que provavelmente ainda estava com o cheiro deles no corpo. Então ela me deu um looongo abraço daqueles de olhos fechados e todas as garotas ao redor se torciam de inveja querendo que elas tivessem nascido do mesmo útero de onde saiu aquele cara que por poucos minutos respirou o mesmo ar refrigerado que Sandra&Julio. E então ela perguntou:

- Cadê?

E eu respondi:

- Cadê o quê?

E ela sem nem piscar falou:

- Meu autógrafo.

E então em um segundo eu me lembrei que minha irmã era uma baita fã de Sandra&Julio e passava horas escrevendo cartas pra eles e ela adoraria ter um autógrafo deles e eu me lembrei quem eu era e onde eu estava e entendi como provavelmente seriam as próximas semanas e meses e anos morando com aquela pessoa e as beiras do meu mundo começaram a trincar como vidro. Eu não consegui articular nenhuma palavra e apenas estendi lentamente o gibi.

Os olhos dela se abaixaram, olharam o papel, leram de novo, daí uma terceira vez. Era o autógrafo deles, mas o meu nome bem ao lado do olhar ameaçador do Batman. E então ela me olhou de novo, pela última vez.

- Então tá. Então é assim, disse ela.

E se virou e saiu andando.

Como eu já falei, essa é uma história real. Realmente gostaria de dizer que guardo aquele autógrafo até hoje como prova disso, mas depois que eu o emoldurei e coloquei em cima de minha cama e as amigas de minha irmã passaram a fazer fila pra conhecer meu quarto, ela o destruiu num acesso de raiva.

Hoje em dia ela é casada, embora eu não tenha sido convidado para o casamento, e tem dois filhos, que ela nunca me deixou conhecer.

Vocês conseguem adivinhar o nome deles, eu imagino…

FIM

Mais contos e muito mais em www.rafaelbaliu.com.br

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