Nôs Subúrbios de Paris, Nasce a IV Internacional

As teses “trotskistas” já estavam presentes desde o inicio do seculo XX e especialmente no processo revolucionário de 1905 os debates em torno da estratégia revolucionária e da revolução permanente movimentavam os ânimos e os gênios dos revolucionários russos. Apesar disso, o termo “trotskismo” se banaliza no jargão burocrático soviético apenas em 1923–1924, período mais caloroso da disputa em torno do poder .

Após a Revolução de Outubro de 1917, Trotsky gozava de grande prestigio, foi fundador do soviete de Petrogrado, compôs o primeiro Comitê Central do Partido Bolchevique pós-revolucionário, foi o responsável pelas negociações de paz para saída da Rússia da Primeira Guerra Mundial, fundador do Pravda e organizador do Exército Vermelho.

Foi apenas após o fim da Guerra Civil, durante o processo de adoecimento e morte de Lenin, que a burocracia já instalada, foi capaz de mover seus esforços para estigmatizar Trotsky e suas teses.

Em sua autobiografia, Trotsky afirma que o próprio Lenin lhe propôs formar uma espécie de aliança para combater a burocratização que se instalava no Partido e se expressava na formação do Escritório Organizador do Comitê Central (Orgburo), espinha dorsal da fração liderada por Stalin.

Como aponta Daniel Bensaidi:

Vítima de um primeiro ataque cerebral em Março de 1923, Lenine apressa Trotsky a empenhar-se na luta contra Estaline sobre a questão do monopólio do comércio externo, sobre a das nacionalidades e sobretudo sobre o regime interno do partido. Numa carta ao Comité Central de Outubro de 1923, Trotsky denuncia a burocratização das instituições do Estado. Em Dezembro do mesmo ano, ele sintetiza essas críticas numa série de artigos apelando a um “Novo Curso”. A direcção empenha-se então no combate contra o “trotskismo” e as suas reivindicações: o restabelecimento da democracia interna no partido e a adopção de uma planificação económica para controlar os efeitos desiguais e centrífugos da Nova Política Económica. Em Dezembro de 1924, no Pravda, Estaline caracteriza pessoalmente o trotskismo como uma “desesperança permanente”. Opõe-lhe a construção audaciosa “do socialismo num só país”, em vez de esperar a salvação de uma hipotética extensão da revolução que tarda em se concretizar. (BENSAIDI, 2002)

Para a Oposição de Esquerda liderada por Trotsky, a estratégia da construção do socialismo em um único país é a inversão da perspectiva comunista, porque em essência subordina a solidariedade de classe internacionalista/revolução mundial aos interesses da burocracia constituída no Estado Soviético.

O fim deste processo já é muito conhecido, a Oposição Unificada formada por Trotsky, Zinoviev e Kamenev para a disputa interna do Partido é completamente derrotada. Trotsky é exonerado do cargo de Comissário da Guerra em janeiro de 1925; em fins de Outubro de 1926 é destituído do Politburo; em 9 de novembro de 1927 é expulso do Partido; em 19 de dezembro condenado a deportação e em 1929 é expulso da URSS.

No exílio, Trotsky formulou sua crítica ao processo de degeneração da URSS. O internacionalismo, elemento sempre protagonista nas teses “trotskistas”, se materializou no último combate de Trotsky: a necessidade da formação de uma nova Internacional.

Segundo Daniel Bensaid, a Oposição de Esquerda Internacional em 1934 assume o papel de animar prioritariamente a luta contra o fascismo, passando assim a atuar no interior dos partidos social-democratas. Essa é a primeira experiência do que na época se chamou de “viragem francesa” e se constituiu como entrismo.

Após a assinatura do pacto Estaline — Laval, em Agosto de 1935, o VII Congresso da IC generaliza a nova linha das Frentes Populares. A situação muda de novo. Esta viragem dos partidos estalinistas colocava na ordem do dia a unidade burocrática dos aparelhos que ia pesar sobre as costas das correntes revolucionárias. Esta previsão foi rapidamente confirmada pela expulsão da corrente “bolchevique-leninista” do Partido Socialista francês. Impunha-se uma nova mudança de rumo, reatribuindo a prioridade à construção de organizações independentes.(…)Trotsky propõe igualmente adiantar a construção e a proclamação da IV Internacional, recusando esperar mais na expectativa de hipotéticos reforços. No final do ano 1935, a luta pela nova Internacional tropeçava em novas dificuldades. A secção francesa e a secção americana dividiam-se sobre a questão do entrismo(BENSAIDI, 2002)

Nos Subúrbios de Paris, Nasce a IV Internacional

O trabalho de construção da Quarta Internacional já se desenvolve sobre bases significativamente mais amplas do que as da construção da Fração Bolchevique-Leninista. Grupos das mais diversas origens começaram a bater às portas da Quarta Internacional, sob o impulso da decadência do reformismo e do stalinismo, o perigo de guerra iminente e a intensificação da luta de classes.(TROTSKY, 1935)

A fundação “oficial” da IV Internacional se deu em um congresso que realizou-se em Périgny, uma região próxima a Paris, na casa de Alfred Rosmer. Estiveram representados 11 países através de 21 delegados. Trotsky não estava presente, mas havia trabalhado durante todo o verão para elaborar o programa, contendo os princípios(O Programa de Transição) e as mais importantes resoluções aprovadas.

A formação da IV Internacional se relaciona diretamente com o avanço do fascismo e a Segunda Guerra Mundial. A perspectiva da Quarta Internacional desde antes da deflagração da Guerra e mesmo depois do pacto Molotov — Ribbentrop, apontavam para além das denúncias à burocracia, a defesa dos avanços da URSS e das relações sociais estabelecidas.

Em Maio de 1940, pouco antes da ocupação da Alemanha Nazista na França, uma conferência extraordinária da IV Internacional é convocada nos Estados Unidos, com representantes de Estados Unidos, da Alemanha, da Bélgica, do Canadá, do México, de Espanha, de Cuba, da Argentina, de Porto Rico, do Chile. Neste momento já estavam ocupadas Viena, Praga, Varsóvia, Oslo, Copenhaga, Haia e Bruxelas.

Este foi o último espaço da IV Internacional em que Trotsky esteve presente. Assassinado em 21 de Agosto de 1940 no México por Ramon Mercader, não acompanhou o genocídio de judeus, negras e negros, ciganas e ciganos, e LGBT’s, nem muito menos o surgimento da bomba atômica que alterou substancialmente às Relações Internacionais, mas foi capaz de entender a conjuntura e fazer previsões que se mostraram extremamente acertadas.

O profeta desarmado, como fora chamado ao denunciar Hitler e o Nazismo na Comintern, apontando a necessidade de formação de frentes únicas na Alemanha antes mesmo de existir um regime totalitário instaurado, compreendia que havia uma mudança de período em curso:

Acontecimentos políticos podem acelerar ou atrasar o prazo, mas são inevitavelmente resultado da dinâmica econômica e da dinâmica da corrida aos armamentos.” Esta guerra anunciada será “totalitária”. Nestas convulsões, “o mundo inteiro mudará de rosto”. O mais provável é que “a dominação do planeta reverta para os Estados Unidos(TROTSKY, 1937)

A guerra marca profundamente as organizações, costuma ser um revelador das políticas e um divisor de águas impiedoso. Se para a II Internacional, a Primeira Guerra Mundial selou o destino político do renegado Kautsky e disto saiu a necessidade de construção da III Internacional, em 1943, no auge da Segunda Guerra Mundial, Stalin enterrou a Comintern. Por outro lado a repressão atingiu com força as seções da IV Internacional pelo mundo, seja pelos assassinatos promovidos pela NKVD ou pelo fascismo, muitos dirigentes e fundadores simplesmente desapareceram, gerando uma transição geracional forçada em um momento delicado para toda a esquerda no mundo.

No calor da Guerra Fria sobem as labaredas das cismas

Em 1948 a IV Internacional chama seu Congresso Mundial, que marca os primeiros rachas significativos em seções importantes, tendo como mote as diferentes caracterizações do Estado Soviético.

Como aponta Daniel Bensaid:

As desilusões arrastam então as primeiras partidas significativas do movimento trotskista. Após 1947, David Rousset afastou-se para fundar, com Jean-Paul Sartre o efémero Rassemblement Révolutionnaire Démocratique (Agrupamento Revolucionário Democrático), que se desintegra rapidamente(…) A cisão conduzida por David Rousset e Jean-René Chauvin não arrasta mais de um terço dos efectivos da secção francesa.(…) Delegado ao Congresso, Max Schachtman vai também afastar-se definitivamente. Desde 1947, ele julgava o estalinismo pior do que o capitalismo e considerava a social-democracia como um mal menor. Esta evolução conduzi-lo-á, no final dos anos 1940, ao apoio à Aliança Atlântica, e a derivar para um “anti-totalitarismo liberal” ou um “anti-comunismo liberal” (e já não anti-estalinista). Ele acaba por se juntar ao Partido Democrata e apoiar a intervenção no Vietname.(BENSAID, 2002)

Neste momento, em um caminho oposto, Ernest Mandel se constitui como figura fundamental para manutenção da IV Internacional, mantendo-se atento a conjuntura, sem no entanto perder de vista a ortodoxia marxista como instrumento para análise da realidade.

Em 1950, Michel Pablo, importante dirigente da IV, propõe a partir de uma serie de formulações a necessidade de um entrismo generalizado em PC’s(stalinistas) e partidos social democratas.

“Mas a orientação é explosiva na medida em que ela empenha os militantes a juntarem-se a partidos que eles combateram abertamente durante anos e dos quais sofreram muitas vezes a perseguição política ou a agressão física. É esse a fortiori o caso quando se trata de partidos monolíticos, formados num anti-trotskismo visceral, que não oferecem muito de vida democrática. Não é de espantar que a maioria da secção francesa tenha recusado entrar num partido comunista considerado como um dos mais estalinistas do movimento comunista internacional.” (BENSAID, 2002)

Em 1951, o Congresso Mundial da IV Internacional se reúne, desta vez com representação de 25 países e 74 delegados. É importante apontar que as resoluções, sob influência do dirigente argentino Juan Posadas, caminham no sentido contrário a apontar o populismo da América Latina como uma simples deformação subdesenvolvida do fascismo.

Neste congresso os ruídos da tese de Michel Pablo se tornaram literalmente em gritos. Os franceses que se recusaram a tese do entrismo foram suspensos do comitê central e os debates em torno da concepção de organização ganharam protagonismo, especialmente no que diz respeito a aplicabilidade do centralismo democrático a nível internacional. Ainda assim, não surgiram durante o congresso grandes cisões.

É justamente no período de aplicação das resoluções aprovadas no Congresso Mundial que a IV passa por um importante processo de cisma. Deste racha, as seções mais significativas que saíram foram o SWP nos Estados Unidos, a Socialist Labour League na Grã-Bretanha, a OCI em França, e o grupo de Nahuel Moreno na Argentina. Surgem o Comitê Internacional formado pelos Morenistas e SWP, e o Secretariado Internacional, formado por Ernest Mandel, Michel Pablo e as outras seções que compunham a IV Internacional.

Na América Latina, a cisão reveste uma forma particular, em que a personalidade de dois dirigentes argentinos, Juan Posadas (Homero Cristalli) e Nahuel Moreno (Hugo Bressano) joga um importante papel. Os seus grupos tinham-se oposto quanto à atitude a adoptar face ao movimento peronista. Enquanto o Grupo Comunista Internacionalista de Posadas defendia uma iniciativa de acompanhamento dos operários peronistas, o Grupo Operário Marxista de Moreno caracterizaria o peronismo como um fenómeno semi-fascista, destrutivo do movimento operário. Nenhum dos dois tinha sido reconhecido como secção oficial pelo II Congresso, de 1948. A dinâmica fraccional salda-se, em contrapartida, pelo reconhecimento do GCI, no III Congresso, e Posadas vê-lhe confiada a animação de um Comité Latino-americano. Moreno replica rapidamente com a criação de um Secretariado Latino-americano. A divisão dos trotskistas na América Latina está consumada por muito tempo. (BENSAID, 2002)

O Comitê Internacional e o Secretariado Internacional estabelecem uma comissão de ligação paritária em 1963, logo após uma série de convergências e movimentos que sinalizavam a possibilidade da reunificação. Esta comissão adota uma importante resolução que vê no desenvolvimento do Movimento 26 de Julho e na radicalização da Revolução Cubana, um modelo interessante mas que ainda carecia de ideias trotskistas, e era preciso introduzir isto na América Latina.

A onda de golpes e a maré do fuzil

Após os diversos golpes que atingiram a América Latina e a Argélia, a perspectiva de uma revolução mundial impulsionada pelos processos de libertação nacional se tornaram mais frias, mas podiam ser entendidas como parte da reação de um período pré-revolucionário. Concomitantemente a isto, diversos levantes protagonizados pela juventude e outros setores, como o movimento Pantera Negra nos EUA e Maio de 1968 na França, traziam perspectivas mais amplas para a disputa nos países do centro do capitalismo.

O Congresso de 1969 da IV Internacional é marcado pela caracterização da possibilidade da estratégia revolucionária da luta armada através do foquismo na América Latina:

“Com o congresso clandestino de fundação da Liga Comunista como secção francesa e o IX Congresso Mundial da IV Internacional, estabelece-se, na Primavera de 1969, um jogo de espelhos entre trotskismos europeu e latino-americano. A convergência entre os jovens delegados franceses e os representantes argentinos e bolivianos permite a adopção da resolução sobre a luta armada na América Latina..” (BENSAID, 2002)

Neste momento as experiências de luta armada se intensificam e multiplicam-se na América Latina, esta alteração na conjuntura pedia uma resposta a altura.

Após a partida de Posadas, Nahuel Moreno tinha-se juntado à Internacional reunificada. Escaldado pela sua própria atitude sectária relativamente ao peronismo, no início dos anos 50, ele colhe novos ventos. A secção argentina empenha-se em preparativos de luta armada. Moreno despacha para o Peru, Daniel Pereyra, um militante operário, para aí assegurar a logística de Hugo Blanco e preparar as condições de uma insurreição camponesa no vale de La Convencion. Na mesma perspectiva, a organização de Moreno funde-se com um grupo saído do populismo radical, implantado nomeadamente entre os trabalhadores agrícolas de Tucuman, e dirigido por Mario Roberto Santucho. O projecto de desencadeamento da luta armada constitui uma das bases essenciais do seu acordo. (BENSAID, 2002)

A América Latina vivia um momento de retração das lutas, que culmina na queda de Salvador Allende, novos golpes, como na Argentina em 1975 e a morte de diversos dirigentes, demonstrando que o heroísmo não é suficiente para enfrentar a estrutura do Estado e que panfletos não disputam a hegemonia e a superestrura do Estado burguês. Era preciso propor um projeto revolucionário de longo prazo.

Após a dissolução de diversas tendências e seções, o XI Congresso da IV Internacional surgiria como um esforço para reformulações programáticas e organizativas, e a reorganização do movimento internacional se torna prioridade. Mas antes que fosse possível a sua realização, uma série de divergências abateu as diversas frações, em especial as que diziam respeito a revolução da sandinista em Julho de 1979, na Nicarágua.

Bibliografia:

BENSAÏD, Daniel. Trotskismos. Paris: Puf, 2002.

DIVERSOS (Ed.). Trotsky — Pró e Contra. São Paulo: Editora Melhoramentos, 1970.

TROTSKY, Leon. As Frações e a Quarta Internacional. 1935. Disponível em:<https://www.marxists.org/portugues/trotsky/1935/mes/fracoes.htm>. Acesso em: 21 jul. 2016.

TROTSKY, Léon. História da Revolução Russa. 1930. Disponível em: <https://www.marxists.org/portugues/trotsky/1930/historia/index.htm>. Acesso em: 21 jul. 2016.

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