As Cidades Invisíveis de Antônio Pedro

Depois de deitar a xícara na mesa e fechar o jornal daquela manhã, Antônio Pedro foi invadido pela sensação de que sabia de tudo. Sabia, sim, das regras gramaticais de sua língua. Sabia também das espécies de pássaros que cantavam em seu jardim. Sabia, ainda, das origens dos nomes das ruas de sua cidade. Sabia tudo ao seu redor. Tanto que descobriu: havia chegado a hora de desaprender.

Desceu os degraus que separavam a sua casa da rua e dobrou à esquerda. A partir de agora — e pela primeira vez em muito tempo — Antônio Pedro não sabia para onde ir.

Caminhou que caminhou pela beira da estrada até surgir uma cidade. Lembrou que existiam interrogações e perguntou a um morador que ali estava:

- Morador que é meu amigo, eu te peço um favor. Eu sei de onde venho, só não sei pra onde vou. Em que cidade agora piso, onde piso, amigo morador?

- Caro amigo viajante, você é bem vindo a F.

- E por que F tem esse nome, por que tem esse nome, querido morador?

- É por culpa dos ventos, que afastam as linhas das palavras.

Antônio Pedro entrou em F e ali ficou por alguns dias. Em F descobriu que se ventava a noite inteira, então as folhas amanheciam nas árvores seguintes. Quando o sol batia às sete horas e as pessoas saíam à rua, encontravam carros diferentes na frente de suas casas e as pessoas entravam em seus novos veículos e seguiam para o trabalho. O trabalho das pessoas de F era diferente a cada dia, já que os prédios haviam mudado de lugar. Assim, engenheiros curavam feridas e advogados vendiam pão fresquinho. As casas em F também andavam toda noite, formando novas famílias, de alturas, idades e seriados diferentes. Ventava a noite inteira em F, então as folhas amanheciam na árvore seguinte.

Saindo de F, Antônio Pedro encontrou nova estrada e caminhou até seus passos encontrarem nova porta, debaixo de um enorme arco de pedra. Ali um homem guardava as chaves da cidade. E foi para ele que Antônio Pedro perguntou:

- Morador que é meu amigo, eu te peço um favor. Eu sei de onde venho, venho de F, sim, senhor. Então sei de onde venho, mas não sei para onde vou. Em que cidade agora piso, onde piso, querido morador?

- Caro amigo viajante, seja bem vindo a D.

- E por que D tem esse nome, por que tem esse nome, querido morador?

- Somos feitos de pedra, é esse o formato de nossa cidade.

É verdade, D era feita de uma única e gigantesca pedra. Pedra cinza, rocha dura, unicor. Casas cinzas, igrejas cinzas, bares e restaurantes que ficavam entre o preto e o branco. Cidade fria como pedra, dura como pedra, mas pedra só por fora. Porque depois de cada parede vivia uma decoração de vários tons. Cadeiras vermelhas, mesas roxas. Tapetes azuis, abajours amarelos. D era triste por fora e alegre por dentro, como uma gente que só é feia na carcaça. Antônio Pedro ali bebeu e se divertiu, falou menos que escutou. Depois de uma temporada em D, partiu para a estrada novamente.

Chegou a T sem falar com ninguém no caminho. É que todos andavam com um guarda-chuva, lá em T, por isso nunca se viam. Todos andavam com um guarda-chuva e não se diziam bom dia, ao passar e, na verdade, os dias em T nunca eram bons, porque chovia o tempo inteiro e só os cachorros se cheiravam, lá em T.

Antônio Pedro entrou e saiu sem dizer palavra, sem ver rosto. Voltou pra estrada e caminhou por um bom tempo, enquanto via ônibus escolares passando na mesma direção. Chegou em um muro pintado com mãos de crianças e perguntou ao morador que ali estava:

- Morador que é meu amigo, eu te peço um favor. Eu sei de onde venho, venho de F, sim, senhor. Venho de D que não tem cor. Venho de T, mas não sei para onde vou. Em que cidade agora piso, onde piso, querido morador?

- Caro amigo viajante, seja bem vindo a A.

- E por que A tem esse nome, por que tem esse nome, querido morador?

- É a primeira letra do alfabeto, viajante.

A era uma cidade primária, no sentido de ser uma cidade escolar. Uma cidade que vivia em função dos colégios, onde estudavam os pequenos que vinham das cidades vizinhas. Em A, entre às sete e quinze da manhã e às cinco e quarenta e cinco da tarde dos dias de semana os vendedores se vestiam de super-heróis, os menus eram infantis e as lojas de brinquedo ocupavam quarteirões. Depois que o último aluno era pego na escola, os moradores de A, que eram todos adultos, começavam a se divertir de outro jeito.

Antônio Pedro saiu antes de tocar a sirene. E caminhou que caminhou até chegar em uma outra cidade e se perdeu, ali fora. Vagueou pelas suas rendondezas, sentindo que caminhava em círculos. Até que viu um morador. E perguntou:

- Morador que é meu amigo, eu te peço um favor. Eu sei de onde venho, venho de F, sim, senhor. Venho de D que não tem cor. Venho de T, onde a chuva não parou. Venho de A, mas não sei para onde vou. Em que cidade agora piso, onde piso, querido morador?

- Caro amigo viajante, seja bem vindo a M.

- E por que M tem esse nome, por que tem esse nome, querido morador?

- Aqui as coisas são espelhadas, como a letra M.

Era tudo igual, lá em M. Tudo o mesmo, assim era. Mesmos prédios, lá em M. O mesmo telhado, em todo canto. M era um labirinto, M era uma coisa só. A mesma roupa, todos vestiam. As mesmas gírias, todos falavam. Os mesmos penteados, todos tinham. Antônio Pedro sentia os olhares por onde passava. Via a cara de espanto ao ouvirem sua voz. Antônio Pedro era diferente demais para estar ali e achou a saída, sem querer, e saiu.

Passou por O, terra de gordos, parou em S que só tinha curvas. Foi em L, visitou J de passagem. Antônio Pedro havia saído de sua cidade há muito quando chegou a Z, cidade vazia, de pouca gente, quase ninguém.

- E porque Z tem esse nome, por que tem esse nome, meu querido e único morador?

- É a terra do sono eterno, viajante.

Z era uma cidade de estrelas e de cruzes. Terra de homenagens, canto eterno de todas as saudades. Antônio Pedro caminhava enquanto lembrava o tanto que havia visto, quanto havia vivido. Não lia um matinal desde a sua saída, não abria um tomo de suas enciclopédias, não conhecia mais os nomes das ruas por onde andava. Havia desaprendido a ser quem era e estava começando a sentir sono.