Uma gaiola saiu em busca de um pássaro

Era uma gaiola vazia, cheia de nada, sem música por dentro. Uma gaiola de enfeite, dependurada num canto da casa, ausente dos outros. Era quase que como uma ex-gaiola, uma ex-casa, mansão abandonada. Uma gaiola fantasma, sombria, solitária, desvisitada.

Cansada de espera, de frutas que morriam em suas laterais, de águas que evaporavam de seus bebedouros, a gaiola saiu em busca de um pássaro. Acomodou-se no cume duma árvore, fingindo-se galho, fazendo-se flora. Assistiu aos pássaros voarem, aos pássaros pousarem e beijarem flores e cagarem e até cantarem, dançando nas poças que sobravam da chuva. Escancarava a portinhola e exibia as suas banheiras de água com açúcar, a gaiola. Escolhia o vento e direcionava os cheiros de suas mangas e de suas goiabas presas em seu esqueleto, pela parte de dentro. Fingia-se galho, fazia-se flora, mas nada passava duma gaiola exibida, ansiosa, arapuca.

As águas do céu, o quente de cima, o mudar de tempo das alturas estragaram as suas hastes de madeira que se dobraram e se partiram e se fizeram em buracos nas suas laterais. Suas frutas viraram podre. Sua água secou. Ficou pedra, o seu açúcar. Enferrujaram as dobradiças, transformando em aberta a sua portinhola. Não era mais cela. Deixou de prisão. Virou galho, fez-se flora duma vez. E só aí um pássaro chegou para conviver em suas madeiras.

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