Do outro lado do muro

Foto: Rodrigo Nunes

Olhei de novo o saldo da conta. Na calculadora, dividi o que tinha pelo resto de dias que ainda faltavam para receber de novo. A quantia era razoável, mas pedia cautela: o ano atual estava bem diferente do anterior. A vida prática voltou a sufocar porque o aluguel está mais caro. O condomínio está mais caro. A conta de celular está mais cara. E o plano de internet agora é limitado. Perto de casa, um muro divide um eixo que foi batizado de monumental para celebrar a liberdade. E ele faz com que eu me pergunte se chegou a hora de se resignar.

Mas é uma dúvida que passa logo. A resignação é um suicídio permanente, como já aprendi há um bom tempo, e eu sempre tive pressa. Assim, o importante agora é pensar: se tudo está mais caro, o que é caro o bastante para que me faça ficar onde estou? O colega ao lado, que racionalmente está na mesma situação, te parece imune. Ao aluguel. Ao condomínio. Ao Cunha. Ao Temer. E, ainda que ele possa reclamar das mesmas coisas que você, há cada vez menos empatia. E sobra medo: e se eu não conseguir definir o que me é caro o suficiente para me manter onde estou?

Aí você (se) divide. O eixo, a cerveja, o resto do seu salário. Você começa a categorizar com mais afinco, detalha importâncias, dissolve objetivos e engaveta sonhos. Não há tempo para pensar neles agora. Há o aluguel. Há o condomínio. Há o Cunha. Há o impeachment. Sera que vai haver país? Domingo deve fazer sol e penso que vou de preto. Gritar. Protestar. Pelo que, ainda não sei. Se ela sai, quem fica? Se ela fica, quem continua? Ninguém divide utopia, até porque elas são exclusivas e egocêntricas. A minha é só minha. A sua, só sua. E a gente não sabe se está sozinho ou pensando parecido, porque ainda está muito preocupado em como vai pagar o aluguel.

Sim, porque ele aumentou, já disse? Aumentou também a angústia, mas não é assim quando tem crise? Não é assim quando se divide? Não é assim quando alguém que você gosta está do outro lado do muro? Será que lá a grama é mais verde? Será que lá eles se preocupam em dividir o salário pelos dias que restam do mês? Será que eles compartilham as desconfianças? Será que eles têm medo do Cunha? Até domingo, a conta estará mais vazia, as esperanças mais paradoxais e o muro vai parecer maior. E eu, que estou anotando no caderninho cada gasto, ainda caio na minha própria mania de ver o mundo por lentes cor de rosa e estou organizando uma viagem, que vou pagar com o que sobra depois de quitar o aluguel.