Outro mundo

Um dia, disse pra uma amiga que, para ver o mundo diferente, bastava eu tirar os óculos. A analogia era adolescente, mas não deixava de fazer sentido: sem os graus à minha frente, tudo ganhava aspecto granulado e, com um pouco de crença, mostrava uma realidade que não era a minha. Não que fizesse isso para ficar feliz, afinal, ainda era cheio de certezas. Mesmo que, naquela época, eu vivesse em fuga de mim mesmo, ainda era jovem o suficiente para achar que a vida tinha um caminho definido. Sendo assim, ficar sem foco me assustava no mesmo grau que me fazia pensar: e se fosse diferente?

A dependência dos óculos começou cedo, aos 11 anos. Minha mãe brigava, dizendo que não era normal usá-los e que a culpa era minha por ver TV perto demais. Eu colecionava mais um aspecto pró-bullying em uma época na qual pouca gente fazia ideia do que a palavra significava. Mas, acabou caindo bem: naquela imagem de garoto bonzinho que cultivei para tentar escapar da minha própria homofobia, os graus significavam uma aura de inteligência que funcionava no meu projeto de adolescente. Só que nunca foi legal. As lentes viviam sujas, o grau vivia aumentando, as armações vivam quebrando…

Woody Allen não precisava de óculos quando pôs aquela armação preta na época que ainda era somente um escritor de piadas do Brooklyn. Eu, que hoje sou muito mais Annie Hall que Alvy Singer, nunca gostei daquilo na minha cara: queria ver o mar, queria ver o fundo da piscina, queria assistir filme deitado de lado, queria chorar no cinema sem perder as legendas, queria, desesperadamente, dançar sem medo de ficar sem ver. E, mesmo que não fosse um grande problema — nem mesmo o meu maior problema — , usar óculos sempre foi um incômodo.

Depois de 20 anos, estou há cinco dias sem eles. O foco ainda é vacilante, eu agarro armações imaginárias sempre que vou por uma camiseta e ainda acho estranho que, durante o banho, a única coisa embaçada seja o vidro do box. Começo a ver um bando de defeitos novos — e essas bolsas debaixo dos meus olhos, meu deus? — , fiquei um tempão em frente ao espelho no primeiro dia tentando me reconhecer e não posso me esquecer dos colírios.

Mas consigo ver o sol entrar pela persiana assim que abro os olhos de manhã. Assisti um filme ontem deitado de ladinho. Comprei os meus primeiros óculos de sol da vida e, de tão empolgado, fiquei andando com eles pelo shopping tão naturalmente quanto aqueles moços que os usam em baladas noturnas. Rio sempre ao lembrar que verei o mar em novembro em todas as suas cores, fico feliz de pensar que não preciso mais levar um óculos reserva em cada viagem que faço e, confesso, mesmo que a imagem no espelho ainda seja nova, ela me representa.

Recuperei minha forma de ver o mundo, sem acessórios. Ele não ficou diferente, mas eu sim. Tenho, ainda bem, bem menos certezas do que o jovem que tirava os óculos na esperança de ver uma nova realidade. Espero menos e é por isso que não depender de lentes me deixa tão feliz: é na simplicidade de enxergar o mar que residiu toda a minha coragem de sentar na cadeira do oftalmologista e me sentir um Alex DeLarge com aquele alargador ocular no meu rosto. Continuo vendo e, claro, isso sempre será um milagre. Só que agora, vejo o tempo todo. Porque, até quando fecho os olhos, a lembrança da luz do sol entrando pela persiana se mantém. E ela é nítida.