“Tá, agora fica sem cueca.”

A fotógrafa disse aquilo de forma natural. Acostumada aos corpos despidos, não importava quem estava ali: não era um constrangimento. Para minha surpresa, também não o senti. Há algumas semanas, ela, que é colega de trabalho, perguntou se eu toparia fazer umas fotos sem roupas. Fotografando corpos femininos desde 2011, queria treinar de que forma a luz natural se comportava em um homem.

Eu nunca tive problemas com a minha nudez, talvez porque pense, há muito tempo, que é possível separá-la do sexo. Ainda mais hoje, em uma época na qual ele é cada vez menos um tabu e que as nudes são quase um primeiro momento da paquera, ficar sem roupa não precisa, necessariamente, ser um prenúncio de uma relação sexual. Mas, até então, essa era apenas uma teoria, que foi colocada à prova depois daquela frase.

Confesso que foi fácil. Além dela, um amigo de longa data, que havia “emprestado” o apartamento para as fotos, conversava amenidades. Mesmo com os dois vestidos, tomei café, deitei, levantei, fomos ao quarto, à janela, fiquei de pé, fiquei sentado, sempre seguindo os pedidos da dona da câmera… O papo continuava e, então, me dei conta que ficar pelado entre pessoas de roupa é mesmo muito mais tranquilo do que eu imaginava.

A hipersexualização dos corpos, algo bem conhecido das mulheres como mais um efeito nefasto do machismo, não apenas reforça os estereótipos sarados que vemos todos os dias nas academias. A partir disso, faz com que criemos vergonha da nossa nudez, como se o corpo nu, necessariamente, estivesse buscando o prazer sexual. Sendo assim, tirar a roupa em frente de outra pessoa parece sempre ter um único objetivo.

Quando, na verdade, não deveria ter. Não que devamos começar a andar pelados pelas ruas, até porque eu perderia muitas camisetas legais nessa ideia. Nem mesmo critico aqueles que não se sentem à vontade com o próprio corpo, isso também é uma consequência dessa sexualização exacerbada, que estimula a vergonha de todos que estão fora dos “padrões”. O que deve acontecer é o questionamento.

“Por que tenho vergonha de ficar sem roupa na frente de outra pessoa?” Ninguém precisa fazer uma sessão de fotos, sei o quão desinibido eu sou. Mas analisar o que existe além do nude é necessário não só para que nos aceitemos melhor — seja com o corpo que tivermos — , como para que consigamos não transferir as inseguranças que nossa nudez traz para o momento do sexo. E, claro, para que a gente possa sentir menos calor, não é mesmo?

Publicado originalmente na Revista do Correio, edição 545, de 25/10/2015

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