Heleno também era Bacharel

Uma homenagem ao ex-jogador, ídolo do Botafogo, que completaria 96 anos neste 12 de fevereiro. É verdade: nunca houve um homem como Heleno

Ator Rodrigo Santoro interpreta Heleno de Freitas no cinema. Foto: Rogerio Faissalred

Heleno de Freitas era diferenciado. Dentro e fora de campo, foi o protagonista de sua vida e de muitas outras. Foi seu próprio herói, sua própria glória, seu próprio vilão e sua própria tragédia.

Foi desde sempre esperto e galanteador. Nas muitas noites de cassino pela capital, seja na Urca seja em Copacabana, era um homem irresistível, cujo falo se diferenciava dos demais pela sorte da beleza e pelo gênio destemido.

O que poucos sabem é que Heleno era bacharel em Direito, formado pela UFRJ, após fazer o colegial no São Bento. Como hoje, naqueles tempos era raro jogador ter ensino superior completo. Mas ele, fora da curva como sempre, tinha. Não só tinha, como se gabava pelo canudo. Não era apenas mais um bacharel. Era O BACHAREL, a personificação exata de um dos tipos ideais de Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil.

Fosse médico ou engenheiro, pouco importaria. Ele era diplomado (!) e não foram raras as vezes em que esfregou o título na cara dos jogadores mais humildes. Heleno foi um Edmundo com grife, um Romário do alto clero: craque, falador, festeiro e ídolo. Fazia gols na mesma proporção em que era expulso. Era polêmico.

Durante o estrelato, entre Botafogo, Seleção, Vasco e Boca Juniors — quatro das noves equipes em que atuou — enriqueceu. E não foi pouco. Era tarado por Cadillacs, carro que acompanhou seu charme por toda extensão da Avenida Atlântica, point favorito da alta sociedade do então distrito federal.

Heleno era sinônimo de indisciplina e inconsequência. Ah, porque onde houvesse Heleno, mulheres, éter e álcool, haveria confusão. E ele as adorava. Apanhou muito e bateu na mesma medida. Xingar, sem dúvidas, era um de seus verbos preferidos.

Para bem e para mal, Heleno teve uma vida intensa. Da rebeldia nos gramados ao lança-perfume nas festas, ele viveu de verdade. Experimentou quase tudo. Integrou o “Clube dos Cafajestes” — apelido da nata, da nata, da nata da burguesia masculina carioca -, mas morreu só, doente, podre, fétido, louco e estragado aos 39 anos.

Recusando a castração exigida pelo profissionalismo e diagnosticado com sífilis, Heleno de Freitas se tornou incapaz de viver em sociedade, sendo obrigado a se instalar em um sanatório, em Barbacena. É bem verdade que, antes disso, casou e teve um filho — como tantos outros homens da boemia carioca. Mas se separou, conquistou o ódio da ex-esposa e a distância da criança.

Capa do livro “Nunca Houve um Homem como Heleno”

Por tudo isso e muito mais, Heleno virou filme, exposição e biografia. Essa, aliás, é muito bem-feita, tendo sido a motivadora principal deste texto. De todas as informações que nela constam, definitivamente a melhor é a que está em sua capa: Nunca Houve um Homem Como Heleno. Nunca.

Em vida, foi assunto para o escritor Gabriel García Marquez. Pós-morte, virou praça em São João Nepomuceno, cidade de onde saiu para escrever história. E que história.