Análise: Pink Floyd — The Dark Side of the Moon

Pink Floyd não é apenas uma banda de rock progressivo ou experimental. Na verdade, é uma banda que lançou novos conceitos na arte e principalmente no movimento da contracultura. Não é uma banda que lançou trabalhos com músicas comuns, mas sim verdadeiros tratados que exigem uma certa interpretação. Como o posterior “The Wall”, “The Dark Side of The Moon” é um álbum conceitual: todas as faixas estão conectadas e tratam de um mesmo tema, a loucura. É preciso, então, ressaltar alguns elementos fundamentais:

a) Os sons que apareceram em alguma faixas são apresentados logo no início do álbum: a caixa registradora de Money e o relógio de Time.

b) As falas entre algumas faixas, que estão diretamente ligadas ao conceito do álbum.

Então, temos um álbum conceitual sobre a loucura. Mas qual loucura? Ou melhor, o que é a loucura? Se pensarmos na loucura unicamente como aquela figura clássica do “Napoleão de hospício”, a resposta então saltará aos olhos. Mas não é simples assim: sabemos que, ao longo da história humana, o conceito de loucura, do grego anoia ἄνοια, isto é, “sem mente ἄ + νοια”. Aqui, é utilizado o conceito de nous νους, a faculdade humana ligada ao entendimento da verdade e do real — não é a mera faculdade “racional”, mas sim a verdadeira percepção da mente. A loucura, portanto, é a ausência do entendimento correto, verdadeiro, das coisas. A loucura não é uma “falta de razão”, mas sim uma ausência do verdadeiro entendimento. É o que diz G.K. Chesterton em “Ortodoxia”: louco não é quem não raciocina, mas quem raciocina demais. A loucura, para Chesterton, seria uma mente homogênea, com fé em si mesma, extremamente racional em sua homogeneidade — e assim ele argumenta que a loucura é típica dos jogadores de xadrez, dos matemáticos e contadores, enquanto artistas, criadores poetas não enlouquecem com a mesma frequência. Falta ao racional aquilo que percebeu Walt Whitman: “Do I contradict myself? Very well, then I contradict myself, I am large, I contain multitudes’. (Eu me contradigo? Muito bem, então me contradigo. Sou grande, possuo multidões). Aqui, Chesterton é uma excelente bússola para compreender o conceito de nous, ele nos aponta a diferença entre a razão e o nous, entre aquele pensamento que busca esmiuçar com a razão algo que está além dela: “O fato geral é simples. A poesia mantém a sanidade porque flutua facilmente num mar infinito; a razão procura atravessar o mar infinito, e assim torná-lo finito.”[1]

Para os gregos, a boa vida era fundamentada no viver sob um bom daemon δαίμων, a eidaimonia εὐδαιμονία. Então, neste conceito, há os eidaemon εὐδαίμων, isto é, os daemones favoráveis e bons, e os cacodaimon κακοδαίμων, os daemones “maus”. Entretanto, nenhum daemon é mau ou bom em si mesmo, mas sua definição ocorre de acordo com a circunstância. Como deuses que representam os estados da natureza humana, os daemones são as emoções e estados humanos e, particularmente, creio que o que definia um daemon como bom ou ruim era a percepção, o entendimento (noético) do daemons. Desta forma, o significado do daemons ser apropriado estava na própria compreensão do estado. Vemos, por exemplo, os padres gregos da Igreja Ortodoxa, praticantes do hesicasmo, que “crucificam” as chamadas paixões (estados humanos) em busca da iluminação divina — eles imaginam que, no controle das paixões há a verdadeira iluminação noética. De fato, em seus escritos notamos que eles não negam a existência das paixões e estados emocionais até mesmo nos iluminados hesicastas, mas atestam que, pelo nous iluminado, tais homens estão livres da má compreensão do estado e assim livres do pecado (a loucura, o pecado amartia ἁμαρτία, que significa justamente “errar o alvo”, sem objetivo, sem destino). É o mesmo entendimento: não é a loucura entendida como a falta de razão, mas algo mais relacionado a um erro de alvo, que é o da compreensão da verdadeira natureza. O mesmo pode ser dito do Budismo, que rejeita a ideia de pecado, mas relaciona a ignorância à falta de entendimento.

O artista grego, por exemplo, imaginava-se acompanhado por um daemon: a obra não era dele, mas do daemon. Sócrates dizia ser inspirado por um daemon, os kobold do folclore germânica, embora possam aparecer aos homens, também são inspiradores de desgraça ou ajudantes, há também, no imaginário popular, a ideia dos “anjinhos” que aconselham para o bem ou para o mal. Como mencionei acima, não creio que o daemon e os outros seres mitológicos semelhantes eram de fato “entidades”, mas sim representações das emoções humanas com a percepção superior — também creio que os homens mais estudados do passado assim entendiam, provavelmente a crença em tais entidades como “reais” era algo mais comum ao populacho.

Então, ao longo do álbum, veremos este tipo de loucura: não é a do alucinado que sonha ser uma galinha, mas de alguém que, ao longo de um ciclo, vai perdendo o domínio de seu entendimento, de forma totalmente justificável e racional. E assim começa a obra: Speak To Me, a batida do coração, depois acompanhada pela caixa registradora e pelo relógio, então surge uma voz: “Tenho sido louco, eu sei que tenho sido louco / como a maioria de nós / é muito difícil de explicar o motivo de se estar louco / até mesmo quando você não está louco…”, acompanhada pela risada de um louco, cada vez mais alta. A batida do coração, representa a vida e ela volta, ao longo do álbum, ritmada conforme a etapa da vida relacionada à faixa. A caixa começa a registrar, a contar o dinheiro caindo, quando surge o relógio que a acompanha, junto da batida do coração — a vida bate, seguindo o fluxo do tempo e do dinheiro. E a voz fala sobre a loucura: assume que é louco, louco há muito tempo, sua loucura é normal e que nem mesmo são é possível descrevê-la corretamente. E a risada do louco acompanha a voz, começa baixa e vai aumentando o volume, sinal do domínio gradual da loucura. Aquilo que mencionamos anteriormente: não é a loucura não-funcional, não é o Napoleão de hospício, como também não é uma loucura que nasce do dia para a noite. É uma loucura desenvolvida, tanto pelos pensamentos internos como pelos fatos da vida, uma loucura que, em si mesma, faz todo sentido e é completamente racional. É a loucura da razão. “Speak to Me” é emendada com Breathe (como todas as faixas, que não se encerram, mas marcam o início da próxima), que também volta ao final de Time e em The Great Gig in the Sky.

Breathe é alguém aconselhando a outra pessoa, principalmente sobre o estilo de vida. “Respire, respire o ar / Não tenha medo de se importar / Parta, mas não me deixe / Olhe ao seu redor e escolha seu próprio chão”. Parece um conselho maternal: “parta, mas não me deixe”, como para que o aconselhado tenha prudência ao escolher o seu próprio caminho. Desta forma, notamos que é o conselho de alguém já vivido, com certa experiência e conhecedor das relações humanas e naturais. “Corra, coelho corra / Cave aquele buraco e esqueça o sol / E quando finalmente o trabalho terminar / Não se sente, é hora de cavar um outro”. O aconselhado não pode deixar o tempo passar (algo que é melhor explicado em Time), pois há um trabalho que nunca acaba. Quem aconselha parece ser uma pessoa muito centrada, bem distante da loucura. Ele quer dizer que a vida de cavar buracos, a vida de trabalho ordinário, nunca acaba. É sempre hora de começar outra tarefa comum, mecânica, sem sentido, vulgar, incapaz de qualquer realização — cavar buracos. Então, já no começo percebemos como ela entende muito bem as leis da vida: “Sorrisos você dará e lágrimas chorará / E tudo você tocar e tudo que você ver / É tudo o que sua vida sempre será”. Então, temos a principal parte da letra: “Desejo a você uma vida longa e que você voe alto / Mas apenas se você navegar a maré / E se equilibrar na maior onda / Você terá uma morte prematura”. Há uma alternativa à vida de cavar buracos: navegar a maré. Causará uma morte prematura, vendo o fluxo através da maré, sempre em coisas novas, ao contrário do tédio de cavar buracos. Não parece algo ligado à insanidade, mas sim o discurso de alguém que conhece duas vias, opostas: uma mais longa e tediosa, outra breve e emocionante.

O arrependimento também é uma marca em Dark Side of The Moon: Time, uma das músicas mais conhecidas e cultuadas da obra, também trata essencialmente de arrependimento. Pois a loucura envolve uma grande dose de arrependimento. Ao contrário da figura típica do louco que apenas alucina, o tipo de loucura no álbum é aquela fruto de diversas racionalizações da vida e seus problemas: a risada do louco que começa muito baixa e vai aumentando seu volume, até dominar por completo o sujeito repleto de amargura e remorso.

O clima do álbum, que era mais introspectivo e reflexivo, passa a ganhar um certo estresse. On The Run começa a acelerar: é o anúncio de que o conselho acabou e chegou a hora da vida, como se anunciasse o início de uma prova complicada. É a primeira fase do álbum, que podemos colocar como a fase daquilo que levou à loucura, das etapas, desgostos e afazeres da vida humana. Não por acaso, as vozes em On The Run anunciam voos em um aeroporto e depois, misteriosamente: “Viva o hoje, vá amanhã, sou eu.”. Marca, então, o anúncio de uma partida, uma viagem, para se encontrar com a loucura.

Time começa ao som de um tique-taque, quando um grande despertador toca, seguido pela batida do coração, mais acelerado do que em Speak to Me. “Você gasta à toa e joga no lixo as horas descontroladamente / Perambulando de um lugar para outro em sua cidade natal / Esperando por alguém ou algo que te mostre o caminho”. É o começo da juventude, vagando em busca de algum conselho, de alguma coisa no início da jornada. “Cansado de tomar banho de sol / De ficar em casa vendo a chuva / Você é jovem, a vida é longa / E há tempo para desperdiçar / Até que um dia você descobre / Que dez anos ficaram para trás / Ninguém te disse quando começar a correr / Você perdeu a largada”. A juventude desperdiçada, pois é quando se imagina que há muito tempo. E o que vemos na juventude é justamente isso: no mundo moderno, joga-se fora a juventude em brincadeiras, pois se imagina que é a época de “aproveitar” a vida em jogos infantis. Sem dúvida alguma, pode-se dizer que o drama da loucura do álbum está ligado à ideia deste desperdício da infância: “E você corre e corre atrás do sol / Mas ele está se pondo / Fazendo a volta para nascer outra vez atrás de você / Relativamente, o sol é o mesmo / Mas você está mais velho / Com menos fôlego e um dia mais perto da morte’. As coisas em torno dele são as mesmas, há a sensação de que apenas ele perdeu tempo. Uma espécie de paranoia em relação ao tempo: paranoia, do grego paranous παράνοος, de παρά além ou anormal + νοος, além do nous, além do entendimento. A sensação de perseguição constante, uma das formas da loucura, quem ultrapassou os limites do entendimento correto e crer-se perseguido por algo que não é real, mas é plenamente justificável na razão do paranoico. É esta a sua relação com o tempo, a sensação de que o tempo corre apenas para a morte: “Cada ano vai ficando mais curto / Parece não haver tempo para nada / Planos que dão em nada / Ou meia página de linhas rabiscadas”. Há um grande estresse na letra de Time, a sensação de quem olha para a vida e vê apenas tempo jogado fora, ilusões e falhas. O estresse é rompido com a volta de Breathe: “Em casa, novamente em casa / Eu gosto de estar aqui quando posso / Quando chego em casa cansado e com frio / É bom pra esquentar meus ossos ao lado da lareira / Bem longe, do lado de lá do campo / O badalar do sino de ferro / Chama os fiéis, de joelhos / Para ouvir o encanto suave de suas palavras”. O estresse que marcou a chegada de Time é diminuído, há a sensação de calma e aconchego do ambiente de Breathe. As palavras, agora, falam do consolo obtido na lareira e o bucólico cenário do campo, com o sino chamando os fiéis ao falso consolo da Igreja (os encantos): a espiritualidade vazia tão falsa como o consolo da lareira, que aquece apenas os ossos e alivia o corpo de tantas frustrações.

Surge então Great Gig in the Sky. Logo após a relação cruel e devastadora com o tempo, a faixa trata do tabu da morte. Sabemos que a morte é um tabu cruel no mundo moderno. Evita-se falar sobre ela, é um assunto evitado, perdido. Mas que está aí o tempo todo. Depois de tratar do tempo e do consolo temporal para sua ação, a faixa começa com um piano tranquilo e a voz afirmando: “Eu não tenho medo de morrer, qualquer hora morrerei, não ligo. Por que eu deveria estar com medo de morrer? Não há motivo, qualquer hora você partirá”. “Se você consegue ouvir este sussurro, então está morrendo.”. E começa um belíssimo canto feminino, numa das mais belas músicas do rock. É um pranto, parece participar de um cortejo fúnebre, é poderoso e triste. A voz diz com muita certeza que não teme a morte, encara a morte como algo natural, é extremamente fatalista. É um contraste com alguns momentos do canto, que evoca certo desespero, que atinge seu ápice por volta dos 2:13, até o canto parar aos 2:26. Quando volta, alguns segundos depois, é mais tranquilo, mas ainda doloroso. Então, vemos um claro contraste, que é um dos sintomas da modernidade e talvez uma das razões para a loucura: a sensação do tempo que corre, o desdém pela morte, que é na verdade a consequência inevitável do tempo, e o consequente “estágios do luto”, representados no canto. Aos 3:33 uma voz feminina sussurra: “Se você consegue ouvir este sussurro, você está morrendo”. Uma mensagem ao apreciador mais atento. E aqui termina uma fase do álbum, a que trata do aspecto mais “intelectual” da loucura: o estado da loucura em Speak to Me, os conselhos de Breathe, a questão do tempo em Time a morte em On The Run.

O álbum passa, então, para a questão mais prática: o dinheiro. É o início da vida mais prática, de como o dinheiro e os passatempos são ferramentas insuficientes e ilusórias para o drama da primeira parte. O som da caixa registradora aparece e Money começa com: “Dinheiro, cai fora / Arrume um bom emprego com salário melhor e você estará ‘ok’ / Dinheiro, é um combustível / Agarre essa grana com as mãos e faça dela um tesouro / Carro novo, caviar, sonho acordado de quatro estrelas / Acho que comprarei um time de futebol para mim”. O dinheiro é visto como um alívio para as questões da primeira parte. Parece que está tudo resolvido. Algum problema? Ganhe mais dinheiro e pronto, algo será comprado e está tudo bem. “Dinheiro, é um crime / Divida-o de modo justo, mas não pegue uma fatia da minha torta / Dinheiro, assim eles dizem / É a raiz de todo o mal hoje em dia / Mas se você pedir um aumento, não é surpresa que eles / Não estejam dando nenhum”. Há o dilema moderno: todos condenam os males da ganância e da cobiça, mas poucos abrem mãos de suas fatias. O ritmo da caixa registradora ao longo da música deixa algo muito claro: há uma monótona repetição do ciclo de ganhar e gastar dinheiro. O que Time apontou do desperdício de tempo na juventude, na vadiagem que desperdiça a vida é repetido, mas é mascarado pela busca da satisfação monetária. Vozes dialogam ao final da música: “Ele perguntou / Por que ele não poderia vir de graça, eu gritei / Gritando, disse-lhe por que ele não poderia vir de graça / Isso foi como um golpe forte, mas nós resolvemos o problema”. Aqui, há o aspecto negativo do dinheiro: os que são excluídos e negados ao dinheiro e fortuna. Nem mesmo a ilusão é para todos, aqueles que conseguem o consolo do dinheiro precisam esfregar na cara de quem não consegue e apartá-los do acesso à fortuna.

Depois do dinheiro, a faixa Us and Them trata justamente de algo ocasionado pelo dinheiro: o conflito. É um conflito dualista, de duas visões opostas, mas a letra não toma o lado de qualquer parte. O começo fala justamente do conflito físico, da guerra (algo que foi tratado de forma mais ampla em “The Wall”): “Nós e eles / E afinal somos apenas homens comuns / Eu e você / Só Deus sabe que não é isso que teríamos escolhido fazer / “Adiante! “ Ele gritou, da retaguarda / E os homens da linha de frente morreram /E o general sentou-se / E as linhas no mapa se moveram de um lado para o outro”. Os generais, aquele que comandam, tomam seu assento e aproveitam das consequências da guerra, enquanto os homens comuns se movimentam no campo mortal. Mas há um conflito maior, algo além da guerra física: “Preto e azul / E quem sabe quem é quem / quem é quem / Para cima e para baixo / E no final é apenas uma continuidade de círculos / ‘Você não ouviu? É uma batalha de palavras / Gritou o homem que carregava o cartaz / Ouça, filho, disse o outro com o revólver / Há um quarto para você lá dentro”. Há uma ironia no conflito: um desgaste que não se justifica, pois a complexidade humana é muito grande para caber em conceitos duais como “preto e azul”, mas é um conflito que sempre tem lugar para mais um. Podemos buscar, aqui, a ajuda de René Girard, filósofo francês formulador da teoria da violência mimética. Para Girard, a sociedade humana vive num ciclo mimético de violência, amenizado apenas pelo sacrifício de bodes expiatórios, que evitam um conflito generalizado pela satisfação dos desejos de consumo. É assim que, como continuidade da falsa satisfação descrita em Money, que as pessoas reagem perdidas pelo fato do bolo da fortuna não ser um banquete para todos. “Morto e destruído / Não dá para evitar mas tem muito disso nesta situação / Com ou sem / E quem há de negar que essa é a razão de toda a briga? / Saia do caminho, é um dia movimentado / E estou com a mente ocupada / Por querer o preço do chá e uma fatia / O velho homem morreu”. Há os que ignoram o conflito, como o velho que morre por querer uma torta e um chá. E ele morre justamente por ignorar o conflito. É um dos aspectos mais interessantes do lado prático apresentado em Money e Us and Them: enquanto o a primeira parte trata da crise existencial na loucura, esta segunda parte trata do efeito da vida social na formação da loucura. Que a vida social influencia em distúrbios psiquiátricos, suicídios e transtornos de comportamento é um fato. Crises econômicas, guerras, problemas de relacionamento e pressões sociais são fatores que geram e aumentam distúrbios. Temos a loucura encarada como um fator individual e social, uma clara demonstração da genialidade da obra e de toda sua profundidade.

Antes da terceira e última parte, que trata justamente do estágio final da loucura, há uma faixa instrumental, Any Color You Like. Depois de apresentar o “Preto e o Azul” em Us and Them, a faixa que marca a transição de fases é justamente “Qualquer cor que você quiser”, isto é, no estágio final da loucura, o lado que você escolheu não possui mais qualquer importância. Como o estágio final é a completa dissociação do mundo real e de seu entendimento, não faz mais diferença: aos que sofrem de distúrbios psiquiátricos avançados, todas as disputas pelo dinheiro e pelas ideologias não fazem muita diferença. Há depressivos e loucos ricos e pobres, quem já passou por um estado de depressão profunda estas questões assumem uma porção muito pequena. É então que a loucura assume um aspecto interessante, que será desdobrado na próxima parte: a loucura como uma jornada interior, uma autodescoberta, é quando os mecanismos que protegiam da loucura falha e ela atinge seu estágio final. Doloroso, mas quando é possível voltar ao seu interior.

Começa Brain Damage, num ritmo lento e com uma guitarra melancólica ao fundo: “O lunático está na grama / O lunático está na grama / Lembrando de jogos, das corrente de margaridas e risadas / Temos que manter os doidos no caminho”. Chegou a loucura, e todas as paranoias, os sofrimentos e prazeres. Agora ele está deitado na grama, nada disso importa, mas é importante “manter os doidos no caminho”. Aqueles que saíram do caminho são verdadeiro atrapalhados do ponto de vista social. Mas aqui, não há alguém vendo o louco do lado de fora e condenando sua ação: é o próprio louco que percebe sua loucura e tenta condená-la. “O lunático está no corredor / Os lunáticos estão no meu corredor / O jornal deixa suas caras dobradas no chão / E cada dia o entregador de jornal traz mais”. “E se a represa romper-se muito antes do tempo / E se não houver nenhum espaço em cima da colina / E se sua cabeça também explodir com maus pressentimentos / Eu te verei no lado escuro da lua”. “O lado escuro da lua” é o ponto final da loucura, o ponto do rompimento final. Neste verso, é como um perigo constante que aguarda a todos, pois os mecanismos que protegem contra a jornada anterior podem romper para qualquer um. Pois a loucura parece continuar atacando: “O lunático está em minha cabeça / O lunático está em minha cabeça / Você ergue a lamina, você faz a mudança / Você me rearranja até eu ficar são”. Há uma tentativa para escapar da loucura, as risadas do louco voltam a aparecer na música e não há mais escapatória: “Você tranca a porta / E joga a chave fora / Há alguém em minha cabeça, mas não sou eu / E se a nuvem explodir, trovejar em seu ouvido / Você grita e ninguém parece ouvir / E se a banda em que você está começar a tocar melodias diferentes / Eu te verei no lado escuro da lua”. É um adeus, pois o rompimento não pode mais ser impedido. Já não é mais possível alinhar-se com a visão das outras pessoas, a banda já toca melodias diferentes. A loucura, na verdade, era o estado anterior, o de refrear sua busca em nome do jogo social. As pessoas ficam loucas não porque foram fracas para resistir, mas porque a loucura é o estágio natural. O rompimento causado pela loucura aqui descrita é totalmente diferente da loucura como entendida pela sociedade: o tempo desperdiçado não significa o tempo que você poderia ter aproveitado para estudar mais ou “ser alguém melhor”.

A loucura, conforme expliquei anteriormente, é justamente o estado da normalidade. A vida pelo dinheiro, a vida do preto contra o azul. A vida ordinária ignora de fato os daemones. Talvez por isso o conceito de daemon tenha sido transformado no demônio cristão, pois o ideal cristão é o de ecclesia, ou seja, assembleia. Uma assembleia que, em nome da fé e união em torno dela, deve ignorar suas vozes interiores e colocar sua esperança em algo coletivo, na comunidade liderada por certo códigos e leis. “Cabeça vazia, oficina do diabo”, diz o provérbio popular — um dito popular que esconde um significado muito interessante: vazio e com seus pensamentos, você dá espaço para o daemon, o demônio. Os hesicastas ortodoxos, mencionados anteriormente, valorizam muito o silêncio e por isso soam tão estranhos aos cristãos ocidentais, mais acostumados com outro tipo de espiritualidade: o segredo do hesicasmo ortodoxo está neste encontro consigo mesmo. Mesmo dentro dos limites do dogma do Cristianismo e de sua visão de ecclesia, há uma luta interna e direta contra as paixões, uma redescoberta e combate contra seus daemones, como nas fases da Grande Obra da Alquimia.

E Eclipse revela o segredo disso tudo — a repetição de “tudo”, semelhante ao Sutra do Coração do Budismo. No Sutra do Coração, Buda diz que todos os fenômenos são vazios. “Forma não se diferencia de vazio, vazio não se diferencia de forma”. “No vazio não há formas, nem sensações, não há vontade e consciência”. É a realização de que só há o vazio e todas as coisas não existem de fato que gera a realização e o fim do sofrimento. E temos em Eclipse: “E tudo que você dá / E tudo que você negocia / Tudo que você compra, implora, pega emprestado ou rouba / E tudo que você cria / E tudo que você destrói / E tudo que você faz / E tudo que você diz / E tudo que você come / E todos que conhece / E tudo que você menospreza / E com todos que você briga / E tudo que é agora E tudo que já passou / E tudo que virá / E tudo sob o sol está em perfeita sintonia / Mas o sol esta coberto pela lua”. Tudo que foi feito e gerou a loucura estava “ali”, mas a falta de percepção, que é a loucura em negar isso e atribuir consolos para negar a busca pelo sentido, geram um rompimento muito brusco, uma completa dissociação da sociedade. O “sol coberto pela lua” são as imposições sociais, que impediram a busca. Agora, os conselhos de Breathe fazem todo sentido: é por isso que navegar a maré, contra a opção de cavar buracos, gera uma morte prematura.

A voz, ao final da música, diz: “Não existe lado negro da lua. Na verdade, ela é toda escura”. Aquilo que sempre foi evitado, o rompimento, que é o lado escuro da lua, na verdade sempre esteve ali. Estava escondido, estava mascarado. A anoia (loucura) ocorre por fatores pessoais e sociais, mas a loucura vivida é diferente da loucura como entendida devidamente. Por exemplo: não há sanidade alguma no modo de vida moderno. Trabalhe e estude muito, durma pouco, tenha pouco tempo para si mesmo e depois compre luxos inúteis — quando o luxo falhar, preencha seu vazio com remédios ou atividades vazias. A reflexão proposta em Dark Side of the Moon não é uma reflexão centrada no louco que perdeu a sanidade e imagina que é uma galinha ou passa o tempo vendo dinossauros no quarto. É uma crítica social, uma discussão sobre o conceito de loucura. É algo muito mais amplo: quem é o louco? A ruptura com os padrões sociais é mesmo a loucura, a anoia, isto é, a falta de compreensão? Não seria o próprio estado “normal” a verdadeira anoia — completa falta de autoconhecimento, preenchido com valores vazios?

Reparando bem, é possível perceber como a loucura descrita por Chesterton, por exemplo, possui mais pontos em comuns com o homem moderno do que com o estágio final atingido no álbum. O homem moderno passa por uma tremenda montanha russa entre a fé em si mesmo e a completa ausência de si: ele ouve e repete “seja você mesmo”, “seja um vencedor”, “você pode tudo aquilo que desejar”, “deseje e acontecerá”. Entretanto, ao mesmo tempo, precisa de terapeutas para ouvir suas questões, precisa de remédios para estabilizar seu humor ou dormir, quando falha em alguns aspectos sociais conhece o fundo do poço. É essa a loucura que precisamos discutir.

A jornada do autoconhecimento está escondida sob a loucura, aos desavisados, a loucura aparece apenas no final do álbum, com a suposta luta de um louco contra seus pensamentos. Para quem é capaz de perceber, há uma profunda crítica social e uma valorização do autoconhecimento e do crescimento individual, uma marca da contracultura, e não a mera jornada de um lunático. Temos, então, a revelação da via pessoal em contraste à castração mental imposta pela sociedade. O “lado escuro da lua” aguarda, mas é como as antigas iniciações — repleto de provas, de umbrais e com um destino vedado apenas aos corajosos.

[1] CHESTERTON, G.K., Ortodoxia, tradução de Almiro Pisseta, Ed. Mundo Cristão, São Paulo, 2007.

Rafael Resende Daher

Written by

The Philosophers Gold or Silver, is a metallick body.

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