O clima

Eu realmente não lembro de outro inverno que tenha chovido tanto em Porto Alegre, mas eu também não lembro se foi ontem ou mês passado que eu de repente cheguei à conclusão de que eu era feliz; pode ser que tenha sido um ano atrás, depois de ter bebido, cheirado, fumado, colocado algum comprimido de atuação misteriosa na boca. É, a sensação da “conclusão de ser feliz” acho que faz mais tempo mesmo, hoje eu só desconfio alegremente, e talvez seja melhor assim, mas de fato não lembro de outro inverno que tenha chovido tanto em Porto Alegre.
Algum tempo atrás, conversando por whatsapp com um escritor e amigo que admiro, mas que mora longe e nunca nos vimos, mandei uma foto da minha janela, mostrando o clima do dia, e ele disse que dias assim, onde ele mora, são os dias mais tristes mesmo, porque impedem o programa mais comum que ele tem com os amigos, que é sair de noite pra beber na rua, sem nenhum teto de proteção. Ele me perguntou se era comum esse clima aqui, e eu tive que dizer que tava sendo bem comum sim, e parei pra pensar sobre o quanto será que isso também estraga qualquer coisa por aqui.
Claro que estraga, é óbvio que estraga, mas, ao mesmo tempo, se houver a disposição de dar uma caminhada por um bairro como (vamos ser óbvios) o Bom Fim (e arredores), um bairro que tem quase a mesma quantidade de pessoas da “elite intelectual” e de moradores de rua, acho que dá pra se divertir, molhado, observando, por exemplo, os gauchinhos tendo sua arrogância e sua vaidade aprisionadas por uma manta, cachecol, lenço, echarpe, que vai no pescoço com um nó que, olha, não foi tão fácil assim de aprender a fazer; e caminham desse jeito debaixo dos seus guarda-chuvas, com um olhar de agonia, a testa enrugada, a botinha marrom desviando das poças; e tá ali, traduzido numa imagem maravilhosa o pensamento: “é difícil, muito difícil, viver dessa forma, com tantos pensamentos, tantas coisas que conheço e sei, e ainda esse clima, essa dificuldade de locomoção, queria tirar da cabeça aqueles versos de Marina Tsvetaeva, pelo menos agora, no meu caminho até a barber shop”. Eles estão agoniados, alguém ainda não respondeu um e-mail. Foi um espasmo interno forte que surgiu no corpo dentro dos Insecta Shoes quando um mendigaço daqueles bem mendigão, daqueles cuja mendigosidade atingiu um nível que não suscita mais compaixão nem tristeza, e sim uma espécie de pavor que não é medo, que é um pavor do mundo, daqueles mendigos que fazem a gente não ter certeza se ele quer dinheiro, comida, ou se ele quer que tu de alguma forma proporcione qualquer coisa impossível — seu renascimento, a revolução, o apocalipse. Tu gostaria de poder sentar e conversar com ele, e falar sobre o teu candidato pra eleição que se aproxima, mas não dá; na esquina da Fernandes com a Osvaldo, foi um espasmo interno forte que fez a pessoa dizer “Não tenho, amigo, tô só com o meu cartão pra pagar o café que vou tomar ali no Cantante, vou encontrar uma amiga que é ilustradora, estamos desenvolvendo um projetinho”, e pluft, pisou numa poça e quase deu com o guarda-chuva num rapaz que, ei, esse tem outra postura quanto a essas coisas.
Esse eu realmente invejo; razoavelmente maltrapilho apesar da plena capacidade de viver muito bem sem precisar trabalhar (imagino eu), uma roupa meio qualquer, uma touquinha peruana, sem guarda-chuva, Marlboro Light no canto da boca, ouvindo música num fone de boa qualidade, barbão com o qual com certeza não tem nenhum cuidado; ele não parece agoniado, ele parece que gosta daquilo ali. Tá traduzido o pensamento no fenótipo: “sou mas não sou, não tô nem cá nem lá, acho importante isso e aquilo, mas também considero aquelas outras coisas, e sou super espontâneo e aberto pras coisas”; sim, ele parece ser mesmo, inclusive pro mendigaço que também o abordou. Vejam só, ele chega a tirar o fone de ouvido pra ouvir o que o mendigo tem a dizer, e, apesar das notas amassadas na carteira velha, cheia de notas fiscais e umas moedas, ele diz, muito benevolente, “cara, aceita um cigarrinho?”, e já vai puxando do bolso o crivo redentor de seus pecados; o mendigo aceita, pede o fogo, e ele entrega o isqueiro na mão do cara, com certeza já entrando no conflito sobre como vai se sentir no momento em que entrar na Lancheria pra tomar um suco misto, mas antes vai se obrigar a passar no banheiro e lavar as mãos porque pegou no isqueiro que o mendigão pegou — e enquanto faz isso, ele poderia entrar também no conflito sobre ser lógico ou não também lavar o próprio isqueiro, mas, em vez disso, ele pensa no que diria sobre o ato de lavar as mãos: “me sinto mal fazendo isso, é claro, mas enfim, a gente não sabe né, eu tento ser mais, eu tento, bom, enfim”. Deixa pra lá, cara, pede teu suco aí e senta bem quietinho conversando com teus amigo mongolão no whats, depois de um tempo pega o Deleuzão da tua mochila e abre sobre a mesa como se fosse um livro gigante, saboreia como se fosse um xis salada sem carne, vira cada página fazendo o mesmo esforço que tu faz pra entender o negócio — “tudo tem limite, e tem seu momento certo, tava ouvindo uma Lady Gaga, mandando foto fazendo biquinho pros amigo, mas agora é a hora de me preocupar com a patafísica jarryana em diálogo com Heidegger, só por dez minutos, depois metemo um cpm22 nos fone e saímo distribuindo crivo pros mendigo no caminho”. Isso aí, foda-se a chuva, tá tudo certo.
Não tá não. Tive uma sinusite horrível poucos dias atrás; tomei dez dias de antibiótico e aprendi a fazer direitinho a limpeza dos seios nasais, com seringa de 20ml e soro fisiológico pra dentro em alta intensidade. TUM, entra tudo por um lado e sai pelo outro, tri bom, tu faz isso te olhando no espelho e sente que tá num filme do Cronenberg. Às vezes faço isso e também penso outra coisa: será que os moradores de rua que ficam por aqui também estão com sinusite? Um tempo atrás uma me disse que tem AIDS, mas sinusite não sei. É com ela que eu mais converso, mas tá aumentando a quantidade deles aqui entre a Ramiro e a Venâncio, muitos dormem bem nos lados da entrada do meu prédio, outros na calçada da Galeria, outros ali do lado do HPS, do outro lado da calçada também, do lado da funerária, na frente da loja de informática. Com o tempo tu vai aprendendo nomes, sabendo algumas histórias (reais?), e pode, por exemplo, chegar pra um cara e dizer “eaí meu, conseguiu comprar o remédio pro dente aquele dia?”, e ele dizer “sim, sim, valeu, ô, tu não tem umas roupa sobrando?”, e tu vai ter que dizer “cara, vou ver, tá?, se cuida aí”, já saindo, rumo ao teu compromisso que tu mesmo criou. É claro que tu tem algumas roupas sobrando, e tu quer entregar pra ele, pode ser que tu faça isso ainda hoje, de noite, quando estiver chegando em casa, porque ele vai estar ali embaixo de novo; pode ser que isso aconteça só daqui a um mês, e nesse meio tempo tu vai ter comprado, por exemplo, cinco novos livros e muitas bergamotas (uma que outra tu deu pra ele) — e choveu na maioria dos dias desse período. Numa tarde, ela, aquela que tu mais conversa, vai chegar te mostrando um filhotinho de cachorro e dizendo que trocou o bicho por um cigarro, e que o nome da cachorrinha é Mel, e tu vai lembrar que esse era o nome do gato persa que uma vizinha tua tinha lá no Santo Antônio, na tua infância e adolescência. E tu vai fazer carinho no cachorro e dizer “ah, que bonitinha”, e não vai nem cogitar que talvez devesse lavar as mãos depois de fazer isso. Tá chovendo, o filhote tá molhado, e com o famoso “cheiro de cachorro molhado”, mas isso pouco importa, não incomoda, é normal, não é como o cheiro de mendigo molhado, ou de mendigo seco, como o cheiro de morador de rua, o cheiro proveniente da absorção de todos os pecados dos transeuntes nos caminhos entre suas casas e seus trabalhos, seus locais de estudo, suas cafeterias. Pega teu guarda-chuva e, por favor, vai até o imigrante mais próximo e compra um guarda-chuva novo, esse teu tá caindo aos pedaços, e não esquece de meter a touca e a porra do cachecol, tu não quer gastar mais trezentos reais em remédio.
Tá chovendo pra todo mundo, e tá chovendo bastante. Acho que a cada quatro dias de chuva vem um dia muito estranho, de sol, de luz, de uma felicidade esquisita, que parece meio doente. “Eu tava ficando bom em ser feliz com clima ruim, por que aconteceu isso?”, pensam os portoalegrenses que eu inventei, enquanto trabalham nos caixas dos mercados, entregam cappuccinos nas mesas, fazem a mediação da mesa na Pucrs, fazem palestras bêbadas no Rossi, seguram plaquinhas onde tá escrito “tô com fome 1,00 por favor”, se enclausuram em casa fazendo sua arte, provam um novo hamburguer vegano que abriu ali na cb, guardam carro na José Bonifácio; todo mundo meio confuso, uns porque acham que podem morrer a qualquer momento, outros porque têm certeza disso, mas todos se imputando a obrigação de pelo menos tentar encontrar alguma maneira de ser feliz debaixo de chuva e vento e frio, e de repente a sensação de ter conseguido atingir esse objetivo é diminuída por causa do maldito dia lindo que surgiu.
Às vezes acontece outra coisa interessante, e o dia é inteiro cinza e úmido e propício pra surgir a ideia constante de estar em um aquário, afogado, aprisionado, roupa e mais roupa, e guarda-chuva, ônibus cheio, janela fechada, todo mundo dentro de si, mas no fim do dia, de um jeito que parece ser quase apenas “provocador”, aparece um sol já sumindo, dando um vermelho, um laranja, pro céu pesado, pro clima pesado nessa cidade pesada. Sempre imagino pessoas vendo isso, olhando pra essa paisagem, molhadas, na rua, se descobrindo dos seus guarda-chuvas, deixando cair a água no rosto e dizendo “é o fim do mundo, gente, vai acabar”, com um sorriso iluminado e os olhos brilhando. Esses dias tirei uma foto.
