O famigerado do Juca
Se há alguém que sabe viver bem, esse alguém é o famigerado do Juca. É mestre na arte do amor, mas não é um conquistador — toda essa maestria ele exerce com sua mulher, a Maria. A oratória é outra de suas artes, ele a domina como ninguém, não há quem não fique encantado ouvindo o Juca falar, nem que seja por uns cinco minutos. Vinhos, cinema, livros, música, teatro, viagens e toda a sorte de prazeres são explorados por ele à exaustão.
A Maria jamais poderia imaginar que um dia se casaria com um homem como o famigerado do Juca. Tinha certeza de que suas colegas de trabalho e até mesmo algumas amigas a invejavam, embora isso jamais tivesse ficado explícito. Não havia uma festa em sua casa que não fosse memorável — até mesmo um jantarzinho para poucos amigos acabava virando um acontecimento.
A infância e a adolescência do Juca são um capítulo à parte. Passar de ano na escola era sempre uma batalha, a qual incluía castigos, notas baixíssimas, reuniões e mais reuniões entre pais, professores, e diretores etc. Com os colegas também não era diferente, pois o Juca nunca conseguiu formar uma turma de amigos.
Toda a vizinhança do bairro pobre onde morava olhava torto para o Juca, por conta de tudo o que ele aprontava: gatos misteriosamente desaparecidos, cachorros que de repente tinham uma das patas quebradas, vidraças estilhaçadas, roupas que sumiam dos varais, filhos que apareciam em casa com o olho roxo, filhas chorando por causa do menino que quis “brincar com sua pombinha” etc.
Aos 17 anos, o Juca conseguiu seu primeiro emprego: foi ser ajudante de padeiro na padaria mais sofisticada da cidade. Ao contrário do que acontecia na escola, aprendeu tudo muito rápido e, em cerca de dois anos, tornou-se o padeiro principal do estabelecimento — a clientela, que já era grande, aumentou consideravelmente, por conta da melhoria da qualidade dos pães — e foi adquirindo cada vez mais prestígio entre seus patrões, até que estes descobrissem que o Juca vendia, dos fundos da padaria, em horários preestabelecidos, pãezinhos a um quarto do preço àqueles menos abastados, como vizinhos (com os quais o Juca conseguiu estabelecer paz, ao participar ativamente dos preparativos da quermesse do ano anterior), amigos (os quais ele finalmente conseguiu conquistar durante o segundo grau) e parentes (que já não o viam mais como um estorvo para a família). Quanto à demissão, tudo ficara acertado com a mulher do dono, com quem ele havia vivenciado alguns momentos bastante prazerosos: sem justa causa e a concorrência não saberia de nada.
De corpo bem formado e contando com a generosidade de Deus quanto às partes íntimas, o Juca passou, secretamente, a ganhar dinheiro à noite, fazendo companhia a senhoras e, por vezes, a senhores (para a família, o Juca trabalhava como mensageiro em um hotel). Eis que, em mais uma noite de trabalho, o famigerado do Juca entrou no carro de uma senhora do alto dos seus quarenta e poucos anos, chegada há pouco tempo na cidade (dizia-se por aí que ela havia mandado matar o marido), a qual passou a requisitar seus serviços todas as noites, até obter exclusividade. O Juca tirava proveito da extrema submissão e devoção da mulher: conseguiu arrancar-lhe tudo o que fora possível (inclusive toda a faculdade de Administração paga), mas sempre compensando-a com noites maravilhosas. Ao fim de uns três anos o Juca já havia juntado dinheiro suficiente para abrir seu próprio negócio (ele trabalhava também, a fim de manter as aparências, no escritório que administrava as quatro boutiques que a mulher possuía na cidade), por isso não se importou quando a mulher cansou-se dele e dispensou seus serviços.
Alguns meses depois, já de posse de seu diploma, o Juca abriu sua própria padaria.Em pouco tempo, ela ficou quase tão famosa quanto aquela em que ele havia trabalhado no passado. Nas horas vagas, lia muito e viajava sempre que possível, até que em uma dessas viagens conheceu a Maria, a recepcionista de um hotel em Maceió. Foi amor à primeira vista… Não deu outra: na volta, a Maria embarcava junto com o Juca. Para o casamento, foram necessários apenas os seis meses de preparativos.
Com dois anos de casamento, o Juca e a Maria já tinham uma filhinha, a qual, anos depois, por causa de sua falta de beleza e carisma, nunca foi das mais populares.
Foi numa dessas festas que ocorreu um grande assalto: os anfitriões e absolutamente todos os convidados perderam joias, relógios, smartphones, e até mesmo um carro (dos mais caros) foi roubado. Essa foi, sem dúvida, a festa mais famosa que o Juca ofereceu.
Alguns dias depois, em um lugar estranho, o Juca se encontrava com um rapaz mais estranho ainda. Quem por ali passasse via o Juca recebendo uma maleta. Saiu dali e foi direto para o banco. O famigerado do Juca apenas não contava com a desconfiança do seu gerente, que estranhava depósitos tão altos e frequentes vindos de um dono de uma rede de três ou quatro padarias.
O Juca, já na prisão, nunca soube explicar por que, sendo tão bem-sucedido e relacionado, começou a aplicar golpes (todos muito bem articulados, diga-se de passagem), que culminaram com um assalto forjado em sua própria casa, mas, em seu íntimo, sabia muito bem do que se tratava: aquela era sua essência, sua natureza.
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