Sibele — Parte III
Cinco anos após abandonar a prostituição, apaixonar-se por um cliente, casar-se com ele e abrir sua própria casa de prostituição — um luxuoso bar situado na região mais nobre da cidade –, Sibele resolveu tentar exercer a advocacia. Quando estava prestes a desistir — afinal, ninguém a procurava –, ela resolveu explorar um nicho que ela conhecia muito bem: em pouco tempo ela estava defendendo garotos e garotas de programa (incluindo travestis) acusados de crimes e, também, lutando por aqueles que sofriam preconceito e humilhações por conta de seu ofício. Dificilmente Sibele perdia uma causa (cabe dizer que, apesar de trabalhar com uma classe criminalizada, ela era honestíssima e jamais utilizou-se de manobras e meios escusos), e o sucesso da empreitada foi tão grande que ela se desfez do bar e passou a dedicar-se apenas ao Direito.
Alguns anos depois, Sibele resolveu ousar ainda mais: procurou seus contatos e lançou sua candidatura a deputada estadual. O slogan da campanha era: “Pela legalização e formalização da michetagem”. Desnecessário dizer que ela foi eleita com grande folga, o que gerou o descontentamento de muitos — na internet, ela era chamada de “dePUTAda”, e era viam-se coisas como “ela vai tirar de letra, pois já está acostumada à vida fácil”, “agora, em vez de trabalhar só à noite, será só uma vez por mês”, “aposto que ela vai tentar criar o Vale-Quenga e torná-lo um benefício obrigatório nas empresas”, e muito mais.
Acontece que, alheia a toda a rejeição e a todos os ataques, Sibele trabalhou com afinco e sua atuação como deputada foi brilhante. Aos poucos, além de proteger os praticantes do meretrício, ela passou a atingir outras classes menos favorecidas. Em breve ela ia ganhando mais espaço e mais respeito por parte da população em geral.
Já próximo ao final do mandato, Sibele começou a planejar sua candidatura a deputada federal. Mais uma vez desnecessário dizer que a campanha foi um sucesso… Cada vez mais querida e respeitada, quatro anos depois Sibele assumia sua cadeira no Senado.
Amada pelo povo, que via nela o renascimento de uma esperança há muito deixada de lado, Sibele, tomada pela emoção, quase não consegue falar e só percebe que cortou o dedo com o papel quando seu assessor a avisa.
Poucos minutos de interrupção, um pequeno curativo e pronto. Lá está ela sendo ovacionada pelos milhares de pessoas que assistiam ao seu discurso, confiantes, esperançosas e emocionadas. Ela, então, diz:
— Durante minha campanha, eu disse que governaria bem este país, nem que para isso fosse preciso derramar meu próprio sangue. Pois aí está: deixo com vocês a primeira gota.
FIM