O maravilhoso mundo do exagero (pt.1)

O problema vinha da infância.

Na escola, em casa, no futebol, com os avós, na aula de natação, jantando com os pais dos amiguinhos, na feira. Geraldo simplesmente não conseguia evitar. Desde que começou a falar, o pequeno tinha um vício: o exagero.

De um simples “Como você está, Geraldo?”, o menino tinha um exagero na ponta da língua.

- Sabe tia, eu estava no jardim, e umas dez formigas me picaram — Mostrava as picadas invisíveis no braço.

A mãe tinha que correr para desmentir a história.

- Uma formiga subiu no braço dele.

Leve exagero. Podia nem ser formiga, mas ficava a dúvida na cabeça do ouvinte “Será?”.

A verdade é que Dona Odete, mãe solteira, passava vergonha com o filho. As vezes pelo desrespeito do garoto, em inventar exageros para pessoas, que podiam ficar ofendidas. As vezes porque alguns acreditavam nele, e achavam mesmo que o menino levava mesmo uma vida sofrida e perigosa.

Aos oito anos Odete levou o filho problema na psicóloga.

- É normal nesta fase, a criança é muito criativa — tranquiliza a doutora Ana Fungatelli. Referência na cidade em psicologia infantil e doenças do sono, para Ana se o paciente está com o sono em dia já é um sinal de saúde.

- Geraldo, você dormiu bem essa noite? — perguntou a doutora.

E o menino respondeu sem pensar.

- Minha mãe não me deixou.

A doutora estranha, mas a mãe já está pronta.

- Acordei ele mais cedo hoje, justamente para vir na consulta.

Ana conclui que o garoto sofre da Síndrome de Walter Fisherman, ou “doença do pescador”. — “Inventa exageros, mas não é nada grave. Com o tempo passa.”

Mas não passou. A mãe tentou de tudo. Fez promessa, mostrava o chinelo, beliscões por baixo da mesa. Mas o que Geraldo pudesse ver como uma ameaça, era transformado em um drama sem fim. O beliscão da mãe virava uma tentativa de homicídio. Ficar de castigo era cárcere privado. Falta de sobremesa era tortura e inanição. Teve vizinha que pensou em chamar a polícia, mas a mãe desmentiu a tempo.

Se os mais velhos ficavam chocados, na escola Geraldo era tido como herói por suas histórias de bravura e sobrevivência. A molecada podia nem saber a taboada do sete, mas sabia de cor a história do dia em que Geraldo caiu do prédio, o dia em que Geraldo levou uma picada de cobra no olho e sobre o irmão gêmeo do Geraldo, que a mãe trancava no porão. Dos dez aos quinze Geraldo era o garoto mais popular do bairro. Mas era recatado e não tinha muitos amigos próximos. Ninguém para confirmar ou desmentir seus exageros e era bom assim.

Mas aos quinze Geraldo arrumou sua primeira namoradinha, Lidiane. A jovem era uma das fãs do super-garoto que já tinha passado por tudo nesta vida, cujo histórico de experiências amorosas exageradas também era de dar inveja a qualquer moleque. Geraldo dizia já ter namorado cinco vezes, mas sempre com garotas de outras cidades. Lidiane foi a primeira verdadeira. E também o começo de sua decadência de exageros.

Geraldo estava realmente apaixonado. Com sua habilidade de aumentar a realidade, produzia ótimos textos românticos para a amada. Ele nem lembrava mais que caiu do prédio, ou levou uma picada de cobra no olho. Nem que tinha um irmão gêmeo, que a mãe trancava no porão. Mas essas histórias todos sabiam. Inclusive Lidiane. E quando a garota passou a frequentar a casa do namoradinho, só conseguia pensar no irmão gêmeo preso. Morria de medo da sogra e evitava ficar a sós com ela. Odete percebeu a tensão na norinha e desconfiou. Tudo que girava em torno do mundo do filho sempre foi suspeito. Na primeira oportunidade que encontrou a garota na rua foi afetuosa e direta. Demorou um pouco, mas a Lidiane contou a história. “Vamos procurar o irmão gêmeo do Geraldo?”, a sogra propôs.

Não acharam.

- Ele criou essa história no dia em que eu o deixei de castigo por duas horas — explicou Odete.

- E a queda do prédio? — perguntou Lidiane.

- Foi da janela.

- E a picada de cobra no olho?

- Foi um galho. Na testa.

Acabou o mito. Acabou o namoro. As máscaras caem. Na escola Geraldo ganhou o apelido de “Exageraldo”. Nada mais colava. Seis meses de bullying pesado. “Essa é do Geraldo” virou sinônimo de mentira. Passou a odiar a mãe que destruiu seu reinado. Mas teve que agradecer quando ela foi transferida para outra cidade. Vida nova. Desta vez seria mais cuidadoso.