A história se repete como farsa no cartão postal de Porto Alegre

CASA DE CORREÇÃO DE PORTO ALEGRE — PONTA DA CADEIA 1952–1962

OBRAS DE REVITALIZAÇÃO DA ORLA — GASÔMETRO 2015 — ?

Pouca gente sabe, mas antes de virar um ponto de encontro da população com o Rio e seu mítico pôr-do-sol, o espaço vizinho ao Gasômetro em Porto Alegre-RS, era ocupado por um presídio, a Casa de Correção, mais conhecido como Cadeião.

Um conjunto de prédios ainda maior que o gasômetro, tão importante que batizava essa área, chamada de Ponta da Cadeia, até sua demolição, em 1962, durante o governo de Leonel Brizola. Motivo? O histórico centenário de maus tratos. “masmorras medievais”. E seu dano também era urbanístico, o prefeito José Loureiro da Silva, em 1962, dizia “precisamos desalgemar o Guaíba”.

Outros tempos, outros prefeitos.

Sabe aquela frase: “a história se repete, primeiro como tragédia e depois como farsa?” Pois, é, foi de Marx , falando sobre o primeiro Napoleão(tragédia) e o segundo Napoleão(farsa). A frase de Marx é precisa nesse caso, e não deveria ser um problema citá-lo, se até aceitar ou não as intervenções urbanísticas na cidade não fosse considerado um embate entre “esquerda” e “direita”.

Mas imaginemos uma situação em que isso não fosse levado em conta. Vamos tentar aplicar o raciocínio dessa frase ao nosso contexto.

Vamos considerar primeiro a tragédia. Inaugurado em 1852, a Casa de Correção era um depósito de seres humanos, a maioria transgressores das leis, mas todos tratados como pária da sociedade, excluídos do convívio e da visão. Para isso o isolamento da Península era ideal. Fim de caminho, para onde nåo havia nada além do rio, se lembrarmos, não havia o aterro, e a cidade acabava ali mesmo. Com o tempo se viu que não apenas os presos eram apagados, mas também o próprio centro da cidade padecia desse martírio, através da negação da existência de tamanha monstruosidade em uma área tão grande e próxima aos “bons cidadãos”.

Hoje assistimos os primeiros passos da obra de revitalização da Orla do guaíba. E a história se repete, repleta de farsas. Projeto criado por Jaime Lerner, sem concurso público, justificado pelo seu “Notório Saber”. Uma justificativa contemporânea da época em que se construí o cadeião. Naquele tempo, não haviam muitos cursos de arquitetura, e muitas vezes o pré-requisito era a constatação de que, se as obras de alguém paravam em pé, ele sabia fazer.

Bem, o notório saber de Jaime Lerner no caso, vem do currículo de suas idéias para Curitiba. Mas muito do que se atribui a ele, foram obras de outros arquitetos, sendo ele mais um mentor intelectual. Mesmo que seja arquiteto de fato, seu notório saber seria mais como Prefeito, ou Governador. Não está claro se foi chamado para emprestar saber executivo também, mas se sabe que seu nome aparece em um projeto “vizinho”.

Fato “notório” é a participação do escritório de Jaime Lerner na elaboração do projeto de revitalização do Cais do Porto. Ele dá a grife necessária à criação de Shopping e Torres em área histórica e alagadiça, apesar de trazer poucas ideias originais e claras, além de uma cascata dàgua para embelezar o imexível muro da Mauá. Discutível estéticamente, é indiscutivelmente reprovável em tempos de consciência no uso da água, e serve como sinistra lembrança de que um dia, mantido o muro como está, pode verter água e realmente inundar o centro.
O projeto do Cais é privado, chamam quem quiser, você pode questionar essa regra, mas não pode questionar a escolha pelo Jaime. Mas na revitalização da Orla pode ser questionado. Ou poderia. Não fosse o “notório saber”.

Apresentado em audiência Pública na câmara dos vereadores, em 2013, o projeto de revitalização da orla foi alvo de muitas críticas e sugestões de diversas instituições, como IAB RS e AGAPAN. Nada foi considerado, servindo a audiência apenas para cumprir um rito do processo de intervenção na Orla.
Mas quem pediu essa intervenção?
Pois é: ninguém. Foi uma decisão do executivo.
Hoje assistimos impotentes o levantar de uma muralha de tapumes que vai isolar a área total da obra, até o seu fim, PREVISTO em 18 meses. Durante esse tempo a população NÃO PODERÁ ver a derrubada de árvores, a remoção de terra e a construção de novas estruturas que no último mês teriam ficado embaixo d’água. Espera-se que seja impermeáveis.

Montagem de Henrique Wittler

Espera-se que organize mais o espaço. Espera-se que traga mais turismo ao lugar. Espera-se que termine no prazo. Espera-se que fique no custo de 62 MILHÕES, financiados pelo Banco Andino de Desenvolvimento, e pago em parcelas pela prefeitura. Talvez pouco para bares, quadras, marina, banheiros, árvores decorativas, postes de led, calçada luminescente…Talvez muito mais do que precisávamos…

Mas lembra da Farsa? Então, temos novamente um muro de proteção, não mais isolando os presos da sociedade, mas agora isolando a sociedade das obras. Da mesma forma a sociedade acredita que saia uma coisa melhor daí. Da mesma forma a sociedade esperava ficar livre dos bandidos, dando o nome de Casa de Correção. Nada se corrigia. Eram vidas apagadas, com julgamentos precários e sentenças autoritárias.
Como precário foi o processo de elaboração-licitação-execução do projeto de revitalização da Orla, como se já não houvesse vida, e que caiu como uma sentença que agora assistimos ser executada.

Vamos esperar coisas boas disso?