Crônicas da Morte — É Hora

A Morte sentou na cama, afundando o colchão. Deitado de costas, não vi nada, apenas ouvi uma respiração profunda — daquelas de quem desaprova, de quem tenta entender o que vê.

A Morte nunca foi muito compreensiva. Aparece, leva o que deseja e deixa um gosto amargo no lugar. Mesmo assim, arranhou as minhas costas, sabendo que isso me deixaria um pouco melhor.

- Rafa, você precisa levantar.

Fiz de conta que não ouvi.

- Rafa, já é hora.

Ainda fingiindo, mas ela conseguiu minha atenção.

- Hora de que?
 — Levantar, meu bonito. Levantar.
 — Pra onde?
 — Viver, sabe? Enquanto você deita, há vida lá fora.

Silêncio.

- E passa rápido, Rafa. Eu sei melhor do que ninguém.

Um pouco mais de silêncio.

- Pense nas experiências, nas oportunidades, no sol brilhando. Levanta!

Ainda e apenas silêncio. Mas consegui olhar pra ela. A Morte olhou nos meus olhos. E perguntou:

- Você não consegue?
 — Mô, viver é difícil.
 — Mas você não tem medo?
 — Medo de que?

Ela parou de arranhar minhas costas. Segurou meu rosto, encostou os lábios na minha orelha e sussurrou:

- De nem ter tentado.

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