Crônicas da Morte — A Visita

Verdade seja dita, a morte não espera ninguém. Chegou e estava tudo uma bagunça, com louça suja na pia, cama desarrumada e roupa pelo chão. Mas não me julgou.

Como se fosse tudo tão natural, tirou revistas da poltrona e sentou. Cruzou as pernas. Acendeu um cigarro. Já ia avisar pra não fumar dentro de casa, mas com a morte não se discute.

A conversa começou como sempre, comigo reclamando, é claro:

- Porra, Mô, liga antes. Quase tenho um treco.
- Ja falei que você não morre do coração, Rafael…
- Sei, sei, vida longa e próspera, aquele negócio todo.
- Cacete, ein, Rafael, só reclama, puta merda. Acabei de visitar um senhor que dava um braço por “esse negocio todo”. Ingrato pra caralho, né?
- Mas que merda, Mô, aparece sem avisar do nada e quer bom humor?
- Eu só queria conversar, mas você nunca escuta…
- Trabalhou demais, né?
- Ai, nem fala, atravessei a cidade, comi só um salgado o dia todo. E a dor de cabeça? Quase que me levo.
- Tá bom, tá bom, te dou um colo!

A Morte é a única certeza, mas certeza também tenho que ninguém resiste a um afago no pescoço. Cinco minutos e ela já levanta e alisa o vestido, dizendo:

- Deu, vou antes que eu durma…
- Eita, mas e eu?

Ela se abaixa, bota cabelo atrás da orelha, me dá um beijo na boca e acende um cigarro.

- Pra que se você já morreu por dentro?

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