Crônicas da Morte — Corpo Gelado

Acordei com o corpo todo gelado, a Morte fazendo carinho nas minhas costas. Os dedos frios subiam pela coluna e faziam carinho na minha nuca, interrompendo todo e qualquer pensamento. Se você nunca acordou gelado com a Morte ao lado, não sabe o que é sentir medo de um futuro incerto. Até que o desespero me fez gritar:

— Mô, que horas são? Tô atrasado pra caralho!
 — Calma, Rafa, são nove da manhã ainda…

Olhei para ela, sem acreditar em tanta tranquilidade.

— Porra, nove da manhã? Desculpa, Mô, tenho que ir, já são nove!
 — E o que é que tem?
 — Como o que é que tem? Eu tinha que tá trabalhando.

Ela me olhou com aquele olhar meio baixo de reprovação, os cabelos escuros descendo pelo rosto.

— Mas é que você fica tão bonitinho dormindo. Olho fechado, respiração leve, até parece que foi…

Eu já colocava a calça, pulando num pé só, pensando em onde joguei o cinto. Mas um suspiro me fez perceber o problema — afinal, é como dizem, antes da Morte, sempre tem aquele suspiro.

— Você nunca faria isso comigo, né, Rafa?
 — Fazer o que, Mô? — Já estava passando a cabeça pela camiseta.
 — Ir com outra, ué!

Olhei pra ela achando estranho. A Morte é muito segura, simplesmente porque todo mundo é dela e ela é de todos.

- Mô, no final, somos só eu e você, lembra?

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