Crônicas da Morte — O Roteiro

Não lembro bem como começou, mas eu estava de pé, olhando pra janela e com o pensamento longe. A Morte chegou sorrateira, por trás, me abraçando de uma maneira que eu sempre gostei. Como quem coloca a mão por cima do nosso coração, sabe? A cabeça dela encostou no meio das minhas costas e ela logo reparou que não retribuí.

A Morte sabe das coisas. Não se esconde nada, não se leva nada. Da Morte também não se abusa. Por isso mesmo, tirou os braços de mim, sentou na minha cama bagunçada, ainda com a roupa da rua. Tirou os sapatos. Cobriu os pés e esperou com paciência até que eu virasse de frente pra ela.

- O que você tem, Rafa?
- Só pensando na vida — respondi, depois de pensar um pouco.

A Morte me observou com ar de entendida. Na verdade, ela sempre encara dessa maneira, mas teve também um jeito de franzir a testa como quem diz “lá vem merda”.

- E o que Senhor Entendido tem pra falar da vida?

Respirei. Paciência com a Morte é fundamental.

- Que ela é uma brincadeira sem graça. O roteirista disso aqui precisa de Prozac ou de menos álcool.
- E você tá falando do quê, exatamente?
- Exatamente? De nada e de tudo. A vida é uma legião de desencontro, sabe como?
- Hmm…
- A gente passa pra depois voltar, termina pra depois começar, encontra pra depois perder, consegue pra depois abandonar. Que caralhos é esse?
- Rafa…
- Porra, Mô, as pessoas nem usam o tempo verbal certo nas conversas.

Ela levantou um pouco mais preocupada. Pegou a minha mão, me puxou pra cama. Deitei, nem tinha percebido o cansaço, mas ele se fez presente enquanto eu deitava no colo dela.

- Poxa, Mô, o que eu tô fazendo aqui?
- Por que da pressa em saber, meu apressado?
- Só pra entender o que tá acontecendo. Tá difícil.

Depois de dois minutos em silêncio, a Morte levantou e me olhou com cara de malícia, deixando o vestido preto de sempre cair no chão. Segurando meu rosto pra gente se olhar no olho, me ensinou:

- Meu menino, seu erro é acreditar num roteiro.