Crônicas da Morte — Pergunta Certa
A Morte é calma. Como num fechar de olhos, ela é capaz de abrandar o mais profundo medo. Ou pelo menos é isso o que dizem, né? Mais fácil do que dormir, mais rápido do que piscar.
Se você já tivesse visto aquele olhar tranquilo, de quem sabe segredos e não conta pra ninguém, entenderia o que eu digo. Com a mão em meus cabelos e a voz de quem entende, ela me aconselhava.
- Mô, eu tô ansioso.
- Por quê?
- Quando é que você me leva?
- Já falei que demora.
- Mas, quando levar, o que tem depois?
Ela sorriu como alguém que precisa explicar algo complicado pra uma criança curiosa demais.
- Esse é o tipo de coisa que você descobre sozinho.
- Mas você não pode contar?
- E você aprenderia como?
- Aprender o que?
Me tirou do colo dela, me deu um tapa na testa com gentileza e acendeu um cigarro. Fazia tempo que não fumava na minha frente — só porque sou asmático.
- Cacete! Tanto tempo vindo te ver e finalmente a pergunta certa. Achei que essa hora nunca ia chegar.
- Porra, que grosseria…
- Porra, que lerdo! Agora, responde você. Aprender o que?
- Mô, não sei. Pra que tanto mistério?
Ela levantou pra fumar na janela. Me olhou séria antes de continuar.
- Você pergunta na ordem errada.
- E qual a ordem certa?
- A ordem de tudo, oras. Começo, meio e fim.
Continuei não entendendo. E ela percebeu. Não se esconde muita coisa da Morte.
- A pergunta certa é: o que vem antes?
- Antes do que?
- Caralho, Rafael. Antes de mim. Antes do fim.
- E o que vem?
Dessa vez, ela me olhou com pena. Apagou o cigarro. Me beijou na testa enquanto pegava a bolsa pra sair.
- Você esquece da vida, Rafa. A vida.