foto: rafael gratieri

a efemeridade da vida, ou: é a ambulância, besta

av. paulista, 14h49.

uma intervenção urbana irrompe na mais paulista das avenidas. alguns artistas tomam a rua, entre eles atores, músicos e um morador de rua já meio bêbado, este acidentalmente parte do número. e aí os motoristas observam com um misto de curiosidade e impaciência, olhos idênticos de quem procura pela criança birrenta no cinema. afinal, dizem, nada contra intervenções, tenho até amigos que fazem, mas não façam enquanto o sinal estiver verde. a mise-en-scène se pauta no próprio caos paulistano; uma atriz toma sorvete ao mesmo tempo em que o parceiro de cena está de terno e gravata. é mais ou menos o tipo de contradição que encontrada facilmente no dia-a-dia, no sujeito que reclama da ciclofaixa, aquela mancha insípida num canto da rua, mas que não reclama do aroma do rio Pinheiros. alguém passa, olha para aquelas peripécias e sussurra: “que gente louca”, e volta imediatamente a falar sozinho com o snapchat.

e no meio desse furdunço, dessa amostra grátis do que é a vida — caleidoscópica, às vezes feliz ou triste igual a certas velharias: às vezes feliz como a velha que recebe um aviãozinho de cem reais do silvio santos, às vezes triste como uma batata velha do mcdonald’s — a intervenção é obrigada a dar passagem para uma ambulância. e ser um veículo emergencial no meio do trânsito de são paulo não é fácil, é como ser um anão num show de rock. vejo aquilo e a mim é impossível não lembrar de chaves e kiko brincando. chaves vira de costas, e kiko grita um sonoro “aaaaaah!”, para verdadeiro pânico e horror do menino do oito, que se vira e pergunta: “que foi?”, e o garoto de roupinha de marinheiro responde “é a ambulância, besta!”. a analogia é óbvia, a comparação é inevitável, mas assim é a vida: uma intervenção urbana atravessada por uma ambulância, a dicotomia entre a alegria da arte e a tristeza da morte e vice-versa (ou, simplificando, é como aquela cesta de frutas lindíssimas feitas de cera que uma tia ou uma vó compra em loja de R$1,99 e você só percebe que aquilo é um enfeite quando morde uma maçã com gosto de vela). é o chaves levando um susto com tudo aquilo, e quando alguém perguntar: “qual o sentido da vida?”, só dá pra responder: “é a ambulância, besta”.