
A promessa de Adão, parte III
Contatos imediatos de Natal
Acordei quando já era próximo do meio-dia e, antes que eu pudesse me sentir mal por ser um vagabundo desempregado que acorda no horário de almoço, lembrei-me que era Natal. A coisa estava tão feia ao ponto de eu chegar a assistir Sessão da Tarde. Ninguém assiste isso além de crianças e desempregados. Pedir esmola na rua talvez seja menos humilhante para o homem sem emprego do que assistir à Sessão da Tarde. Televisão e desemprego é um caminho triste, sem volta; você começa assistindo aos filmes que passam à tarde e, quando percebe, já está viciado em Malhação.
A casa estava em silêncio. Até porque casa não tem boca. E, se tivesse, diria: “vamos parar com esse entra-e-sai?”. O local onde eu morava era o ponto de encontro oficial da família. Com toda essa movimentação eu me sentia morando praticamente num cenário da Grande Família. Eu achava o conceito de privacidade tão abstrato que quando eu entrei no Facebook pensei: “ufa, até que enfim um lugarzinho onde ninguém vai ficar sabendo de mim”.
Lembrei-me de estar sozinho na manhã do dia 24 de dezembro. Papai e mamãe foram visitar tia Almira. Tão velhinha que acharam por bem visita-la o quanto antes — a família, não muito politicamente correta, fez um bolão apostando quando aquela senhorinha deixaria esse mundo. Papai e mamãe apostaram que seria antes do Ano Novo e quiseram certificar se haviam investido bem o dinheiro. Não se preocupem: tia Almira não era lá muito amada. Diziam até que era nazista.
Num sobressalto, também lembrei da visita do Papai Noel. Eu mal tinha acordado e cogitei a possibilidade de que, talvez, tudo tenha sido apenas um sonho. Fazendo esforço semelhante a Hércules cumprindo seus trabalhos, consegui levantar da cama. Afinal, qual a razão de levantar da cama no dia 24 antes da ceia? É o tipo de pergunta que nunca teremos resposta, junto com “de onde viemos?” e “por que o Faustão não cala a boca?”.
Ainda sentado na minha própria cama, meus pensamentos me perseguiam. Má notícia, considerando que eu sou um péssimo corredor. Mas e se eu realmente tivesse sido visitado pelo Papai Noel? O que eu poderia consertar em mim? Que tipo de recompensa ele poderia me dar? Eu não sabia o que eu poderia melhorar. Afinal, como diria Clarice Lispector: “até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro”. E isso levantava dois curiosos pensamentos, o primeiro sendo “que bobagem, essa é uma desculpa para não enfrentar os próprios demônios” e se “Clarice Lispector realmente teria dito isso”.
Quando eu cogitava beliscar meu próprio braço para tentar me distinguir entre sonho e realidade, olhei para a parede do quarto e notei um novo relógio pendurado. Era verdade, então. Ou era isso ou mamãe havia finalmente encontrado outra forma de me dar indiretas sobre a minha falta de emprego. Não sabia bem qual dos dois, então observei mais atentamente e, logo acima do relógio, um letreiro neon vermelho-verde-piscante gritava: “Sim, fui eu, seu idiota. Ass: Papai Noel”. Bom, com isso não me restaram muitas dúvidas.
Levantei da cama ainda sem saber exatamente o que eu deveria fazer. Liguei para uma amiga, certamente ela saberia me ajudar. Fiz a ligação a cobrar, obviamente. Eu estava desempregado e contava com o espírito natalino dela em receber minha ligação. Cheguei bem perto, mas muito perto mesmo, de receber um milagre de Natal. Ela atendeu a ligação, mas me chamou de pobre. Não se fazem milagres com xingamentos. Após uma breve conversa, em pouco tempo ela estava na porta de casa — o que eu achei bem estranho, considerando que antes da porta havia um portão. Em todo caso, logo ela estava sentada comigo na cozinha, ambos bebendo sidra e ainda não era uma da tarde. Àquela altura, o fermentado de maçã pra mim não era nada além de um vinagre com álcool, o que transformaria minha taça num excelente tempero para salada do meu tio alcoólatra.
- Tenho uma pergunta séria para te fazer. — Falei, com ar sério e sobrancelhas franzidas de quem ou está realmente falando muito sério ou acabou de sentir um cheiro desagradável. Paula apenas balançou a cabeça afirmativamente, e, em silêncio, pediu para que eu desse continuidade nas minhas palavras. — Existe Natal na Ilha de Páscoa?
- Você me tirou de casa pra isso? — Paula não parecia muito interessada. Jogou os cabelos pretos para trás enquanto se recostava na cadeira.
- Nada disso. Você veio porque quis. E porque está sozinha em casa numa depressiva véspera de Natal.
- É difícil ser solitária.
- Disse a tênia.
- Quê?
- Piada de biologia. Deixa pra lá. — Paula apenas me lançou um olhar de estranheza enquanto aproveitava mais um gole de sidra. — Escuta, eu tenho que ser uma boa pessoa até a meia-noite. Como eu faço isso?
- Como assim? É promessa? — Paula serviu-se, então, de uma discreta fatia de panetone.
- E eu lá acredito em promessa?
- Não sei. Deixa eu ver. — E reclinou-se a fim de chegar bem perto da minha cara. — Claro que você não acredita em qualquer promessa. Na sua testa não está escrito “povo brasileiro”. Então, qual é o lance?
- Bom, é que ontem… eu fui tomado pelo espírito natalino.
- Por isso não sou muito fã de Natal. — E, quando olhei com dúvidas, ela já engatilhou: — Morro de medo de espírito.
Expliquei toda a situação surreal ocorrida no dia anterior para uma cética Paula. Com razão, ela perguntou se eu havia misturado sidra com panetone. Ela, claro, fingiu acreditar.
- É sério, Paula, eu preciso de ajuda. Eu não sei como ser uma pessoa melhor. — Sim, naquele ponto, eu estava aflito. Depois de ter visto o neon escrito “idiota”, eu sabia que Papai Noel não estava para brincadeiras. Sabe lá que tipo de surpresas podem vir de um velho que já está literalmente de saco cheio. — Eu tenho que ajudar pessoas idosas a atravessar a rua? Dar esmola?
- Bom, Adão… — Então Paula vestiu um chapeuzinho de Papai Noel que estava jogado em cima da mesa. Talvez o espírito natalino se escondesse ali, tal qual o chapéu mágico do Harry Potter. — Você para ser uma pessoa melhor deve entender seus próprios medos, defeitos. Suas dificuldades. De nada adianta ajudar uma senhora se não é isso que está problemático dentro do seu coração.
- Eu tenho que consertar o que eu tenho de problemático dentro do coração?
- Isso.
- Meu deus, eu vou ter que colocar ponte de safena?
- Adão… — O possível espírito natalino encarnado em Paula apenas censurou-me com o olhar. — Faça algo para contribuir com o seu interior. Ser uma pessoa melhor é uma reforma por dentro… — E Paula retirou o chapéu com calma, como se nada tivesse acontecido.
Enquanto isso, um turbilhão de ideias perpassou pela minha cabeça. Como mudar meu interior em poucas horas? Como demonstrar que, sim, eu poderia ser uma pessoa melhor? O que havia de defeitos em mim? Será que estava passando “Esqueceram de Mim” na TV? Meu deus, eram tantas dúvidas! Eu ainda não fazia ideia de como realizar meu milagre de Natal — mas agora eu tinha alguma pista.
- Ui, que sensação esquisita. — Disse Paula, colocando a mão sobre o peito. — Melhor não misturar sidra com panetone!