Foto: Rafael Gratieri. Você já está na parte IV e ainda não sabe o significado dessa foto horrorosa e totalmente fora de contexto? Consulte as partes III, II e I. (Todos os direitos reservados)

A promessa de Adão, parte IV

Corra que o Papai Noel vem aí

Pouco tempo havia passado. A mistura de sidra com panetone não caiu bem para Paula e a obrigou a sair correndo mais depressa que gato debaixo de chuva. Eu, por outro lado, continuei sem saber o que fazer e me coloquei numa postura pensativa, equiparando-me a uma versão viva da estátua de Carlos Drummond de Andrade. No minuto seguinte, uma luz se acendeu sobre a minha cabeça — eureca! –, mas foi quando eu notei que eu havia apenas pisado acidentalmente no interruptor de um abajur.

Aqui, dois adendos: primeiro, eu não sei o que significa adendo. Segundo, até então essa história não faz muito sentido, certo? Certo. Bom, por que Papai Noel, dentre todas as pessoas do mundo, visitou a mim? Por dois motivos: primeiro, assim como o significado de adendo, eu também não sabia. Segundo, se não fosse assim, não teria história.

Ok, ok, você quer saber o motivo real da visita. Eu vou te dar o motivo real. E, para isso, agradeça ao Fernando Henrique Cardoso. Do contrário você se contentaria com um motivo cruzado. Durante um tempinho fiquei imaginando o que motivaria Papai Noel a adentrar à minha casa, minha vida.

Se o exame de consciência realmente fosse um exame, eu com certeza teria reprovado. Meu ano não tinha sido aquelas coisas. Tive muito para fazer, muito para me concentrar, muitas responsabilidades. Meu ano foi bem difícil, mesmo eu tendo adiado meu encontro com todas essas coisas para novembro.

Havia algo, porém, da qual eu me arrependia — além de ter enviado fotos não muito apropriadas pelo celular para um contato errado — e precisava consertar. Do que eu me arrependia? De ter deixado meus amigos para segundo plano, ignorados feito pedido da compra de licença do WinRAR. Então, imaginei eu, esse era o motivo da visita do Papai Noel. Ele queria me ajudar a alcançar minha redenção.

De volta à história. Eu finalmente tinha encontrado o problema, mas ainda precisava de uma solução. Pensei: eu tenho vários amigos, então melhor eu escolher um para que represente todo mundo. Mas, como? Eu pensava em uma maneira de resolver a situação com dificuldade semelhante à de Gregory House tentando entender se a doença de seu paciente era ou não lúpus. A resposta veio à minha cabeça, óbvia feito o Silvio Santos no Roda a Roda perguntando quais letras faltavam na palavra _ A N A N A para compor o nome de uma fruta. Era Natal e eu havia recebido a visita do Papai Noel. Eu poderia dar um presente a um amigo. O tempo era curto, e eu corri buscar um presente antes que ele se tornasse passado.

Saí de casa e pensei: “preciso arranjar alguma coisa na rua. Quem sabe um poste, uma calçada… Não, nada disso, não foi isso que eu quis dizer” e, quando eu me toquei, estava brigando com meu próprio cérebro. Percorri ruas e shoppings como Indiana Jones fugindo da bola de pedra gigante. Já anoitecia quando cheguei em casa de mãos abanando. Abanando porque logo no portão encontrei um vizinho e o cumprimentei com um aceno.

Quando cheguei, minha casa ainda estava vazia. Sim, vazia. Pois é, nós ainda não havíamos tirado a mudança das caixas. A casa era nova e tudo que tinha nela eram algumas caixas espalhadas e uma árvore de Natal com tanto penduricalho que parecia perua em dia de festa. Bom, para ser justo, aquela árvore também estava em dia de festa.

Ah, sim. Minha casa também estava vazia de gente. Tive tempo para sentar-me na minha cama (que só estava lá porque não cabia numa caixa) e voltar às minhas posições de estátua. Agora, eu fazia O Pensador, de Rodin. Eu saí apressado para um presente, mas eu tinha me esquecido de um dos meus grandes defeitos: eu não sabia escolher presentes. Então me frustrei como a criança que se arruma para sair com os primos mais velhos, mas sua mãe não deixa porque ‘ele ainda é muito novo’.

Encontrei um bilhete em cima da mesa da cozinha (novamente, ela só estava de pé porque não tinha como ter sido encaixotada). Papai e mamãe avisando que já tinham ido para casa de vovó e, se eu quisesse, eu podia ir, desde que eu não falasse nada pra tia Almira. Deixei para lá e, desconsolado, abri outra sidra. Liguei para Paula, também solitária e uma das minhas melhores amigas.

- … então foi isso, Paula. — Expliquei para ela toda a situação e como eu finalmente havia encontrado ao mesmo tempo meu problema e minha solução.

- E você não vai fazer nada? Desistiu? — Ela retrucou, preocupada.

- É, ué. Vou fazer o quê? Hehe. — Deixei escapar uma risada de semi-bêbado. Aparentemente, sidra também faz estragos no corpo além de só destruir o paladar.

- Adão, por favor! O Papai Noel falou que iria te punir. Ele viaja a milhões de quilômetros por hora pra dar tempo de entregar todos os presentes, ele tem elfos à disposição, enfim, você tem certeza que quer mexer com esse cara?

Foi quando eu olhei bem no fundo dos olhos de Paula. Sim, ela era uma de minhas melhores amigas e eu mal sabia como tinha sido seu ano. Eu fui um péssimo amigo; fui, não. Eu era. Assim como ter dois olhos era uma condição fixa em mim, ser um mau amigo, também. Eu sequer soube escolher um presente. Que tipo de amigo não sabe escolher um presente? Eu não sabia. Do que ela gostava? Chocolates, livros, uma roupa? Eu nem sabia a cor favorita dela. Se servia de consolo, eu jamais saberia de qualquer forma — ela era daltônica.

O relógio soou meia-noite. Era oficialmente Natal e eu não tinha recebido nem feito nenhum milagre. Minha única escolha era, portanto, encarar Santa Claus. Ele demorou, mas chegou. Entrou pela porta aos tropeços e, num olhar mais atento, vi uma discreta garrafa de sidra saindo do imenso saco vermelho do Papai Noel. Eu imaginava a infelicidade da criança que tivesse pedido um carrinho e, devido a uma criatura mágica já bêbada, encontrou apenas uma garrafa de sidra vazia debaixo da árvore.

- Ho, ho, *hic*, ho! — Papai Noel chegou mais perto. — É, meu filho, deu não.

- É. — Respondi, conformado. — Deu não.

- Serei obrigado a arranjar um jeito de te punir.

- Ah, eu posso ajudar? — Irrompeu Paula, levantando-se da cadeira da cozinha. — Lá em casa eu tenho uns chicotes, umas algemas e…

- Não, não é esse tipo de punição, Paulinha. — Papai Noel abriu um sorrido e passou a mão na cabeça dela. — Sempre ingênua. Lembro aos seis anos quando você pediu pra mim na cartinha um bebedouro no banheiro igual na casa da sua avó.

- Sua avó tinha um bebedouro no banheiro? — Perguntei, curioso.

- Pra você ver a ingenuidade dela! — Riu-se Papai Noel. — Aquilo era um bidê! Agora chega de papo.

- Olha, Paula, eu não sei o que vai acontecer comigo… — Eu disse, virando para ela. — Mas eu queria pedir desculpas do fundo do meu coração. Eu sei que fui um péssimo amigo esse ano. E que eu na realidade sou um péssimo amigo. Eu só queria que você entendesse minha dificuldade… Sabe, eu não sou bom em dar presentes. E eu tive o dia todo para perceber o motivo. Eu não sei dar presentes porque eu às vezes sou egoísta demais para prestar um pouco mais de atenção nas as pessoas à minha volta. Eu quis compensar meus defeitos, quis resolver tudo com um simples presente. Também não resolveria, porque não é tão simples assim resolver um defeito tão grave quanto esse. Espero que você me desculpe.

- Você sabe que eu te desculpo! — Paula me abraçou forte. — Você é um cretino. Eu sei do seu problema e da sua dificuldade. E, sinceramente? Melhor assim. Eu prefiro um amigo que seja sincero como você foi do que ter um amigo que finge se importar e acabe me dando alguma coisa brega, tipo um par de meias ou uma caixa de brigadeiro gourmet.

- Ho, ho, ho! Adão, Adão, Adão…

- O senhor fala tudo em triplo? — Perguntei sem pensar.

- Adãaaao…

- Desculpa.

- Parece que você alcançou seu milagre de Natal, Adão. Estou orgulhoso. Tudo bem que passa da meia-noite, mas vou dar um desconto. Não é à toa que me chamam de bom velhinho. Vem cá, dá um abraço Adão. — E Papai Noel abriu os braços.

Eu já estava um pouco alterado por conta de toda sidra que eu havia tomado e, dessa forma, acabei me atrapalhando e enroscando a mão na barba do Papai Noel. Qual não foi minha surpresa quando a barba saiu na minha mão.

- Que isso, o senhor usa barba postiça? O senhor é mulher?

- Tá doido?

- Espera… Tio Waltinho?

- Ho, ho, ho, sou eu mesmo!

- Mas… O senhor… — Ouvi um som vindo de trás. Era Paula, rindo. — Vocês me enganaram?

- Você caiu direitinho! — Paula ria mais e mais.

- Tio?!

- Foi ideia da Paulinha, Adão. E foi bom pra você aprender. Olha, ela realmente atingiu o objetivo dela, de fazer você tomar um pouco mais de consciência, de aproveitar esse espírito natalino todo. E você se consertou, meu sobrinho. Ela tinha razão!

Eu fiquei um pouco triste por não ter conhecido de fato Papai Noel. E de ter perdido um dia da minha vida. Sim, eles me fizeram acreditar que ainda era dia 24, voltaram o relógio, e na verdade eu tinha acordado no dia 25 normalmente. Eu aprendi minha lição, e passaria a prestar mais atenção nas pessoas que realmente importam e dar valor a cada uma delas. Tamanha foi minha alegria que no dia seguinte liguei até mesmo pra tia Almira e desejei boas festas, mesmo ela me chamando de idiota por estar ligando no dia 26. Celebramos nós três o Natal — eu, Paula e Tio Waltinho.

- Hunf… — Reclamou Tio Waltinho e, olhando para nós, disse. — Não sei vocês, mas não me caiu bem. Não deveria ter misturado essa sidra com o panetone.

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