Relatividade

A mensagem piscava na tela do celular. Era a única coisa que brilhava no escuro — meus olhos estavam cansados demais para se destacarem no breu. Entre um gole e outro da cerveja, me peguei com a mão direita gelada. Era inverno. Então por qual motivo eu estava com uma bebida que até poucos minutos atrás estava num freezer provavelmente menos frio que o vento lá fora? Inércia. Era o que tinha em casa, e eu pouca ou nenhuma disposição tinha para levantar de onde quer que eu estivesse só para ir ao supermercado comprar um vinho barato.

Inércia. Um princípio físico, uma lei de Newton inteiramente aplicada sobre mim. Inércia. Se você fala a palavra assim, em voz alta, ela fica parecendo o nome de alguma tia velha. Tia Inércia, já cheirando a naftalina. E eu notei a presença dessa tia velha em minha vida quando um dia, e note que eu não disse “um belo dia”, eu, zonzo com meus próprios pensamentos, abri a porta do meu apartamento e me deparei com a mais absoluta bagunça. Quando foi que eu comecei a morar dentro de um quadro do Escher? Agora eu entendi tudo. Meu deus, que tragédia! Estou morando numa metáfora.

A mensagem ainda piscava. Ela me mandou um texto de dez linhas ou mais, e eu optei por ignorá-la por 24 horas. Uma das tantas maravilhas da tecnologia. Você pode pôr as pessoas em suspensão simplesmente não olhando para elas. Me perguntei se essa não era uma saída infantil. Fingi que não vi a mensagem deixada e me senti tal qual a criança que brinca de esconde-esconde, tapa os próprios olhos e acha que está escondida.

Eu poderia ter escolhido um copo de leite bem quente. De gelada já bastava a casa, a geladeira, a cerveja e a batida do meu coração. Mas, às vezes, não temos espaço para as coisas quentes. Às vezes precisamos de temperaturas abaixo de zero para que tudo aquilo que ficou de mal resolvido entre numa espécie de hibernação. Transformar os sentimentos em ursos: grandes, assustadoramente grandes, ferozes, e que só se acalmam quando chega o frio.

Eu poderia ter escolhido um generoso copo de leite bem quente com um delicioso achocolatado. Me detive nesse pensamento. Se eu fosse considerar cada possibilidade do que poderia ter sido e não foi — e me senti preso e sufocado nesse verso assim como Manuel Bandeira — eu não mais viveria. Eu poderia ter escolhido o agradável leite quente, o copo branco preenchido de paz e perdão. Eu, no entanto, escolhi o amarelo doente e amargo do álcool.

Tudo poderia ter sido perdoado, mas jamais deixado de ser lembrado. Até o próprio reflexo no espelho é assustador quando você vive com um fantasma do lado. Você vive eternamente num inverno cheio de neblina, lutando contra o ar denso para dar o próximo passo. Todo golada de leite quente tem sabor de cerveja.

O celular continuava aceso. Meus olhos, ah!, esses já estavam apagados.

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