Foto: JD Hancock (Creative Commons)


Sinal



Entrei no elevador. Ao ouvir passos apressados rapidamente segurei a porta para que esta não se fechasse. Entrou uma mulher com sua bolsa. Disse sorrindo “obrigada pela gentileza”. Respondi apenas um “quêisso”. Logo senti aquela inquietação que o outro proporciona quando vai falar alguma coisa. Não sei como funciona, talvez seja linguagem corporal: o olhar se fixa, a boca tamborila e você pensa — essa pessoa vai falar, vai falar, vai falar — e eu tinha razão, infelizmente. Logo ela sacou um DVD ainda embalado de dentro da bolsa e, antes que eu pudesse me perguntar se ela sabia que já tínhamos chegado ao ano de 2014, a mulher foi logo disparando: “conhece esse filme?”. Já era o terceiro andar, ela pararia no sexto. “não conheço”, respondi, ao ver a capa: “DEUS NÃO ESTÁ MORTO”. “é sobre um professor de filosofia arrogante ateu que discute com um aluno sobre a existência de Deus”, explicou a mulher num híbrido de IMDB e Twitter, provavelmente devido à iminente chegada do seu destino. “assiste, é ótimo”, ela disse antes de despedir-se. O elevador fechou-se, tornou a subir e eu olhei para cima, pensando: “Deus. Se a intenção era passar algum sinal, o Senhor costumava ser mais sutil, hein? Podia ter me salvado de um acidente, mandado uma pomba pousar na minha janela… Não, melhor não, essa cidade sofre com infestação de pombos e eu provavelmente enxotaria o Senhor com uma vassoura. Mas onde ficou todo aquele cavalheirismo bíblico? Pô, mandar uma mulher com um DVD pra avisar que o Senhor é igual ao Elvis e que não morreu é sacanagem”. A porta do elevador abriu-se e, ao tentar entrar em casa, logo constatei: “porra! perdi minhas chaves”.