Transição

Muito se fala do poder das imagens em nos levar para o passado em questão de segundos, uma ferramenta muito mais eficiente que qualquer DeLorean. Pouco se fala — se é que se fala — do poder de projeção de uma fotografia. Com a mesma brutalidade que ela nos suga para uma espiral de nostalgia, também pode nos levar a uma vertiginosa viagem a um futuro desagradável: você olha para a foto de um amigo e pensa, “pelo amor de deus, eu não quero ficar assim”.

O pão de queijo há pouco consumido deu uma volta digna de grandes montanhas-russas, o café-da-manhã rodopiou feito o Pião da Casa Prória. Era nove da manhã e eu mal abrira as redes sociais, quando aquela foto cruamente verdadeira pulou na tela. Era como naqueles vídeos que pedem pra gente ficar concentrado para então jogar na nossa cara a menina do Exorcista gritando escandalosamente, forçando a gente a abaixar o volume do computador e rezar para que nossa mãe não tenha ouvido nada e entre no quarto dizendo “que barulho é esse?”, tudo isso enquanto você segura na mão o coração que acabara de cuspir.

Um ex-colega de Ensino Médio, cuja vida acompanhei de perto durante toda minha vida escolar (efeitos de ter estudado a vida inteira no mesmo colégio), apareceu súbita e repentinamente formado. Mas não era só isso. Diploma eu também tenho. Era a plástica, de um realismo que nenhuma arte seria capaz de emular, nenhum Machado de Assis seria capaz de pôr em palavras. O cabelo já ralo, ainda que este sujeito fosse da minha idade, os óculos, o semblante característico, o terno alinhado e a gravata azul davam o diagnóstico terminal: era um autêntico tiozinho.

E um súbito medo me ocorreu: uma sensação desagradável, um suor desesperado; o do tempo que chega sem avisar, e que, de repente, eu mesmo posso acordar com essa cara de tiozinho, uma meia-idade assustadoramente kafkaniana.

É a transição. Ninguém fala sobre transições. O que importa é a Idade Média e a Revolução Industrial. Que valor tem o meio tempo entre as duas épocas? É assim com todos os momentos da História da Humanidade que não são exatamente nem uma coisa, nem outra.

23 anos é uma transição. Fala-se dos 18, dos 20, dos 25, dos 30. E os 23? Uma fase onde os meninos-homens vão tomando rumos diferentes. Olho ao redor e percebo um fenômeno: conhecidos da mesma idade ou enveredaram para o tiozinho, a piada do pavê, o fazer-churrasco no fim de semana, o compartilhar memes de política pela internet, a vida já visando uma inevitável estabilidade futura. Ou ainda têm aqueles que se recusaram a crescer, são um estranho conceito de Peter Pan da classe média, o sujeito com cara de gente que já devia estar trabalhando, mas ainda frequenta festas universitárias, ostentando uma engessada e obrigatória felicidade representada por uma caneca de cerveja bem cheia.