Tá morto o menino briefing

Já faz uns bons 10 anos que larguei o mercado publicitário e migrei pro ~lado negro da força~ (AKA a área de marketing dentro das empresas) mas parece que as coisas não mudaram muito na área. A quantidade de agências pequenas que abrem e fecham todos os dias continua impressionante. Também não é pra menos, as faculdades continuam despejando toneladas e toneladas de publicitários no mercado e eles continuam saindo da sala de aula com todas as respostas do mundo na ponta da língua. Eu imagino que assim que eles percebem que aquele email com currículo engraçadalho que eles mandaram pro Nizan Guanaes não vai dar em nada, o segundo projeto em mente passa a ser criar a própria agência, salvar o mundo da publicidade ruim e ser o próximo Nizan.

Aí essa galera toda veste aquela roupa descolada, põe o óculos divertidão e sai pra rua a caça dos clientes. Como a empresa que eu trabalho é de porte pequeno pra médio, eu recebo contatos desse povo o tempo todo. E eu confesso que, por já ter estado do outro lado, geralmente eu dou a oportunidade deles apresentarem seus serviços pra gente. E foi cultivando esse hábito que eu comecei a entender os motivos de tantas novas agências não conseguirem se sustentar no mercado.

O roteiro dessas reuniões é basicamente o seguinte: O publicitário chega, coloca o imac na mesa e apresenta a empresa. Normalmente a empresa tem menos de 1 ano, mas o powerpoint é SHOWMWMWMWMWMW DE BOLA. Sem nem trocar de apresentação geralmente o cara já começa a mostrar slides sobre a minha empresa e o meu ramo. No início eu ainda pensava “legal, o cara fez uma lição de casa, estudou a gente…” mas hoje quando eu vejo isso, já começo a lamentar por ele. Nessa hora ele começa a divagar sobre o MEU ramo se baseando na googlada que ele deu (e que eu duvido que tenha ido até a página 2 da pesquisa). Amigos publicitários, não cometam esse erro! Proatividade é uma característica legal, mas se vocês não souberem usar, vão apenas parecer babacas. A não ser que estejamos falando de uma agência especializada ou de um profissional com experiência naquele ramo, as chances dessa análise soar rasa e as vezes até ofensiva pro futuro cliente são ENORMES. O pior de tudo é que muitos desses caras não param por aí. Na primeira reunião muitos deles já querem trazer peças, ações e ~dicas~ pro negócio. Mais uma vez, as chances de se apresentar algo que já foi utilizado ou mesmo descartado pela empresa são GIGANTES. Sem contar que eu já desconsidero fortemente uma empresa que me apresenta algo sem ter feito um briefing, por menor que seja. Na boa, quantas vezes esse povo ouviu essa bendita palavra na faculdade pra sair esquecendo dela assim no mercado?

Será que a síndrome do sabe-tudo que assola as redes sociais foi incorporada pelo mercado publicitário ou seriam os publicitários os verdadeiros culpados por pulverizar essa doença na internet? Não sei a resposta pra isso, mas como todo mundo quer ser sabichão, vou dar aqui duas ou três dicas pra você que faz uns freelas de publicidade ou mesmo tá começando com aquela agência marota com seus ~bróderes de facul~.

Meça seu ímpeto de mostrar que é fodão, parça. Eu já saí da faculdade com vontade de dominar o mundo, sei como é… mas em alguns momentos vale a pena se segurar. Não seja igual aqueles atendentes chatos do McDonalds que ficam tentando adivinhar o que você quer. Procure ouvir o cliente e entender melhor o que ele precisa. De repente o cara pode estar bem perdido e precisar de alguém que pegue na mão dele e faça o bê-a-bá, mas ainda assim você precisa entender que essa é a necessidade do cliente. Sem contar que você valoriza o seu trabalho quando não chega com 29 peças prontas pro cara. Não trabalhe de graça, especialmente se esse trabalho for o responsável direto para você NÃO PEGAR O TRABALHO.

E se mesmo assim você sentir que precisa impressionar o futuro cliente com o seu trabalho, mostre coisas que você já fez. Cite cases de outros clientes, mostre como você consegue se inserir no ambiente do cliente e acrescentar suas qualidades. Ah, e não chegue criticando as ações atuais do cara, você não sabe quais as dificuldades que rolaram praquele trabalho sair e você não sabe se esse trabalho foi feito pelo sobrinho do dono. Ele pode ser um bosta, mas ainda é parente do cara.

To dando essas dicas assumindo que a empresa seja boa, mas caso esse não seja o seu caso por favor esqueça tudo o que eu disse. Meta os pés pelas mãos e poupe o trabalho do cara de descobrir que você só faz merda depois que ele te contratar.