Não tenho lembrança nos meus mais de 11.500 dias de existência, ter vivido um dia em que desejei tão profundamente estar errado.

Queria muito estar errado em pensar que o impeachment foi motivado pela ganância espúria de pequenos e engenhosos grupos de poder que pouco se importam com o que a população pensa ou deixa de pensar, mas que ao invés disto, o acontecido se deu por um bem maior da nação que pune implacavelmente os corruptos e planta as árvores que gerarão frutos de solidariedade, igualdade e paz social no futuro.

Gostaria de estar errado em prever que a Lava-Jato sumirá do radar midiático e consigo as tramas ardilosas daqueles que prejudicam o erário público, mas que na verdade as instituições sairão mais fortalecidas deste processo e que o governo atual terá a isenção necessária para se deixar fazer justiça sem impedimentos e privilégios aos que de agora em diante ocuparão o poder.

Adoraria não acreditar que a truculência policial e militar será o antídoto adotado para oprimir quaisquer resistências legítimas e movimentos sociais que ousarem questionar os novos rumos da nação, mas acreditar que a democracia forte como nunca, acolherá as manifestações contrárias de maneira justa e harmônica, garantindo plenos direitos de contestação e organização.

Queria muito estar errado em prever que hoje é o primeiro dia de um dos maiores retrocessos políticos e sociais da história democrática brasileira, e que na verdade o que acontecerá é uma ampliação dos diretos sociais, políticos e econômicos de todos, principalmente daqueles menos endinheirados.

Queria também não acreditar que caminharemos a passos largos em direção à um crescimento econômico concentrador e um agravamento agudo da pobreza e sua mais notória consequência: a violência urbana, mas sim que entraremos em um ciclo de ajustes necessários para construção de bases sólidas para um desenvolvimento inclusivo onde a pobreza e a fome sejam coisas da passado.

Gostaria de não achar que nossas reservas petrolíferas serão vendidas, a educação pública que ainda resta privatizada e o direito à saúde universal aniquilado, mas de que colheremos os louros das nossas riquezas naturais e que investiremos estes na promoção de uma educação e saúde de qualidade e acessível para todos.

Em resumo gostaria de estar errado em me sentir triste por acreditar que a nossa já frágil democracia foi duramente ferida e agonizará por um bom tempo.

Já não me disponho à resistência das ruas, mas também não posso ficar calado. Se estou certo ou errado conto com o tempo pra me mostrar.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.