O dia em que eu viajei com uma passagem só de ida (sem saber)

Uma crise de pânico, a certeza de morrer e uma viagem pra longe fazem maravilhas pelo ser humano.

Era 29 de agosto de 2015 e o vôo 501 da Lufthansa tinha um lugar marcado com o meu nome. O destino era Colônia, no oeste alemão. Mas eu jamais imaginaria que iria muito mais longe.

Você já deve ter lido por aí ou visto em filmes: a pessoa larga tudo, geralmente depois de um pé na bunda, e cai no mundo para viajar em busca de si. Bom, eu sempre acho que quem viaja tá tentando recuperar um pouco de si e que não é preciso ir tão longe pra se achar. As vezes um terapeuta basta. Em outras, um amigo conselheiro e coração aberto para escutá-lo.

Mas essa não é uma história sobre viagem. É sobre autoestima.

Corte rápido para agosto de 2014, quando eu tinha passagens compradas para Nova York com uma amiga. Aquela viagem bem Sex And The City, compras, comida boa, as melhores boates e a vontade de ver meu quadro favorito do Van Gogh. Um mês antes do embarque, uma crise monstruosa de ansiedade e a certeza: eu ia morrer.

Eu ia morrer naquele avião, rumo à selva de concreto onde os sonhos são feitos. Eu tinha certeza. Rezei desesperadamente, em busca de um sinal que confirmasse que eu devia ficar em casa quietinha. Caiu o avião do Eduardo Campos. Não que eu ache que Deus ia matar um presidenciável só pra me falar: ó, filha, fica longe de NY, belê?, mas eu pedi então tive que aceitar.

Desisti de viajar, jurei de pés juntos por tudo o que era mais sagrado que nunca, nunquinha, eu poria meus pés em um avião novamente. Nem que fosse acompanhada da minha mãe. Ou do Papa. Nem do Tom Hiddleston e Schweinsteiger juntos, um de cada lado segurando minha mão.

Um ano depois, quem tava indo pra Alemanha estudar, sozinha e sem falar uma palavra sequer na língua de Goethe? Yep, euzinha. Se você tá achando essa mudança radical, é porque não imagina a que veio depois.

Pensa numa pessoa medrosa, com um fiapo de autoestima e 3% de confiança. Agora você imagina essa pessoa totalmente dependente, que não fazia nada sozinha e vivia presa numa zona de conforto que media aproximadamente o tamanho de um azulejo. Era eu na época. Achava que nunca faria vôo solo, que não ia conseguir encarar um avião all by myself, que não ia nem ter assunto comigo mesma.

(Aqui eu preciso explicar que viajar sempre fez parte de mim, assim como o medo de avião. Graças ao Harry Potter, desde os 7 anos eu sonhava com Londres e, alguns anos mais tarde, a vontade de morar fora ganhou terreno. Como essas duas pessoas conviviam no mesmo espaço aqui dentro? Sei não, mas acho que explica o tanto de conflito existencial.)

Mas eu tava lá. Tinha feito terapia, tinha recebido alta e tava de saco cheio. Saco cheio da vida de sempre, da rotina de sempre, das pessoas de sempre, da Rafa de sempre. A reserva no vôo 501 foi uma tentativa desesperada de chacoalhar as coisas, um grito por um pouco de emoção. Mesmo que essa emoção envolvesse um medo gigantesco e um frio na barriga desgraçado.

Eu nunca tinha ficado sozinha na vida.

Quer dizer, claro que tinha. Mas não por mais de, sei lá, 10 horas? E não vou negar: o começo foi um inferno. Eu chorei embarcando, eu não preguei o olho durante as 11 horas de vôo mesmo tendo tomado dramin, passiflora, um vidro de floral e uma cerveja (e olha que eu fico bêbada com duas).

Cheguei em Frankfurt e peguei o trem rumo à Colônia. Nesse meio tempo eu me perdi naquela porra de aeroporto gigante, fiz amizade com um encarregado do aeroporto que levou a mim e às malas pro trem e conheci um chileno que dividiu a mesa do comboio comigo. Mas essa história não é um Comer, Rezar e Amar, então ficou por isso mesmo.

A primeira noite foi quando eu tive contato com todos os meus demônios. Ao conquistar a etapa avião com sucesso, meu cérebro resolveu me bombardear com todos os problemas que ainda poderiam aparecer ao longo daquele mês e pouco. Tava um calor inimaginável, eu não conseguia dormir, a ansiedade chegou com o pé na porta e eu oscilava entre três pensamentos: “o que eu tô fazendo aqui?” “quero a minha mãe, mas só tem vôo amanhã à noite” e “e se eu não fizer amigos na escola?”.

A sorte é que eu tinha o Andreas. Andreas é o cara que eu morei lá. Ele é uma das melhores pessoas do universo e merece um capítulo inteiro só pra ele. Aguardem.

Superada a Noite do Terror, os dias se passavam sempre melhores que os anteriores. Eu puxei papo com desconhecidos, fui cara de pau, visitei lugares incríveis, dei muita risada, jantei sozinha num restaurante movimentado sem me preocupar se tinha alguém olhando, saí pra beber uma cerveja quando tava a fim e sem companhia, aprendi alemão, fiz sim amigos na escola e até tive uma daquelas paixões de férias que fazem o coração disparar, a barriga encher de borboleta e a gente fazer promessas estúpidas.

Então, sim, essa é uma história de amor.

Eu nunca vou esquecer Colônia, a cidade que cuidou de mim, mostrou a minha melhor versão. Mas essa história não é sobre a cidade que me conquistou a alma e o coração.

Eu nunca vou esquecer as pessoas que eu conheci. Os amigos, os amores, os desconhecidos que viraram anjos e os contatos de emergência que viraram amigos. Mas, de todas as pessoas que eu conheci, uma ganhou um lugar especial: Eu mesma.

Essa é uma história de amor. Próprio.

Hoje o Facebook me lembrou que nesse mesmo dia, em 2015, eu embarcava nessa viagem que me mostrou quem eu poderia ser. Lá eu descobri que poderia ser a mulher que eu sempre quis ser. E que eu sou sim divertida pra caramba, inteligente, sei fazer amigos e me virar sozinha. Que o meu corpo me serve muito bem e que olhares mais amoroso sobre ele existem. Que eu sou uma excelente companhia pra mim mesma e pra quem mais tenha essa sorte.

Que eu sou forte e consigo superar os problemas que vierem — e, putz, se a Rafa de então achava que tinha problemas sérios… tadinha. Não sabia de nada mesmo.

Isso tudo foi lá, mas poderia ser aqui. Poderia ser em qualquer lugar. Apesar de ter uma reserva no vôo 500 pro Rio, a passagem foi só de ida. Não porque eu renasci lá ou qualquer metáfora que o valha, mas porque eu descobri que a Rafa que eu queria ser tava aqui há um tempão. Porque, ainda bem, a viagem da autoestima não tem volta e é destino que avião nenhum alcança.

Essa história é sobre a garota que jogou todos os medos e inseguranças pro alto, que (raridade!) não pensou e só foi. É pra dizer o quanto me orgulho dela, o quanto ela me inspira e ensina. E, mais que tudo, é pra comemorar quem somos hoje ❤