Amor sobre rodas

Foto: Rafaella Rizzo

A coisa mais normal do mundo é, durante um passeio por São Paulo, ver vários casais aproveitando a companhia um do outro. Entre abraços, beijos e carícias que causam inveja à maioria dos solteiros, um casal se destaca. A princípio, os dois parecem diferentes apenas pela aparência. Ambos usam cadeiras de rodas. Também são pequenos e tem pernas atrofiadas. Ao se abraçarem, as cadeiras não deixam que se aproximem muito, então eles precisam esticar mais os braços. O esforço é maior, mas eles não parecem se incomodar. Conversam animadamente, riem e, quando se olham, transmitem tudo aquilo de bom que um casal apaixonado pode expressar.

Ela é Bruna, de 21 anos, e ele é Jhony, de 25. Outra coisa que chama a atenção é ver que a mãe da Bruna está quase sempre junto com o casal. Márcia, de 50 anos, é costureira e sempre acompanha a filha em todos os lugares. Ela também foi o cupido nesse relacionamento. “No começo eu contei com o empurrãozinho dela. Eu já era apaixonadinha pelo Jhony, mas não queria admitir e minha mãe me incentivou a marcar ele numa certa publicação no Facebook, mesmo não tendo amizade com ele. Marquei ele e a partir disso nunca mais paramos de nos falar”, conta Bruna. O casal está comemorando 8 meses de namoro e durante todo esse período apenas se encontraram cerca de 7 vezes. É que, além das restrições de mobilidade, eles enfrentam outro obstáculo: a distância. Ela é de São Paulo e ele é de Cabo Frio, no Rio de Janeiro, então acabam se encontrando só uma vez por mês.

Mas nem tudo são alegrias e amores. Às vezes, atividades que são simples para não cadeirantes, para eles é um desafio. E não estou falando de subir escadas, ladeiras ou fazer uma faxina em casa. Estamos falando de namorar em espaços públicos sem que sejam notados ou fortemente encarados. Eles admitem que receber olhares curiosos é algo constante, quando estão juntos. “Me sinto um ET. Sinto que as pessoas me olham com pena e isso me incomoda”, desabafa Bruna. Já Jhony procura encarar a situação de forma positiva. “Quando percebo que estão me olhando, abro um sorriso para a pessoa. Eu procuro encarar como um olhar de curiosidade. Pode ter alguém que vê como eu sou independente e quer saber como conquistei isso. Sempre gostei de explicar o que é a mielomeningocele e como tenho uma vida normal mesmo com ela”, explica.

Mielomeningocele. Esse nome esquisito parece um tipo de trava-línguas. Mas, na verdade, trata-se de uma má formação na coluna vertebral que acomete a criança durante os primeiros meses de gestação. Jhony e Bruna possuem essa má formação e desde pequenos enfrentam barreiras. Quando bebê, por exemplo, ele não engatinhava, mas se arrastava. Conseguiu sua primeira cadeira de rodas aos 11 anos, e sempre lutou para ser independente. Vai para todos os lugares que quer e precisa sozinho. Já Bruna conta bastante com a ajuda da mãe. Márcia, desde que a filha nasceu, se dedica a acompanha-la. “Sou uma leoa tomando conta do seu filhote. Aos 29 anos, parei tudo para cuidar dela, mas não é sacrifício nenhum”, diz Márcia.

Apesar de ter a mãe ao lado para muitas tarefas, após conhecer Jhony, Bruna encontrou uma inspiração para ser mais independente. “Ele é meu espelho, meu exemplo. Vejo como ele faz as coisas sozinho e aos poucos estou me desafiando”, afirma. Ele, já afirma, que ela o completa. “Ela me ajudou a ser menos tímido e mais paciente. Sou muito ansioso e ela me ensinou a ter equilíbrio, a não ser tão afobado”, completa Jhony.

E essa recente e intensa história de amor tem um objetivo: o casamento. Eles já planejam um futuro juntos, o que causa espanto para algumas pessoas. Afinal de contas, a vida de casado não é simples e para um casal de cadeirantes, ela tem mais obstáculos ainda. Bruna ainda quer ir além e, um dia, ser mãe. “Não é e sei que não será fácil, mas vou conseguir. Quero minha mãe por perto e mesmo com as dificuldades, sou feliz. Tem pessoas que me veem e dizem ‘Nossa, mesmo assim ela é feliz’. Porque eu sou cadeirante, eu tenho que ser triste?”, questiona.

Em suas vidas, Bruna e Jhony tiveram muitas experiências, aprendizados e ainda tem muito pela frente. Eles são a prova de que é possível superar tudo: obstáculos físicos e ideológicos. Olhares curiosos e preconceituosos.