Cruz

Ela carrega uma pesada cruz em seus ombros. Sua roupa esfarrapada é só sujeira, podridão e rasgos. Enquanto caminha olha fixamente para o chão. O peso faz com que ela esteja encurvada. Suor e sangue escorrem da sua testa. Lágrimas. Ofegante. Seu rosto desfigura pela dor. Seus olhos verdes se tornam rubros. Como se sangrassem em tormento.

Os pés descalços pisam as pedras pontiagudas. O sol quente castiga. Tanto peso, há pecado em seu dorso. Cada passo, uma eternidade. Ela chegou ao topo do monte. Como num alívio, ou descuido, a cruz lhe escapa. Ela finalmente pode olhar para frente. Não fosse a dor, poderia até apreciar a campina verde e o rio de água fresca que fica metros abaixo dos pedregulhos cinza. Mas não pode. Uma missão a trouxe até ali. Dói, mas ela precisa fazer.

Ela olha as ferramentas. Pregos… três. Marreta. Todos pesados. Enormes. Com esforço, arrasta a cruz e a coloca no lugar. Respira fundo e, como se tomasse coragem e lutasse contra o mundo todo dentro de si, deita sobre a ela. Os olhos pesados se fecham e ela lembrae de toda a jornada até ali. A glória do mundo. Toda sua escuridão. O apresentar de uma nova vida. Um amor eterno, vida eterna. A campina era a promessa. O riacho, as águas vivas. Ela queria tanto alcançar. Mas antes precisava morrer.

Seu eu, que ainda era sujo, que ainda era mundo. Seu corpo que ainda estava podre, que ainda desejava prazeres. Sua mente confusa. Sua visão cega. Seu coração quebrado. Um sussurro: crucifica-o.

Não é a primeira vez que ela passa pela cruz. Muitos erros, quedas e falhas. E mais uma vez ela precisa matar a carne. Por Ele. Recomeçar. Por Ele. Lutar. Pela fé. Ela lentamente abre os olhos. Estica os braços e apruma os pés. Um sobre o outro. Precisa morrer.

Ela houve alguém pegar a marreta e os pregos. Percebe alguém caminhar até lá. Sente a ponta do prego na mão direita. Ofegante. Um grito. Quatro batidas. A mão esquerda é a próxima a ser cravada. E depois, sem nenhuma misericórdia, os pés sentem o peso da marreta sobre o prego, enorme, atravessando o madeiro. “Piedade”, ela clama. Mas seu carrasco ignora. Ela sente a cruz sendo levantada. O peso do seu corpo faz arder os furos.

Ela chora, grita, implora. Procura o seu carrasco. Olhando para baixo vê alguém em pé, contempla a cruz como um troféu. Observa a cena como quem venceu. “Piedade”, clama. Crucificada. Ao observar bem, pode identificar. O assassino é ela mesma. A assassina levanta o rosto, sorri. “A carne não tem piedade”.

Dá as costas para a cruz, como quem deixou o passado. Não está mais suja. Suas vestes, agora brancas, resplandecem. Seus olhos, não mais vermelhos, podem apreciar a campina. A mente tem seu objetivo. O rio de águas vivas. Ela caminha. Não fita mais o chão, mas olha para frente. Rumo à gloriosa Salvação.